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Solução dos problemas de Luanda pode vir da academia

O Plano Director Geral Metropolitano de Luanda (PDGML) continua a ser amplamente debatido. Recentemente, académicos reunidos por iniciativa da Radio Mais sugeriram que os políticos se encarreguem de “assegurar os fundos” e deixem que os técnicos abordem as soluções

Para começar, diga-se, um dos calcanhares de Aquiles da capital angolana se limita aos problemas dos seus “vasos comunicantes” que deviam servir de vias para que pessoas e veículos tivessem uma mobilidade funcional com a consequente circulação de mercadorias e serviços.

Entretanto, a rede de estradas pavimentadas é bastante inadequada, como afirmou Olívio Sacaia Fernando, Engenheiro de Construção Civil e Professor Universitário, um dos oradores do evento promovido pela Rádio da Nova Angola.

O especialista revelou que devido ao congestionamento durante o período de hora de ponta (7h00 – 7h30), num dia com maior movimento, o tempo médio de deslocação em Luanda é de cerca de 192 minutos por veículo motorizado, ou seja cerca de 3 horas a fazer a viagem entre Viana e Baixa da Cidade a uma velocidade média de 7,6Km/h em toda a extensão da cidade.

Esta média piora quando se trata de “zonas mais densamente urbanizadas” , levando aos 4Km/h. Estes pequena abordagem serve para demonstrar que a cidade está literalmente para lá das suas capacidades e não basta que se continue a levantar o argumento de que ela foi concebida para 500 mil habitantes.

Agora, o tempo urge e soluções procuram-se. Um bom sistema de transporte público formal à escala metropolitana e com a introdução de sistemas de ferry a ligar diferentes municípios, poderia “desafogar” Luanda e fazer dos seus citadinos pessoas felizes.

Nesta altura os números falam por si: a porção de passageiros transportados pelo actual sistema integrado de transportes públicos é ainda “baixa” na ordem das 200 mil almas/dia, sendo que apenas 15 mil destes passageiros fazem as suas viagens usando a via-férrea.

A sugestão do especialista é que seja edificada uma nova circular rodoviária que “ligaria Cabolombo a Kifangondo” através da Funda, com vista a captar igualmente, a maior parte do tráfego pesado que será gerado pelo novo centro logístico na Barra do Dande, na província do Bengo, através do planeado porto, em conexão com o fluxo do futuro aeroporto, em harmonia com as cidades do Kilamba, Sequele e Zangos.

“Ficar a olhar apenas para a Via Expresso Fidel de Castro é um erro grave, no qual não devíamos persistir”, comentou um participante no debate, Olívio Sacaia Fernando. O mesmo sugere ainda a implementação de dois corredores integrados (BRT) que ligariam a estação ferroviária na Estalagem até à GAMEK, através do Estádio 11 de Novembro, assim como a expansão de ferry com a abertura de 3 novos terminais.

Urge reorganizar as linhas de transporte de autocarro, através de uma nova rede e uma cobertura ampliada, com a inclusão das novas centralidade e a expansão da rede ferroviária com a duplicação das ferrovias de Bungo até a Baia e da Baia para o novo aeroporto, acompanhada de várias passagens superiores para separar o nível dos trilhos ferroviários e o tráfego rodoviário e de peões. Estas são apenas algumas das muitas sugestões que podem ser inferidas de estudos multidisciplinares na nossa academia rumo à melhoria de Luanda.

O especialista defende que o crescimento de Luanda é por enquanto irreversível, devendo a sua estrutura ser adequada a esta perspectiva. “Em 2030, estima-se que Luanda venha acolher 13 milhões de pessoas. Este crescimento deve ser acompanhado por um aumento no rendimento e no número de automóveis particulares que se estima que venha a ser de 140 veículos por cada 1000 habitantes nos próximos 15 anos”.

Assim, considera “imprescindível” a construção de 6 principais estações “rodo-ferroviárias” em Luanda que permitiriam a integração entre os vários tipos de transportes públicos. Estas estações podiam ser planeadas para a vila de Viana, a vila do Cacuaco, Belas; precisamente na ligação entre as estradas da Samba e a Via Expresso, na antiga rotunda da Boa Vista, no Cazenga; na zona das antigas instalações da FILDA, no Zango II, nas centralidades do Kilamba e do Sequele.

