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Portugal na luta contra a guerrilha em Angola: A história dos primeiros soldados a embarcar para a Guerra do Ultramar

Foram aclamados como heróis à chegada a Luanda, mas estavam mal preparados, não tinham equipamento adequado e nem sabiam bem o que estavam ali a fazer. Sobreviveram – a custo – sem saber que tinham à espera outra batalha para a vida: o regresso a casa.

O dia tinha acabado de nascer no porto de Luanda quando mais de dois mil soldados desembarcaram do paquete Niassa, depois de duas semanas no mar. Os homens pouco mais eram do que rapazes, vestiam uma farda de caqui amarela amarrotada da viagem e foram engolidos por um mundo totalmente novo e diferente do que tinham deixado para trás. Impressionaram-se com a grandeza da cidade – muitos conheciam apenas as aldeias onde haviam nascido e os quartéis onde tinham feito as recrutas -, com a beleza da baía caiada pela luz da manhã, com a multidão em êxtase que os saudava como heróis enquanto desfilavam, gritando “Vivas” alto e bom som.

Era 1 de maio de 1961. O furriel miliciano António Gomes, à época com 21 anos, foi surpreendido logo à saída do navio. Nunca imaginara ser recebido no porto por milhares de pessoas, naquela terra tão distante da sua Lisboa natal.

A época das chuvas em Angola estava a terminar e aproximava-se o cacimbo, uma época mais seca que vai normalmente de maio a setembro e que costuma anunciar os carregamentos de café das fazendas do Norte para Luanda.

Mas naquele ano não cheirava a café, uma das maiores riquezas do território: cheirava a guerra, embora os soldados portugueses só se tenham apercebido do sangue que corria no capim quando saíram da capital angolana em direção ao mato.

“Lembro-me de ouvir alguém dizer assim que desembarquei: ‘Obrigado por nos virem salvar.’ Eu olhei à minha volta e o que vi foi uma cidade bonita com praias, sol…Mas o que é que eu venho fazer? Salvar de quê? Salvar como? Éramos uns miúdos! Qual era a experiência que eu tinha de selva ou de guerra? E ainda tinha a responsabilidade por nove ou 10 homens da minha idade. Só pensava: ‘Como é que me sinto capaz de tomar conta deles se não consigo sequer tomar conta de mim?’”, recorda António Gomes, 80 anos, em conversa com a SÁBADO a partir do Canadá, onde hoje vive.

No dia seguinte, o Diário Popular descrevia de forma entusiástica o desembarque das primeiras tropas portuguesas mobilizadas para Angola, depois de estalar a Guerra Colonial: “Excederam toda a expectativa as manifestações a que se assistiu na avenida marginal desta cidade. O entusiasmo incontido da multidão inundou a grande artéria e passou rapidamente de transbordante a delirante, prolongando-se para além do desfile das forças armadas que percorreu a imponente artéria.”

Três semanas antes, a 13 de abril de 1961, António de Oliveira Salazar tinha proferido um discurso à Nação – a partir do Terreiro do Paço, em Lisboa, e transmitido pela rádio e pela televisão – onde disse a célebre frase: “Para Angola, rapidamente e em força.” Nos quartéis começou logo a azáfama, numa preparação acelerada com vista à mobilização dos primeiros batalhões do exército.

Houve tropas que tiveram direito a um simulacro, em Lamego, a única unidade onde era possível exemplificar algumas das ações mais significativas da guerrilha. Mas a preparação foi pouca, era urgente partir. “As novas que nos chegam [de Angola] são alarmantes, são consternadoras.

Gastem-se os anéis, mas salvem-se os dedos. Sem demora, sem hesitação, faça-se o que tem de fazer-se. Não amanhã, hoje”, incentivava por aqueles dias um frenético editorial de primeira página do mesmo Diário Popular.

“Vá para Angola”
António Gomes trabalhava desde os 11 anos como aprendiz de mecânico, profissão que desempenhou até ser chamado a cumprir o serviço militar. Foi incorporado no Batalhão de Caçadores 88, que viajou no Niassa com as companhias de artilharia 85, 86, 87 e 100 e ainda o Batalhão de Caçadores 92. Até ao final do ano, desembarcariam 33 mil tropas na então colónia portuguesa, considerada a joia da coroa do regime.

