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Helen, a falsa porta-voz da ONU Mulheres que queria governar a Espanha

A mulher, de origem nigeriana e residente em Denia, angariava fundos para supostos projetos da instituição das Nações Unidas. Criou o seu partido e foi candidata em, pelo menos, três eleições espanholas. Agora foi detida por burla e usurpação de funções.

Helen Mukoro tem muitas cartas de apresentação. Já foi candidata a presidente do governo espanhol ou a autarca de Denia, perto de Alicante, na Comunidade Valenciana. Também se apresentava como detetive privada, especialista forense, jornalista, consultora jurídica, cantora. Até se definiu como “consultora em diáspora e auxiliares” da sua província no estado do Delta da Nigéria, onde nasceu, de acordo com várias biografias, em 1969. Helen tem nacionalidade espanhola. “Ofereceram-me uma posição política e trabalharei em Espanha”, disse aos organizadores de uma das últimas negociações em que participou como presidente em Espanha da ONU Mulheres. Se as outras podem ainda levantar dúvidas, esta última designação é falsa.

A Polícia Nacional de Espanha deteve-a esta quinta-feira em Denia por burla e usurpação de funções, ao se apresentar como presidente deste ramo das Nações Unidas em Espanha e angariar fundos para os supostos projetos relacionados com instituição.

Além disso, a mulher promovia cursos de perito judicial pela Internet, apresentando-os com um falso caráter oficial, e pedia dinheiro para realizar alegados projetos relacionados com a ONU Mulheres. Assegurava aos frequentadores dos cursos online que poderiam exercer como peritos judiciais no sistema espanhol, o que era falso.

“Nunca suspeitei, sempre a considerei bem. Achei-a muito empreendedora. Estou chocado “, explicou ao jornal El País Josep Juanbaró, presidente da Sociedade pela Difusão das Realidades Culturais Africanas. Juanbaró recomendou Helen Mukoro para uma conferência em Barcelona, em 29 de maio de 2018. Pagou a viagem e a estada: “Fez-me pagar o hotel, café da manhã e algo mais. Cerca de 500 euros no total”, recorda. Juanbaró conheceu a mulher há oito anos e, durante esse período, viu-a “cinco ou seis vezes”. Diz que nunca suspeitou de nada.

A polícia deteve Mukoro em Denia, localidade onde concentrou parte da sua carreira política. Mas não o fez sozinha, criou mesmo um partido político, a União de Todos (UDT). Desde 2015, a mulher participou em várias eleições a nível municipal e nacional. As suas façanhas políticas foram assim definidas pelo site ‘Break Thru Nigeria’: “Estabeleceu um novo recorde como a primeira mulher e imigrante a ser apresentada como presidente de um partido político na Espanha, a União de Todos.” Ao lado do texto, Helen aparecia numa imagem descendo de um carro de luxo e vestida de vermelho e preto.

Em abril de 2019, numa entrevista ao “El Confidencial” adiantou que seria candidata, mas mudava de comunidade, para Teruel, em Aragão: “Serei a voz de Teruel no Congresso”, disse na altura. Prometia mobilizar a classe empresarial e política da Nigéria, incluindo o presidente, para investir na província espanhola.

“Eu venho de uma família orgulhosa, envolvida em serviços públicos”, descreveu no site do seu partido, em que prometia “empregos e salários mais decentes”. Nas eleições de 2019, a União de Todos foi o candidato menos votado em Espanha, com apenas 48 votos. Rafael Carrió, autarca da oposição pelo partido Compromis, disputou com Helen eleições em Denia: “Esta história é sobre cinema, dá para fazer um filme”, comentou ao El País. Lembra-se de uma campanha invulgar, com Mukoro, de megafone na mão, gritando proclamações pelas ruas da cidade. “Ninguém a conhecia. Foi bastante extravagante, muito impressionante. Mas o programa dela não era mau de todo”, diz Carrió.

Helen Mukoro definia o seu partido como “esquerdista, criado para defender a decência, a democracia e os direitos humanos”. (Diário de Notícias)

 

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