CulturaDestaquesOpiniãoSociedade

Angola e Cabo Verde acusam Fernando Pessoa de racismo

Jornal de Angola e Expresso das Ilhas fazem eco das críticas à escolha do poeta para um programa de intercâmbio de estudantes entre países de Língua Portuguesa

Era o poeta português Fernando Pessoa racista? É legítimo que dê nome a um programa de câmbio estudantil entre países da Comunidade os Países de Língua Portuguesa (CPLP), entre os quais se contam países africanos? Intelectuais angolanos consideram que não e estão a tentar re-batizar o programa semelhante ao Erasmus.

A polémica instalou-se quando, esta segunda-feira, o jornal Expresso das Ilhas, de Cabo Verde questionou o facto de nenhuma personalidade do país ter criticado a escolha o poeta para o programa de intercâmbio académico dentro dos países da CPLP, num texto intitulado “Intelectuais angolanos contra a escolha de Fernando Pessoa para patrono de projeto da CPLP”.

O jornal lembra que Fernando Pessoa terá tecido, durante a sua juventude tardia (aproximadamente com 28 anos), ideias racistas para com alguns povos africanos. No texto em questão, o autor de Mensagem refere que considera a escravatura como “lógica e legítima”.

Nascido em 1888 e a crescer dentro do império português e inglês (a sua juventude foi passada na colónia inglesa da África do Sul), Fernando Pessoa considera que a determinados povos “escravizá-lo é que é lógico”, como mostra a citação abaixo, retirada de um documento presente no Arquivo Pessoa e intitulado: “O imperialismo de expansão tem um sentido normal”.

View image on Twitter“A escravatura é lógica e legítima; um zulu ou um landim não representa coisa alguma de útil neste mundo. Civilizá-lo, quer religiosamente, quer de outra forma qualquer, é querer-lhe dar aquilo que ele não pode ter. O legítimo é obrigá-lo, visto que não é gente, a servir os fins da civilização. Escravizá-lo é que é lógico, o degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais, prejudicou, porém, esta lógica atitude. Povos, como o inglês, hipocritizaram o conceito, e assim conseguiram servir a civilização.”

O jornal lembra ainda que num outro texto assinado por Pessoa e datado de 1917 (quando o poeta tinha 29 anos) se podia ler: “A escravatura é a lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem que cumprir-se, sem revolta possível. Uns nascem escravos, e a outros a escravidão é dada”. No entanto, analisando este texto, rapidamente se percebe que a “escravatura” a que o poeta se referia não está ligada a uma relação de dominação racial, mas sim uma “escravatura” das obrigações da vida.

“Não sei se Pessoa é ou não bom poeta. Isso pouco interessa”

“Não sei se Pessoa é ou não bom poeta. Isso pouco interessa para o caso. A minha inquietação é o uso da CPLP para branquear o pensamento de um acérrimo defensor do mais hediondo crime contra a Humanidade: a escravatura”, criticou Luzia Moniz, presidente da Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana, num texto de opinião publicado no Jornal de Angola.

Nesse mesmo artigo, a presidente daquela plataforma relembra que, aos 40 anos (sete anos antes de morrer), Pessoa escreveu: “Ninguém ainda provou, por exemplo, que a abolição da escravatura fosse um bem social. Ninguém o provou, porque ninguém o pode provar. Quem nos diz que a escravatura não seja uma lei natural da vida das sociedades sãs?” No entanto, este escrito datado, alegadamente de 1930, continua com o poeta a pôr em causa um regime em que o Estado tem demasiado poder, propondo um regime liberal. Este mesmo texto tem sido partilhado pelo partido Iniciativa Liberal, como exemplo do liberalismo de Pessoa.

Iniciativa Liberal

@LiberalPT

Na Iniciativa Liberal não censuramos Fernando Pessoa, temos orgulho naquele que foi uma das principais figuras do liberalismo português e autor de uma obra complexa e absolutamente ímpar com reconhecimento universal.

 A Angop, agência noticiosa angolana, avança ainda que a intenção de dar o nome de Fernando Pessoa ao programa é mais uma tentativa de “branquear” a imagem do poeta. A agência avança o nome de outros autores para substituir o do poeta nacional: “Eça de Queiroz, que era abertamente contra a escravatura, Jorge Amado, Corsino Fortes, Alda Lara, Alda Espírito Santo, José Saramago e Mário Pinto de Andrade”. (Sábado)
Mostrar mais

Notícias relacionadas

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Close