Foram estes homens o rosto invisível de uma guerra que sorveu entre sete e 10% da população portuguesa e mais de 90% da juventude masculina. Um conflito onde morreram, no total das três colónias, 8 mil militares portugueses (3.455 em Angola) e ficariam feridos ou incapacitados cerca de 100 mil soldados.

O furriel já tinha terminado o curso de sargentos milicianos, quando, durante uma recruta em Espinho, ouviu o seu nome soar nos altifalantes do quartel. “Chamaram-me à secretaria, deram-me um papel e disseram-me: ‘Vá para Angola!’ Não me deram mais explicações.”

Partiu no Niassa, o navio que saiu de Lisboa com destino a Angola a 21 de abril de 1961 e que foi o primeiro paquete fretado como transporte de tropas e de material de guerra .

Os testemunhos dos primeiros soldados enviados por Salazar

O embarque maciço de soldados para o Ultramar era feito por via marítima (Foto: D.R.)

Apesar de essas primeiras tropas terem embarcado em abril, em Angola o cerco apertava desde o início do ano. A 4 de janeiro, milhares de agricultores da antiga Companhia Geral de Algodão de Angola terão sido mortos – assim o reivindicaram os angolanos – por militares portugueses que ali cumpriam serviço, na Baixa do Cassange, distrito de Malange, como resposta a manifestações exigindo melhores condições de trabalho e a abolição do trabalho forçado.

Um mês depois, a 4 de fevereiro, um grupo de nacionalistas angolanos assaltou a cadeia da PIDE no bairro de São Paulo, numa ação que marcou o início da luta armada em Angola. Já não havia volta atrás.

A 15 de março, a União das Populações de Angola (UPA) matou centenas de colonos brancos, mas também negros que trabalhavam para os portugueses, num massacre sem precedentes que deu brado no estrangeiro e levou os Estados Unidos a votar favoravelmente uma resolução contra a política portuguesa em Angola.

Ainda antes de tomar posse, John F. Kennedy dispunha já de um extenso relatório – que descrevia o governo português como intolerável – especialmente crítico em relação aos territórios coloniais portugueses.

Nessa altura, o governo de Salazar tinha determinado o bloqueio das notícias sobre o que estava a acontecer em Angola. No espaço de uma semana, mais de três mil colonos foram retirados da região dos Dembos para Luanda. Muitos pensavam partir para a metrópole ou transferir as suas divisas para lá.

Os que ficaram procuraram defender-se como puderam dos ataques da UPA (União das Populações de Angola), organizando-se em corpos de voluntários milicianos até à chegada dos primeiros contingentes militares vindos da metrópole no início de maio.

“Não lhes voltaremos a cara”
Salazar, então com 72 anos, passara o início de ano com uma forte gripe aos cuidados da fiel governanta, Maria dos Anjos. E apesar de as forças armadas portuguesas estarem a preparar-se para o conflito há algum tempo – em 1959 seis oficiais fizeram um “estágio” com o exército francês, na Argélia, onde se vivia uma guerra para a independência – o ditador decidiu “arrumar a casa” e afastar os adversários internos antes de enfrentar o inimigo nas colónias.

Sabendo que o general Botelho Moniz tinha em marcha uma tentativa de golpe de Estado para o substituir por Marcello Caetano e modernizar o regime, o presidente do Conselho demitiu Moniz do cargo de ministro da Defesa e assumiu ele próprio essa pasta.

Mudança que comunicou ao País na mesma altura em que disse a mítica frase: “Para Angola rapidamente e em força.” No fundo sugeriu que o ministro da Defesa (Botelho Moniz) e o ministro do Exército (Almeida Fernandes) nada tinham feito pelo Ultramar e que por isso teve de os substituir.

No dia 21 de abril, data de partida do primeiro navio carregado de batalhões do Exército, a questão estava resolvida. Nessa madrugada os barcos de pesca não saíram para a faina e uma multidão juntou-se no Cais de Santa Apolónia, em Lisboa, para dizer adeus aos soldados que embarcavam rumo a um destino tão incerto como a sorte.

