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Nimi a Simbi, novo presidente da FNLA: “Estamos abertos para nos coligarmos com qualquer partido”

O docente universitário Nimi a Simbi é, desde o mês passado, o novo presidente da FNLA, sucedendo ao deputado Lucas Ngonda, que se encontrava no cargo há 11 anos. Em entrevista ao Jornal de Angola, Nimi a Simbi reafirmou o comprometimento com o diálogo, para a busca da unidade e formas para tirar a FNLA da letargia em que se encontra. Disse estar, igualmente, aberto à uma eventual coligação pós-eleitoral, com qualquer partido - e não apenas com o MPLA. Mas mostrou-se cauteloso quanto a uma eventual adesão à Frente Patriótica Unida (FPU), por alegada falta de conhecimento sobre o “dossier”

Estamos a ter esta entrevista na sede do partido, na Rua Samuel Bernardo. O ex-presidente tinha o escritório na Vila Alice.
A primeira pergunta é: a FNLA vai continuar a ter duas sedes?

Não! Estamos aqui temporariamente porque trabalhei sempre aqui. Ainda não fizemos a passagem de pastas (com o meu antecessor), o que poderá acontecer ainda no decorrer desta semana. Estão a ser criadas as condições para o efeito. Depois disso, vamos ver se continuamos aqui ou partimos para a Vila Alice.

O senhor foi eleito presidente da FNLA no Congresso realizado no mês passado, sucedendo ao deputado Lucas Ngonda, que se encontrava no cargo há 11 anos. Que partido encontrou?

Não posso, ainda, responder com precisão à sua pergunta porque tenho de estar por dentro de certos aspectos, quer humanos, quer materiais e financeiros. Como disse, ainda não fizemos a passagem de pastas. Mas, do ponto de vista de recursos humanos, posso afirmar que estamos bem, pois há um grande entrosamento, pelo menos a nível dos órgãos centrais. Este processo deve prosseguir a nível provincial.

A representatividade da FNLA na Assembleia Nacional foi baixando de cinco deputados nas eleições de 1992, para três em 2008, dois em 2012 e apenas um em 2017. Acha ser possível aumentar o número de assentos no Parlamento ou, pelo menos, evitar a extinção nas próximas eleições?

Posso afirmar, com toda a segurança, que, se as coisas evoluírem, não haverá a extinção da FNLA! A FNLA tem bases fortes. Acho que todos sabem da contribuição da FNLA no passado. O estado em que se encontra é consequência da crise que dividiu o partido. Grupos que não se revissem na direcção do partido não participavam e, até, recusavam a votar nas eleições. Mas, a FNLA tem bases suficientes para melhorar a prestação nas próximas eleições. Vamos nos organizar para tal.

Fala em evoluções que se registam actualmente no partido. A que evoluções se refere?

Refiro-me, sobretudo, ao retorno de muita gente que tinha abandonado o partido. As pessoas estão a voltar para darem a sua contribuição. Penso que se tivermos uma certa capacidade de organização e enquadrar todos, podemos fazer melhor em 2022.

Reconduziu o secretário-geral cessante, Aguiar Laurindo, que vinha do mandato de Lucas Ngonda, mas figuras como Fernando Pedro Gomes, Ndonda Nzinga e Tristão Ernesto não foram reconduzidas para o Bureau Político. Tristão Ernesto, então candidatos à liderança do partido, nem sequer está no Comité Central. Isso não afecta o processo de reconciliação?

Na minha óptica, não! Mas quando estamos a falar em congregar há um aspecto que tem de se ter em conta: a vontade da pessoa. Se a pessoa não está disposta, não vai adiantar…

Está a querer dizer que as figuras que citei não estão dispostas a trabalhar consigo?

O Fernando Pedro Gomes faz parte do Comité Central, assim como o Carlito Roberto. Só o Tristão Ernesto não.

Mas todos eles, excepto Carlito Roberto, estão fora do Bureau Político, órgão no qual eram membros há anos.

Sim, não estão. Mas, de acordo com os estatutos, os membros do Bureau Político são nomeados pelo presidente do partido, depois de consultas. O que aconteceu é que alguns mostraram uma certa indisponibilidade, colocando condições e algumas são inaceitáveis.

Qual é o papel reservado ao ex-presidente Lucas Ngonda?

Do Comité Central e do Bureau Político fazem parte o irmão Lucas Ngonda e o irmão (Ngola) Kabangu porque ambos detêm uma certa experiência que pode ser benéfica para o partido. Os estatutos não prevêem uma posição especial (enquanto antigos presidentes do partido), mas, à medida que vamos avançando, podemos discutir, internamente, para ver que posição poderão ocupar no seio do partido.

