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Rocha Pinto há 40 anos sem água canalizada – administradora do bairro recusa-se a comentar, EPAL diz que estão previstos fontanários

O bairro do Rocha Pinto, no distrito urbano da Maianga, em Luanda, nunca teve água canalizada desde que foi criado, há mais de 40 anos. Para terem água em casa, os habitantes são obrigados a adquiri-la em tanques aos vendedores que abastecem o bairro com camiões cisternas, ou optar por comprá-la aos "kupapatas", que vendem bidões de água porta a porta.

O bairro possui ruas maioritariamente suburbanas, entre residências modernas e velhas moradias, e tem uma população estimada em cerca de 852 mil habitantes. Existem no bairro infraestruturas comercias, desportivas e religiosas.

O acesso ao interior do Rocha Pinto faz-se pelas estradas da Samba e 21 de Janeiro, nos dois sentidos. o NJOnline percorreu o bairro e conversou com vários moradores.

Entre as muitas lamentações, como, por exemplo, o nível de delinquência que faz parte da vida quotidiana da população, os moradores contaram que nunca viram canalizações na zona, tendo de recorrer à água dos camiões cisternas ou dos “kupapatas” há já vários anos.

A forma como transportam a água é indiferente: pode ser em carros de mão, em baldes e bidões transportados à cabeça por jovens, crianças e adultos, tanto faz, o importante é que chegue aos lares de cada um, constatou o NJOnline no local.

Dona Guida, moradora na rua “Monte Sinai”, no Rocha Pinto, há 36 anos, disse que em sua casa vivem muitas pessoas e que tem gasto muito dinheiro para o consumo diário, comprando cada bidon a 70 kwanzas e por dia e gastando mais de oito bidões.

“No vizinho bairro do Morro da Luz, no sector 1, já há canalização desde 2016, e nós ainda não temos, vivemos comprando água e essa é a nossa luta diariamente”, contou.

Fátima Afonso e Miguel Luís, dois moradores que se juntaram à conversa, disseram que têm comprado a água em camiões cisterna a 20 mil kz, mas que essa água não tem qualidade para consumo.

“A água tem sido muito turva e não dá para usá-la para o consumo, às vezes temos mesmo que fervê-la ou desinfectá-la se for para beber”, explicaram.

Margarida João, que vive há 20 anos na zona, tem um tanque de 20 mil litros no seu quintal, onde comercializa cada bidão e banheira entre 50 e 80 kwanzas, mas lamenta pela qualidade da água.

“A minha casa é grande, tem dois quartos de banho, e compro 12 bidões de água por dia, pois as sanitas requerem muita água e 12 bidões é quase nada”, disse Marisa Francisco, outra moradora.

Marisa diz que encontra muitas di culdades para a lavagem da roupa da família, ao m-de-semana, em que chega a gastar entre quatro a cinco mil kwanzas.

“Aqui no Rocha Pinto nunca tivemos água, nunca nos zeram canalização, sempre vivemos a comprar a água nos tanques, camiões cisternas e em kupapatas”, disse David Mário, ancião de 86 anos, que vive na zona há 38.

“Ficámos a saber, em 2012, que a EPAL já esteve aqui a ver a situação da população, mas até agora nada fez para melhorar a vida da população que vive sem água”, referiu o ancião.

Os residentes do Rocha Pinto lamentaram profundamente o tempo de abandono, por partes das autoridades competentes, visto que o bairro está muito próximo da zona baixa da cidade de Luanda.

“Se existe o projecto “água para todos” em vários bairros, então que chegue também aqui ao nosso bairro porque isto é demais. Por favor!”, lamentaram os moradores ao NJOnline.

No Rocha Pinto, a população residente vive sem saber o que é uma torneira com água corrente há mais de 40 anos por isso queixa-se da falta do bem precioso e dos elevados gastos que os munícipes do bairro têm feito para adquirir água. A venda de água no bairro é antiga, dada a sua carência.

A cada minuto, motos de três rodas, os chamados “kupapatas”, passam a comercializar a água nas ruas, o que é característico naquela zona. Ao longo das estradas da Samba e 21 de Janeiro podem ser vistos camiões cisternas de água e “kupapatas” à espera de compradores.

No bairro do Rocha Pinto, periferia que se encontra perto do centro da capital, a auto-construção anárquica e a falta de saneamento básico são notórios em quase toda à sua extensão. Os habitantes disseram ao NJOnline que já apresentaram as preocupações à administração do distrito do Maianga, muitas vezes, mas nunca obtiveram respostas, apelando assim ao Executivo de João Lourenço para que olhe para o sofrimento em que vivem.

Sobre o assunto, o NJOnline contactou a administradora do bairro do Rocha Pinto, Eurídice Rodrigues da Conceição, para alguns esclarecimentos necessários, mas esta não aceitou prestar declarações.

Vladimir Bernardo, chefe do departamento de comunicação institucional e porta-voz da Empresa Pública de Águas de Luanda (EPAL), contactado pelo NJOnline, explicou que no bairro apenas na zona do campo do Interclube, (Estádio 22 de Junho) há água canalizada a correr nas torneiras.

“Parte do bairro Rocha Pinto, zona do campo do Inter até à Gamek à direita, tem rede de distribuição e corre água oriunda do centro de distribuição da Maianga “, disse o porta-voz.

Vladimir Bernardo reconheceu que na zona da “Paviterra”, (sentido Gamek à direita), foram efectuadas cerca de 7.897 ligações domiciliares, mas até ao momento não recebem água.

“Esta área está a aguardar a conclusão das obras do novo Centro de Distribuição de Água do Aeroporto (Cabeceira do Aeroporto) que servirá de reforço para esta zona”, referiu.

Nesta altura, conta o porta-voz da EPAL, as obras do centro Cabeceira do Aeroporto estão concluídas, e decorrem os ensaios da rede.

O chefe do Departamento de Comunicação Institucional da Empresa Pública de Águas de Luanda disse que a parte do bairro Rocha Pinto que não tem rede de distribuição de água não foi contemplada no projecto de ligações domiciliares devido à descaracterização arquitectónica (estreitamento de ruas, moradias sem quintais) do bairro.

Segundo Vladimir Bernardo, para atenuar a carência de água, no bairro do Rocha Pinto a EPAL prevê lançar em breve uma rede de fontanários.

“Já foi feito um levantamento em conjunto com a administração local e o empreiteiro e indicados já alguns pontos. A fase seguinte será a de elaboração do projecto para o lançamento da referida rede”, explicou. (Novo Jornal)

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