“Não vamos à procura de aventuras ou perigos, mas não lhes voltaremos a cara. Não sei se regressaremos todos, mas posso garantir a V. Exª que os nossos filhos nunca terão vergonha dos nomes que usam”, exaltou o tenente-coronel Ponte, comandante do contingente, numa cerimónia que teve início antes do embarque das primeiras tropas para Angola, citado pelo Diário Popular.

“As forças armadas não transigirão com o inimigo”, afirmou na mesma altura o ministro do Exército depois de passar revista às tropas “que desfilaram garbosamente, enquanto os populares acenavam com lenços brancos”, anunciava o mesmo jornal no dia seguinte. Já o Diário de Notícias afirmava: “Aclamando Portugal e o exército e cantando o hino nacional partiu ontem para Angola uma força expedicionária.”

Maria Celeste, mulher de António Ribas, um militar que embarcou em junho de 1961 num contingente que se foi juntar aos que tinham partido em abril e maio, viu mais do que aquilo que os jornais da época contavam. “Estavam lá umas mulheres da Nazaré, vestidas com os trajes típicos daquela região, que chamaram de tudo aos oficiais depois de os maridos e os filhos embarcarem.

Gritavam: ‘Vão para lá vocês seus malandros, mandem mas é para lá os vossos filhos’, recorda à SÁBADO a mulher de António Ribas, soldado do Esquadrão de Cavalaria 148. O marido também se lembra da vizinha “Lindinha” a gritar, quando o viu fardado e pronto para abalar: “Ai o Ribas coitadinho, vai para a guerra, ai o Ribas vai para a guerra.”

Mas aquilo que nunca esquecerá, por mais anos que viva, foi o grito do pai, que ecoou no cais de Alcântara, em Lisboa, a chamar pelo filho. “Tinha dito que não se ia despedir mas não resistiu…”, lembra o ex-militar.

De comboio rumo a Lisboa
A mobilização de António Ribas, hoje com 80 anos, começara um mês antes. O encadeamento rotineiro repetia-se à medida que as unidades eram mobilizadas. Em primeiro lugar realizavam-se os exercícios de instrução, recebia-se o fato de caqui amarelo e as vacinas.

Assim que chegava a ordem de embarque o contingente formava em parada no quartel, o capelão rezava uma missa campal, o comandante da unidade mobilizadora proferia umas palavras alusivas à missão e entregava o guião ao comandante do batalhão mobilizado e as tropas desfilavam ao som da música.

Nesse momento, o militar era autorizado a ir a casa despedir-se da família e da namorada, arranjar umas madrinhas de guerra para lhe escreverem se o medo da solidão apertasse e regressava à unidade mobilizadora para iniciar verdadeiramente a viagem.

As tropas embarcavam então nas viaturas militares para a estação de caminho de ferro mais próxima onde os esperava um comboio especial que os levava a Lisboa, ao Cais de Alcântara ou a Santa Apolónia, numa viagem normalmente noturna.

“Nesses dias de preparação nem tempo tive para me mentalizar”, lembra António Ribas. Já Januário Vicente, 79 anos, também não estava mentalizado – estava revoltado. “A nossa companhia, a 129, era considerada carne para canhão. Ouvíamos dizer isto ainda em Portugal e isso enervava-nos.

Tanto que vinha a casa, mas nunca trouxe a farda. Nem nunca disse à família que estava mobilizado para Angola. Na última semana deram-nos quatro dias, eu vim para a terra, não vim fardado”, conta à SÁBADO. Ao falar no assunto, emociona-se: “Estive aqui uns dias [na aldeia de Vale da Amoreira, em Valhelhas, na Guarda], regressei ao quartel e nunca mais apareci.”

Entrou no comboio em Viseu com destino a Lisboa mas fez uma paragem em Aveiro. “Eles deixaram-nos sair do comboio, levaram-nos a um quartel para tomarmos café, os copos eram de alumínio, partimos tudo, destruímos tudo.

Quando chegámos a Lisboa o comboio também já não tinha janelas. Íamos muito zangados. Não queríamos ser carne para canhão”, diz. A sua companhia viria a embarcar no dia 28 de maio no Cais de Alcântara com destino a Angola.

Com o navio atracado, as famílias, gente de todas as idades e condições, apinhavam-se nas varandas da gare marítima munidas de lenços e cartazes com o nome do militar de quem se despediam. A tropa voltava a desfilar, agora em continência perante um alto representante militar, com as senhoras do Movimento Nacional Feminino e da Cruz Vermelha a distribuírem lembranças e folhetos sobre o território de destino.