Falou no nome de Ngola Kabangu… o que é feito dele? Está, há muito tempo, afastado da actividade político-partidária…

Ngola Kabangu esteve doente durante algum tempo e agora está numa fase de recuperação. Vamos ver como evolui o estado de saúde, mas continua a ser militante da FNLA. O mano Kabangu é muito experiente em termos políticos. É um dos libertadores do país que ainda temos em vida, a par de Jorge Valentim (então na UNITA) e Onambwe (Henrique Santos, no MPLA). Foram eles quem discutiram a Independência de Angola. Não são quaisquer pessoas. Defendo, até, que o Estado deveria colocá-los num nível alto, com benefícios materiais e financeiros.

O ex-secretário-geral, Pedro Dala, demitido do cargo por suposta tentativa de destituição do então presidente, Lucas Ngonda, reclama a liderança do partido, depois de, alegadamente, ter sido eleito, num pretenso congresso, realizado em Agosto. Ele diz que o congresso que elegeu o presidente Nimi a Simbi, em Setembro, é inválido. Quer comentar?

Não gosto de comentar as declarações do irmão Dala. Penso que enquanto a pessoa está de boa fé para resolver os problemas, é disponível. Já o chamei para discutirmos o assunto FNLA porque nem o Tribunal Constitucional, nem a imprensa, vão dirimir o conflito. Só nós podemos nos encontrar para conhecermos as nossas motivações e procurarmos encontrar as soluções adequadas. Mas, o que vejo, é que o irmão Dala não quer essa via. Agora optou por fazer declarações à imprensa. Na verdade, não tenho qualquer problema com ele. O problema dele é com o irmão Lucas Ngonda, mas este já não é presidente. Se ele acha que é indo à imprensa e introduzindo dossiers no Tribunal Constitucional a melhor forma,é ponto de vista dele, não tenho nada a comentar.

Mas o que tem a dizer sobre o congresso que ele organizou?

Vamos só seguir a lógica: acha que um secretário-geral de um partido demitido das funções pode convocar um congresso? Isso é impossível. O acórdão nº 681 do Tribunal Constitucional é claro, quando estabeleceu que a única pessoa que deve convocar um congresso é o presidente Lucas Ngonda. Não acredito que aquele congresso convocado pelo irmão Dala tenha “pernas para andar”.

As condições para se realizar um congresso não foram reunidas. A única solução para ele foi o que eu disse uma semana depois de ser eleito: “irmão Dala, venha, vamos conversar”. O objectivo era conhecer as suas motivações e, em conjunto, encontrarmos as soluções. Não creio que isso que está a fazer o leve a algum lado, mas continuo aberto para conversarmos e encontramos uma saída.

Para quem circula pelo interior do país, é fácil ver bandeiras do MPLA, UNITA, CASA-CE e PRS, mas é difícil ver a da FNLA. Concorda que este é só um sinal da letargia em que se encontra o partido?

Acho que sim, mas, como sabe, sou presidente da FNLA há apenas três semanas!

Então o que pretende fazer para se alterar o quadro?

Primeiro, temos que trabalhar, porque, quer queiramos, quer não, temos de admitir que nas províncias o partido tinha duas direcções. Nos próximos tempos, andarei pelas províncias para tentar juntar as direcções. Depois disso, vamos elaborar um programa de trabalho que os secretariados provinciais deverão executar. Acredito que, a partir daí, o quadro vai ser alterado.

Acredita que vai ser um processo fácil?

Sei que não vai ser fácil! Mas é um desafio que devemos assumir porque, de contrário, não vamos ultrapassar essa situação. Creio que agora vai ser mais fácil. Antes desta entrevista, recebi, aqui no meu gabinete, o secretário-geral, com quem debati exactamente este assunto. Chamei-o porque acredito que a sua voz é necessária no trabalho que vamos desenvolver nas províncias.

Decorre, há algumas semanas, o processo de registo eleitoral oficioso. A FNLA está a fazer a fiscalização?

Sim, as províncias estão orientadas a fazerem esse trabalho. Orientei o secretário-geral a acompanhar as províncias relativamente à fiscalização do processo. Como sabe, os secretariados provinciais ainda não estão constituídos, então a coordenação deve partir do secretariado nacional.

Relativamente à composição do secretariado nacional, já pensou em quem vai ser o porta-voz do partido?

Sim, foram indicados alguns nomes.

Mas a decisão cabe ao presidente?

Sim, cabe a mim, mas ainda estamos a fazer algumas consultas. O secretário-geral vai trazer a proposta definitiva que será ratificada por mim.

No dia 5 de Outubro, foi proclamada a Frente Patriótica Unida, uma coligação da iniciativa da UNITA que tem como objectivo o alcance do poder político em 2022. O projecto já tem as adesões do Bloco Democrático e do projecto político PRA-JA Servir Angola, de Abel Chivukuvuku. A FNLA pensa aderir a esta coligação?

Ainda é cedo para me pronunciar sobre isso. Recebemos o convite para participar neste acto de proclamação e indicamos alguém. Pedimos a quem foi indicado para não fazer qualquer pronunciamento porque não conhecemos o dossier. No futuro, vamos pedir esse dossier para a análise. Mas devo sublinhar que se trata de um assunto que ultrapassa as competências do presidente do partido. Tem de ser discutido a nível do Bureau Político e do Comité Central para que se tome a decisão que se impõe. Portanto, é prematuro pronunciar-me sobre o assunto.