Com carácter de urgência, o referido professor universitário recomenda a reabilitação da rua das Condutas, para que possa servir de alternativa ao tráfego rodoviário da avenida Deolinda Rodrigues assim como a reabilitação das ruas secundárias acompanhadas da necessária iluminação pública.

Desta perspectiva holística é possível melhorar o aproveitamento dos recursos naturais, humanos, histórico, ecológico e culturais da província, reforçar as condições de atraccão e reinserção de iniciativa de investimento, criar e diversificar a pespectiva de emprego e também qualificar os recursos humanos.

Projectos que morreram na praia

Entretanto os participantes no evento lançaram farpas aos políticos que, servindo-se da legitimidade decorrente da sua ascensão ao poder pela via democrática, se arrogam ao “privilégio” de conceber projectos, dizer como e quando devem ser executados. “Por favor políticos, o vosso trabalho é assegurar o financiamento.

Quanto a conceber e executar os projectos, deixem esta missão aos técnicos”, desabafou um participante. Ainda estão visíveis na cidade de Luanda os sinais de “aventureiros” projectos concebidos de forma megalómana e que de nomes tiveram de tudo, incluindo os que iam do anedótico ao surreal.

Em algumas estradas de Luanda ainda se pode ver mais à direita, a faixa de rodagem que estava a ser concebida para tráfego exclusivo de transporte público e veículos prioritários. Perde-se com o tempo a ampla campanha que chegou a ser iniciada na mídia para um tal sistema de “trânsito binário”.

Pelos musseques ficaram as marcas de atalhos reabilitados à pressa para acomodar o tal “trânsito reversível”, que do papel nunca saiu. Em muitas artérias da cidade é visível o que resta da tentativa de impedir a travessia desordenada de peões com a colocação de redes e gradeamentos e ou separadores centrais altos. Simplesmente os cidadãos, à sua maneira, vandalizaram as barreiras e arranjaram os seus próprios caminhos ainda que a tentativa tenha sido até em salvaguarda das suas próprias vidas.

São mnuitos os atropelamentos debaixo de pedonais e quase sempre os pontos de afrouxamento do tráfego rodoviário é consequência da intercepção entre peões e veículos na via pública, enquanto o comboio continua a consumir vidas humanas por atropelamento e a provocar danos materiais em colisões com outros veículo.

Enfim, uma panóplia de problemas cujas soluções, mesmo que motivadas por “boa-fé”, faliram porque não foi tida e nem achada a opinião técnica. Tudo isso, no dizer dos participantes, são exemplos da “interferência política em temas de exclusiva responsabilidade de áreas técnicas, nomeadamente da academia”.

“Persistimos nos mesmos erros” Outro especialista que interveio no evento, Angelino Quissonde, considera que as obras que se vão realizando em Luanda pecam por ignorar princípios fundamentais da engenharia. O especialista, um dos rostos visíveis na abordagem da problemática das ravinas, mostra-se “surpreendido” com a persistência no erro de fazer estradas com quota mais alta do que as residências.

Para ele, fazer estradas com o nível abaixo do das residências é um princípio fundamental, uma vez que “betonadas” ou asfaltas as zonas de infiltração das águas pluviais impõe-se a construção de um sistema de recolha e evacuação das águas e as estradas, via de regra têm sido parte do sistema. “Vê-se em obras recentes as estradas estarem em quotas acima do nível das residências.

A pergunta que se coloca é: para onde vão as águas que escorrem dos tectos e dos espaços vários?”, questionase. Angelino Kissonde insurge-se contra a alteração dos cursos de água que a natureza se encarregou de traçar no solo luandino.

Luanda tem exemplos recentes que são autênticas aberrações, como foi o caso da construção do Estádio 11 de Novembro e do Pavilhão Multiusos do Quilamba numa língua de água, apontou. Kissonda interroga-se sobre como é possível uma cidade que está 200m acima do nível médio das águas do mar ter inundações a cada chuva que ocorre, apesar de em Luanda caírem apenas cerca de 300 metros cúbicos de água por metro quadrado.

“O Cuito, no Bié, o ponto de Angola com a mais alta média de quedas pluviométricas regista 1100 metros cúbicos por metro quadrado. Imaginem se estas quedas ocorressem em Luanda”, terminou.

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