No momento do embarque os soldados subiam as escadas, procuravam o seu lugar no beliche armado nos porões e arrumavam a bagagem. De regresso ao convés, lutavam por um lugar na amurada ou trepavam aos mastros, para os últimos acenos à família que não sabiam quando (ou se) iam voltar a ver.

Por volta do meio-dia, o navio recolhia as escadas e os cabos, a sirene apitava e a instalação sonora tocava a marcha Angola é Nossa . O navio afastava-se sem pressas, virava a proa à foz do Tejo, passava por baixo da ponte e deslizava diante da Torre de Belém.

Da viagem de ida não há muito de que António Ribas goste de recordar, exceção feita aos fados de Coimbra que cantava ao serão “para animar o pessoal”, mesmo que para o fazer a preceito tenha pedido roupa emprestada a um camarada mais previdente que levou roupa de sobra. Viria a cantá-los ao longo de toda a comissão, principalmente o Fado Hilário – “o que os rapazes mais gostavam”.

“Muitos dos soldados eram moços da província que nunca tinham andado de barco, muitos nunca tinham visto mar, e a ondulação do barco deu-lhes a volta, ficaram maldispostos. Então aquele convés era uma coisa horrível, tinha de se andar agarrado para não se escorregar na porcaria. Houve muitos que não comeram durante a viagem toda, porque tudo aquilo que comiam vinha fora”, descreve Ribas.

Processo de transformação
A viagem também não deixou saudades a Arlindo Costa. “Íamos no Niassa como a sardinha na canastra, aquilo transportava gente como quem transportava animais, a nossa companhia ia lá no fundo, no último porão do barco.

Nem se podia dormir ali no fundo, muitos rapazes levavam os colchões para o convés para apanharem ar fresco. Porque a gente descia lá para o fundo numa escada de corda, dormíamos uns em cima dos outros…

Era tanto o calor naquele barco que a minha mulher tinha-me arranjado umas garrafas de vinho engarrafado e uma bola de queijo para eu levar na viagem e quando dei conta a garrafa rebentou, estragou a roupa que eu tinha no saco, foi o queijo à vida”, recorda Arlindo, 80 anos, sobre uma viagem que por mais anos que passem nunca irá esquecer.

De certa forma, a partir do momento em que entraram naquele barco com destino a Angola, aqueles homens passaram por um processo de transformação. Se é verdade que o sofrimento enrijece, todos eles entraram rapazes nos navios e regressaram a casa, dois anos depois, homens feitos.

À mulher, Arlindo, preferiu não confessar a data do embarque. “Ela sabia que era por um daqueles dias, mas não sabia qual, só contei à minha sogra, que morava connosco. Antes de ir para o cais dei-lhe um beijinho normal, ‘um adeus, até logo’, para ela não desconfiar.”

A filha de três meses ficou a dormir no berço, indiferente à guerra que esperava o pai – faltou a Arlindo a coragem para se despedir dela também.
Na viagem, a alvorada era às 6h30, a arrumação dos beliches às 6h40 e seguia-se a distribuição do café – primeiro aos chefes de grupo e só depois aos praças.

A limpeza do pessoal decorria entre as 7h15 e as 9h, a medicação tinha de ser tomada entre as 8h e as 11h, a revista de saúde era feita às 9h, a missa começava às 8h20 nos dias de semana e às 9h ao domingo. A instrução acontecia entre as 9h15 e as 10h30.

O recolher era às 21h, mas antes disso havia 15 minutos para serões artísticos ou cinema, reza o horário de serviços do Niassa. Às 21h30 todos tinham de estar em silêncio, mesmo que dentro das suas cabeças não faltassem cenários hipotéticos sobre o que podiam ou não encontrar quando desembarcassem.

Arlindo Costa recorda a viagem no Niassa em 1961

“À chegada, o governo deu-nos uma arma para irmos matar. Mas nós só fomos defender a nossa pele, porque se a gente não atirava a gente morria”, partilha Arlindo Costa, da Companhia de Caçadores 117, que saiu de Portugal a 28 de maio com destino a Angola.

