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Covid-19: Escolas sem condições para retorno às aulas

A poucos dias para o retorno às aulas no ensino geral e universitário, suspensas em Março, depois do registo dos primeiros casos de Covid-19 no país, muitas escolas, na província de Luanda, continuam desprovidas de condições de biossegurança.

Numa ronda efectuada em alguns municípios, o Jornal de Angola constatou que muitas escolas não dispõem de condições mínimas de biossegurança, como termómetros infravermelhos para aferir a temperatura, água canalizada, sabão, papel higiénico e álcool em gel para facilitar a higienização das mãos. Mesmo as que têm reservatórios de água não são abastecidas e outras nem sequer casas de banho em condições têm.
No distrito urbano do Sambizanga, a escola primária 1306, apesar de ter água corrente, não dispõe de materiais de biossegurança, nem baldes para a higienização das mãos. Segundo o seu director, Paulo Francisco, da Repartição Distrital da Educação a escola recebeu apenas sa-bão e lixívia.

Na escola 1132 (ex-4016), o cenário é mais doloroso. “Aqui não existe nada de biossegurança para os alunos, professores e pessoal administrativo”, desabafou a directora Osvalda Gonçalves, explicando que a direcção da escola teve que improvisar um bidão de 25 litros, onde colocou uma torneira que serve para lavagem das mãos. Apesar de ter casas de banho, só há um balde para reserva de água. “Os alunos e professores usam esse balde e com uma jarra tiram a água para fazer uso nas latrinas”, disse a gestora escolar.
Já na escola primária 1308 (Cadi-Povo), o director João Manuel afirmou que, embora a escola tenha água corrente e até um reservatório, não dispõe de materiais de biossegurança. Disse que a instituição recebeu da repartição distrital da Educação duas barras de sabão e oito litros de lixívia.  “Não temos máscaras faciais, álcool em gel, nem termómetros para aferir a temperatura dos alunos”, declarou.

No município do Cazenga, na escola do I ciclo 3114 as condições estão minimamente acauteladas. Existe um reservatório de água, dispensador para higienização das mãos, sabão, álcool em gel, termómetros para medição da temperatura e os professores têm direito a uma viseira.
Segundo a directora Ma-dalena João, as condições de distanciamento fisíco estão garantidas. O mesmo não se pode dizer em relação à Escola do I Ciclo 3012, onde não tem nada para o reinício das aulas.

A directora Maria Amélia Pereira disse que aguardam pelo fornecimento dos materiais de biossegurança por parte das autoridades do município. “Neste momento temos água no reservatório. Os alunos utilizam baldes e jarras para o uso das casas de banho”, disse.
Em Viana, a Escola do I Ciclo 5108 também não tem condições de biossegurança. Naquela instituição de ensino, embora exista energia eléctrica, falta absolutamente tudo, desde a água corrente, sabão, álcool em gel, máscara e até termómetros.
Elias António, sub-director pedagógico da instituição, manifestou que, apesar da falta de materiais de biossegurança, os professores e pessoal administrativo estão motivados para reatar as aulas. Lamentou o facto de muitos alunos não irem à busca dos conteúdos programáticos para aulas não presenciais.

Alunos apreensivos

Celestino Joaquim, estudante da escola do II Ciclo “Óscar Ribas”, no Cazenga, afirma que embora algumas escolas tenham criado pontos para lavagem das mãos e reunido outras medidas de segurança, para evitar a cadeia de transmissão, ainda falta material de biossegurança.
“O não preenchimento destas lacunas pode causar uma contaminação em massa no seio dos estudantes e professores”, alertou o estudante.
António Simão, aluno da Escola do II Ciclo nº 5008, em Viana, considera “prematuro” o reinício das aulas quando o número de casos da Covid-19 aumenta a cada dia que passa no país. Segundo referiu, há algumas condições que precisam de ser levadas em consideração.

“Água corrente nas escolas, materiais de biossegurança, distanciamento físico, testagem de professores e alunos, são algumas condições que o Governo deve materializar”, disse António Simão. Paulo Maria, estudante do Instituto Politécnico do Sambizanga, não difere muito no discurso dos outros estudantes. Considera que o reinício das aulas não ca-rece apenas da criação de condições de biossegurança, mas, acima de tudo, de questões psicológicas, motivacionais e de avaliação de comportamento dos estudantes depois de um longo período sem aulas.

Professores pedem precaução

Pais receiam contaminação

Encarregados de educação receiam que as escolas venham a ser um foco de contaminação em massa.
Garcia Pedro, encarregado de educação, aponta a falta de verbas por parte das instituições de ensino para a compra de material de biossegurança e ausência de água canalizada para a higienização das mãos.
Para Salomé Tiago, o Executivo devia analisar o assun-to com profundidade, em função da dimensão geográfica do país.
“É preciso que as condições estejam criadas para bem de todos. É um desafio que merece reflexão, para evitar a propagação da Covid-19 e apostar na educação de qualidade e não de quantidade”, disse.
A encarregada Suzana Bravo antevê um fraco aproveitamento da parte dos alunos, sublinhando que o Go-
verno deve, em primeira instância, criar as condições de biossegurança e outras que possam ajudar no processo docente-educativo.

Sindicato manifesta apreensão

O Sindicato Nacional dos Professores (Sinprof) maniestou, ontem, aprensão em relação às condições para garantir a segurança dos alunos e professores face à pandemia do novo coronavírus.
A posição foi manifes-tada na cidade do Sumbe, Cuanza-Sul, pelo presidente do Sinprof, Guilherme Silva, numa conferência de imprensa em que forneceu números reais sobre o que viu durante visitas a escolas do país.
Das 299 escolas do II ciclo do ensino secundário que mereceram visitas do presidente do Sinprof, apenas 22,4 por cento têm mínimas condições criadas para o retorno às aulas.

Para o I ciclo do ensino secundário foram visitadas 345 escolas e destas apenas 4,9 por cento estão em condições. Quanto ao ensino primário, Guilherme Silva disse que das 602 escolas visitadas apenas 3 por cento estão em condições de receber alunos em segurança.
“A quase totalidade das escolas visitadas (sobretudo as do ensino primário e do I ciclo do ensino secundário) não possui pessoal preparado para proceder à higienização e à desinfecção das salas de aula e dos alunos e professores antes das aulas, assim como nos in-tervalos entre os dois pe-ríodos lectivos definidos em cada turno e depois das aulas”, disse.

Acrescentou ainda que a maioria das escolas visitadas não possui materiais de biossegurança (água, álcool em gel, detergentes) e as poucas que possuem, sobretudo os detergentes, não permitem a sua sustentabilidade para mais de uma semana.
O sindicalista deu como exemplo um caso na província do Uíge, onde a escola primária na localidade do Mbemba Ngan-go, com 25 salas de aula e 4.000 alunos, o máximo que recebeu da administração municipal do Uíge foi um tambor adaptado para desinfecção das mãos, 4 barras de sabão, 2 pacotes de Omo e um litro de lixívia.
O sindicalista diz estar ciente de que a pandemia não acaba agora, o que vai tornar necessário en-saiar mecanismos de adap-
tação e convivência com a Covid-19 nas escolas, porém o Sindicato dos professores não é favorável ao retorno às aulas nas condições em que se encontram, infelizmente, a maioria das escolas do país.

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