Mas, em linhas gerais, mesmo sem ter acesso ao dossier, acha que a Frente Patriótica Unida é um projecto viável?

Não sei, porque não tenho pormenores sobre o seu conteúdo. Como cidadão, faço, a mim mesmo, muitas perguntas cujas respostas não encontro. Acho que só conversando com eles poderão esclarecer-nos alguns pontos e, a partir daí, poderei levar o assunto ao Bureau Político e ao Comité Central para tomarem uma decisão.

Quem deverá ser o cabeça de lista da FNLA nas próximas eleições gerais? O que está previsto estatutariamente? É o presidente do partido ou pode ser outra figura?
Não tem de ser, necessariamente, o presidente; pode ser outra figura.

Ainda não abordaram o assunto?

Ainda não. Como se sabe, saímos agora do congresso.

Como avalia a situação política, económica e social do país?

A situação social e económica está péssima! A maioria das pessoas vive na miséria. A pobreza acentuou-se. Basta passar pela periferia. Acho que o Presidente (João Lourenço) não cumpriu as principais promessas feitas nas últimas eleições. Ele deve fazer muito para alterar o quadro?

Mas temos apenas cerca de dez meses para as próximas eleições. Acha que ainda vai a tempo?
Não! Acho que já fracassou! Não poderá resolver tudo em menos de um ano. As pessoas vivem na miséria. Antes da investidura como Presidente da República, as pessoas não viviam bem, mas a situação era melhor que a actual.

Dou o meu próprio exemplo: para o pequeno-almoço, o médico recomendou-me apenas o consumo de pão integral. Antes da entrada do Presidente, comprava aquele tipo de pão a 15 kwanzas, agora custa 150! É muita diferença. Quando se vai à praça, as mamãs estão sempre a lamentar. O saco de arroz custava menos de dois mil kwanzas, agora está a 15 mil!

Mas esta situação deve-se à gestão do Executivo ou à própria conjuntura internacional, como, por exemplo, a baixa do preço do petróleo e, por arrasto, a crise económica e financeira?

Acho que tem tudo a ver. É verdade que as receitas do petróleo baixaram, mas lembro que, quando estava na Assembleia Nacional, como deputado, já discutíamos esses assuntos. Houve tempo para se precaver, mas isso não aconteceu. Um Governo é, efectivamente, Governo quando tem capacidade para alimentar o povo. Quando não consegue, já não é Governo.
As crianças de rua tinham desaparecido, ou pelo menos diminuído, mas voltaram. Andam à procura de comida nos contentores de lixo. Isso já não era tão visível há uns cinco ou seis anos. Quer dizer que alguma coisa não foi bem feita. O Governo tem de fazer um esforço para corrigir isso, mas num ano já não vai a tempo.

Está a querer dizer que o MPLA e o Presidente João Lourenço não vão ser reeleitos?

Vai ser muito difícil! Hoje a visão das pessoas mudou, já não é a mesma de há dez anos. Como professor, quando converso com os estudantes, noto que a forma deles ver as coisas mudou muito. Portanto, é possível que o MPLA não seja reeleito. Mas, isso também vai depender do trabalho que os partidos políticos vão realizar na mobilização dos eleitores.

A FNLA está aberta a uma eventual coligação pós-eleitoral com o MPLA?

Como refere a sua pergunta, a coligação é feita, sobretudo, depois das eleições, porque, às vezes, são os resultados eleitorais que ditam com quem este ou aquele partido deve coligar-se. Mas acho que estamos abertos para nos coligarmos com qualquer partido, não apenas com o MPLA. Mas isso só depois de termos os resultados eleitorais.

Quer deixar uma mensagem aos militantes da FNLA?

Lançar um apelo a todos os militantes, pois a situação já mudou. Que venham todos para constituirmos essa obra valiosa. Temos muitas potencialidades e, por isso, podemos fazer melhor.

Perfil
Nimi a Simbi

Idade: 69 anos

Naturalidade: Uíge

Habilitações académicas

Licenciatura e mestrado em Psicologia

Profissão

Docente universitário

Disciplinas leccionadas

Estudo do Mercado do Trabalho, Estatística Indutiva e Psicologia. Foi um dos fundadores da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, onde lecciona até hoje. Com o professor Carlinhos Zassala, criou o Departamento de Psicologia.

Experiência de trabalho no Estado

Director nacional do Trabalho, durante mais de dez anos, quando Diogo de Jesus (antigo secretário-geral da Assembleia Nacional) era o ministro. Também foi deputado à Assembleia Nacional, durante a Legislatura de 2008 a 2012.

Outras actividades

Coordenador do projecto “Educação em Sida”, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), durante cerca de cinco anos. (Jornal de Angola)

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