Um relatório oficial relativo à viagem deste contingente referia que “após os primeiros momentos a bordo, em que foram estabelecidas as normas de vida, constatou-se ser o navio insuficiente para tão elevado número de pessoal, por falta de alojamentos capazes, especialmente do ponto de vista da higiene”.

Januário Vicente, da Companhia de Caçadores 129 seguia no mesmo barco. À chegada, depois da formatura e do desfile foram encaminhados para o local que lhes serviu de teto nas primeiras noites, antes de partirem para o mato. “Fomos para o edifício do seminário que estava em construção: não tinha portas nem janelas.

Depois as cozinhas eram ambulantes, estavam atreladas aos jipes e eram tantas as moscas à volta da comida que acabámos a comprar bananas a uns vendedores. Também havia uns tanques nas camionetas, eles punham uns taipais e a gente tomava ali banho”, descreve à SÁBADO.

Material obsoleto
O destino das tropas não era Luanda, mas sim a região Norte de Angola, onde se desenrolavam os conflitos. Durante o período passado na cidade, a instrução do pessoal consistiu especialmente na preparação física e mental, no aperfeiçoamento da técnica de tiro, sobretudo numa modalidade nova que parecia a mais adequada ao ambiente esperado, o tiro à caçador ou tiro instintivo, porque se previa a necessidade de fazer tiro em ambientes muito restritos e limitados, devido à grande densidade da floresta.

Pouco depois de chegar à ex-colónia, António Ribas lembra-se de ver os Dragões de Angola [as tropas a cavalo do Ultramar] “com cabeças penduradas de um lado para o outro”. Respira fundo. “Hoje era impensável ver aquilo, mas eles mostraram-nos fotos dos nossos patriotas cortados nas serrações, de crianças com paus espetados no sexo e isso trouxe-nos um sentimento de revolta muito grande. Era esse o objetivo, impelir-nos a atacar, dar-nos um motivo…”

Só não lhes forneceram material adequado. “As armas que nos deram eram as mausers, do início do século. Nem mapas para nos deslocarmos existiam, num território que para nós era completamente desconhecido.

E depois de sairmos de Luanda em direção ao mato tanto os carros como os rádios deixaram de funcionar, eram relíquias do passado”, continua. Nem sequer tinham mochilas, carregavam os pertences em sacos que lhes pesavam nos braços e nas costas. Ainda antes de chegarem as G3 [que só saíram da Fábrica do Braço de Prata, em Lisboa, em 1962] as tropas ainda experimentaram as FBP (que saíram da mesma fábrica e a ela devem as iniciais).

António Ribas relata como foi a viagem no Niassa em 1961

Em relação às viaturas , e como não eram blindadas, foi decidido numa primeira fase improvisar blindagens com chapas de bidons de 200 litros abertos – colocadas nos veículos lateralmente, fazendo uma espécie de caixa que se enchia de areia ou terra.

A estratégia amadora, mas necessária, tinha o inconveniente de sobrecarregar as viaturas, limitando-lhes as capacidades de carga e manobra, mas oferecia alguma proteção contra tiros tensos e de proximidade, sobretudo de canhangulos, armas muito usadas pelo “inimigo”.

“O soldado português foi, pelo menos para mim, o primeiro choque com a realidade. A boa e a má. A boa foi ter a certeza que, com eles e como eles, havia de sobreviver. Os manuais de tática resumiam-se a sobreviver, a desenrascar. Palavra que devia constar do hino nacional. A instrução era um curso acelerado de sobrevivência e desenrascanço: para acampar, comer, marchar. Não deixa de ser curioso lembrar que a formação de combate mais utilizada era a fila por um – a bicha de pirilau – assim como não deixa de ser relevante que as tropas portuguesas tenham feito a guerra sem uma mochila adequada. Ou que o aparelho para detetar as minas tenha sido uma vara de aço, a chamada pica”, descreveu Carlos Matos Gomes numa comunicação pública em 2007.

Combater sem preparação
Estes homens, que matavam e morriam em África, estavam a milhares de quilómetros de casa sem saber bem porquê… nem até quando duraria o calvário. “Salazar nunca disse aos militares portugueses porque faziam a guerra em África.

Disse-lhes apenas para a fazerem e manterem sob domínio político e económico português os territórios demarcados na Conferência de Berlim de 1884-85 (…) O Exército que Salazar mandou para a guerra, e que o seu sucessor nunca confirmou, nunca encontrou resposta para a pergunta porquê”, escreveram Carlos Matos Gomes e Aniceto Afonso no segundo volume da coleção Os Anos da Guerra Colonial.

“A verdade é que não levámos daqui preparação nenhuma. Lembro-me de que logo no início, tínhamos acabado de passar a zona das sete curvas, nos Dembos, e de ver os inimigos de frente. Sabe o que é estar sentado com a arma na mão e o inimigo mesmo ali?”

A pergunta fica sem resposta e Arlindo continua: “Tinham-nos ensinado ainda em Portugal que a melhor tática era saltar abaixo dos carros e ‘ir a eles’, mas eles não tinham medo. E como assim misturavam-se pretos com soldados e soldados com pretos não dava para fazer fogo porque estávamos sujeitos a matar um dos nossos, que era o que nós não queríamos.”

As características do território agravavam ainda mais a situação das tropas portuguesas, nomeadamente a sua enorme extensão, a má qualidade das vias de comunicação e a quase ausência de infraestruturas. Para responder às necessidades operacionais criou-se uma base logística em Luanda e dividiu-se o território em duas áreas: a primeira, englobava a Zona de Intervenção Norte, onde a maioria do apoio era necessário, e a segunda, cobria o resto do território nas Zona de Intervenção Centro, Zona de Intervenção Sul, e Zona de Intervenção Leste.

“Em 1961, o Serviço de Intendência [que viria a tratar da logística, das fardas às rações que os soldados recebiam] em Luanda era praticamente inexistente, com, apenas, o Depósito de Intendência de Angola, e com a aquisição de víveres a ser feita por exploração dos recursos locais. (…)

Enquanto este sistema não foi implementado, em especial durante a reocupação do Norte de Angola, recorreu-se ao reabastecimento aéreo e a fornecedores locais que passaram a fornecer com regularidade os abastecimentos necessários às tropas”, escreveu o Capitão Pedro da Silva Monteiro na Revista Militar.

“De certo modo éramos inexperientes, ninguém tinha experiência de armas porque não tínhamos tido tempo de aprender a manejá-las”, confessa António Gomes, que teve de enterrar um colega que sofreu um acidente com uma arma e viria a morrer ao seu lado.

“Foi difícil ter ânimo para continuar depois da morte dele, ainda por cima porque morreu no dia a seguir a ter feito 22 anos. Juntámo-nos para comemorar com o que conseguimos arranjar para a ‘festa’ mas às 10 horas da noite o capitão chamou-nos para uma patrulha, disse-nos ‘deixamos isto aqui e amanhã continuamos’.

Nós continuámos mas ele já não continuou. Fizemos o funeral numa cidadezinha ali perto e arranjámos uma campa decente. Só queríamos saber que lhe tínhamos dado um sítio para ele descansar em paz.”

A voz na multidão
António Gomes, hoje com 79 anos, também não demorou a descobrir a que se referia a voz que suplicou às tropas que os salvassem, naquele primeiro dia de maio em que desembarcaram no porto de Luanda.
“Três ou quatro dias depois de termos chegado, recebemos os carros e as armas para podermos ir para a zona dos Dembos , no Norte.

Como não havia comunicação pelas aldeias onde íamos passar – demoravam-se dias a fazer 10 quilómetros, tal era o estado das picadas – o nosso objetivo era também investigar o que tinha acontecido com aquelas pessoas. Aí é que começámos a ver a realidade das coisas, quando passámos pelas fazendas e pelas aldeias destruídas. Era mais do que morte, era horror.”

O território da ex-colónia tem 1.246.700 km2, o que corresponde ao somatório dos territórios de Portugal, Espanha e França. Era um imenso e misterioso mundo desconhecido e ainda por cima de difícil acesso.
“Quando chegámos ao Quitexe [vila e município da província do Uíge] tinha lá as casas dos brancos, mas branco não havia nenhum. Lembro-me que numa das fazendas, em cima da mesinha de cabeceira de um dos quartos estava um livro encadernado que era sobre a vida de Jesus.

Mas as paredes estavam todas arranhadas de sangue das pessoas terem sido cortadas à catanada, os braços das crianças espalhados pelas divisões da casa”, recorda Januário Vicente, que carregou o livro consigo durante toda a comissão, uma espécie de memória física do que ali testemunhara.

Francisco Silvestre, 80 anos, embarcou no Vera Cruz para reforçar um esquadrão que estava em Vila Luso, no Sul de Angola, há algumas semanas. Chegou, a 24 de Junho de 1961, no mesmo dia em que ocorreu a reocupação de Cuimba, a este de São Salvador do Congo e que o general da Força Aérea Venâncio Deslandes iniciou as funções de governador-geral e de comandante-chefe das Forças Armadas em Angola.

“Ia cheio de fome, chegámos a um celeiro velho onde eles estavam a dormir no chão porque nem havia camas e perguntei logo à malta: então onde estão os pratos? Eles começaram-se a rir. Mandaram-me à arrecadação buscar uma marmita, do tempo da II Guerra Mundial, toda ferrugenta, velha e cheia de gordura e toca de esfregar aquilo muito bem esfregado com umas ervas para receber a comida.

O jantar? Era uma batata desidratada com qualquer coisa. Lembro-me que me queria sentar e não havia sítio, tive de me encostar numa pedra e de saltar um gafanhoto para dentro da marmita. Levantei-me para ir deitar fora ‘o comer’ e buscar outro, mas o cozinheiro disse-me: ‘Ó filho, nem penses, não comes esse, não comes nenhum.’ Está visto que tive que comer aquele”, conta o Armadilhas, como ficou conhecido porque era dele a responsabilidade das munições – não houve um dia em que tenha dormido longe delas.

Francisco Silvestre viajou no Niassa rumo a Angola em 1961

“Nunca as larguei. Mesmo por todos os sítios onde passávamos dormia sempre em cima das granadas. Dormíamos debaixo das viaturas mas eu tinha uma técnica boa porque nos meus tempos de agricultor o meu pai fazia searas e nós dormíamos nas margens da seara ou debaixo do sobreiro. Fazia uma covinha, punha um lençol e deitava-me. Mas por baixo do meu corpo tinha sempre as munições”, continua. À imaginação, estes homens juntaram, tantas vezes, o engenho.

“Não havia caminhos, estava tudo cortado. As árvores muito grossas, eles atravessaram-nos tudo na estrada para nós não conseguirmos passar. Chegávamos a um ribeiro ou um rio e a gente parava, descarregava a camioneta, íamos construir a ponte e passávamos para o lado de lá.

Depois de passarmos tínhamos de arrancar outra vez as pontes e carregar as vigas de novo nas camionetas para voltar a construir a ponte que iriamos precisar mais à frente. Era assim a nossa vida”, lembra Januário.

“E se víamos um rio com possibilidade de haver jacarés atirávamos primeiro umas granadas lá para dentro e só depois saltávamos para a água. Aprende-se muito rapidamente a viver quando dependemos disso.

Devido à falta de logística que Portugal tinha nessa altura nós reagíamos à situação conforme se podia”, recorda por seu lado o ex-combatente António Gomes. “Um dos exemplos desta falta de preparação foi um comandante que programou um ataque por mar numa zona interior do país”, chegou a contar Orlando Castro, coautor de uma compilação de 16 livros sobre a Guerra Colonial.

António Gomes até se lembra de celebrar a chegada das fardas novas e de como estas facilitaram a logística das tropas no mato. “Eram iguais aos uniformes dos paraquedistas franceses, tinham montes de algibeiras e fechos onde dava para guardar munições e também comida. Nessa altura também nos deram umas botas novas de lona que eram fantásticas para andar na mata.”

Com a instalação das Oficinas Gerais de Fardamento na Região Militar de Angola, as tropas portuguesas passaram a ser autossuficientes em calçado, fardamento, equipamento individual do combatente, assim como em rações de combate e todo o tipo de alimentos, combustíveis e lubrificantes.

Enquanto este sistema não foi implementado, em especial durante a reocupação do Norte de Angola, recorreu-se ao reabastecimento aéreo e a fornecedores locais. Por esta altura, nas contas do Estado português começou a notar-se o esforço que foi exigido ao País durante a guerra: as despesas com as Forças Armadas classificavam-se, para efeito orçamental, como ordinárias, de caráter normal e permanente, e extraordinárias (DE), respeitantes à defesa da ordem pública em circunstâncias excepcionais.

A parcela mais importante das DE, os gastos com as províncias ultramarinas, inscrevia-se no Orçamento, na rubrica Forças Militares Extraordinárias no Ultramar e sofreram crescentes aumentos: em 1961, os gastos situavam-se perto dos 2.500 milhares de contos – 1.100 milhões de euros a preços atuais -, em 1967, aproximavam-se dos 6.000 milhares de contos (2.600 milhões de euros).

Pequenas alegrias
Indiferentes ao dinheiro que saía dos cofres do Estado, os combatentes salvavam a pele como podiam. Encontravam maior ânimo nos momentos em que recebiam as cartas da família – uma alegria que, nesta fase inicial da guerra, chegava de “longe a longe” e sem dia marcado.

“Quando víamos os envelopes era uma alegria. E como havia sempre aqueles que não recebiam cartas líamos as nossas em voz alta para toda a gente ouvir, porque assim quem não recebia sentia-se mais perto dos seus. Mesmo quando era a carta da namorada, não havia segredos entre nós.

Tornámo-nos uma família, sabíamos tudo uns dos outros”, confidencia o mesmo ex-combatente, mais de 58 anos depois de ter desembarcado em Angola, a terra onde descobriu como sobreviver com pouco.

“Vivíamos no mato com o que conseguíamos encontrar, com reservas que tínhamos levado de comida, dobrada desidratada, feijão e latas de sardinha que tínhamos trazido de Luanda. E íamos sobrevivendo com as coisas que encontrávamos pelo caminho.

A primeira carne que comemos em África foi a de uma pacaça solitária que teve a infelicidade de nos enfrentar. Foi um festim, mas se tivesse assado os meus sapatos o sabor não teria sido muito diferente”, graceja. “Éramos indestrutíveis.

Aos 21 anos apercebemo-nos de que há perigo, claro, sabíamos que aquilo não era um passeio no parque, mas o perigo nunca nos acontece a nós, há quem morra mas não somos nós, são outras pessoas”, acreditava António Gomes.

Ele salvou-se sim, mas quando embarcou em 1963 de regresso a Portugal, não foi alívio que encontrou por estar de regresso à metrópole. “O maior choque na minha vida não foi ir para a guerra em Angola. O maior choque foi voltar a Lisboa e enfrentar o desinteresse e o desconhecimento do que se passava no Ultramar”, afirma.

Sonhou muito com o regresso durante os 24 meses de comissão, mas o regresso não foi como imaginara. “Quando chegámos passámos pela euforia da chegada, de ver os amigos e a família…

Mas as pessoas achavam que o que se estava a passar em África eram umas férias e perguntavam com leveza: ‘Epá quantas pessoas mataste na guerra afinal?’ Isso era como quem me dava um murro no nariz. Nessa altura qualquer barulho que se ouvia a gente saltava, a gente nunca sabia o que estava a acontecer, era a guerra ainda dentro de nós. E as pessoas ainda a porem essa imagem na nossa cabeça outra vez, foi demasiado, não consegui aguentar.”

O grande choque
Dois anos depois da partida, a filha de Arlindo já era uma menina que o esperava de mão dada à mãe. Antes de as ver, na estação de Campanhã ainda foi abraçado por uma desconhecida que o confundiu com o noivo tamanha era a euforia. Francisco Silvestre, ainda preocupado com as munições, foi o último a desembarcar e já tinha a mãe em lágrimas com medo que não tivesse voltado.

À semelhança de António Gomes, que saiu de Portugal em 1963, Januário Vicente nem sequer quis voltar para a metrópole e fez vida em Angola até à independência do país. À espera de António Ribas, quando o barco atracou e os soldados se acotovelavam para sair, estava Maria Celeste.

Menos de um ano depois casaram, o que já tinham prometido um ao outro nas cartas que trocavam. Ainda hoje António dá por si a olhar para o chão, tantos anos depois da guerra, como que a garantir que não há minas no terreno que pisa.

“Também tomo banho como fazia em África: Primeiro a água, muito rapidamente; depois ensaboo-me todo num instante. E depois, outra vez água, para limpar o sabão.” Ainda hoje também nenhum deles sabe muito bem quem foram, afinal, salvar. (Sábado)

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