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Esta semana, em Angola… (2)

Intitulo esta crónica "Esta semana, em Angola..." e acrescento um "(2)" porque já publiquei aqui, no DN, a 17 de novembro de 2017, uma outra crónica intitulada "Esta semana, em Angola...". E nesta semana e em Angola os acontecimentos passados confirmam-se. Ora, como o que aconteceu há dois anos e picos foi auspicioso, e o que acontece agora vai na esteira disso, volto à carga.

Entretanto, não o escondo, estou interessado no assunto, Angola. Quando se tem algo que nos liga ao que se comenta, há uma fórmula: faz-se “uma declaração de interesses”. Com Angola não uso fórmulas, sou por Angola, porque sim. Tanto, que este outro país que amo e também é meu, Portugal, já me perseguiu e considerou traidor (erradamente), quando o que fiz foi o que devia a Angola (e a Portugal) – ser pela independência de ambos.

Permitam-me outro entretanto: conhecem o dilema de Camus? Em O Estrangeiro, Albert Camus tem duas frases que são das mais perturbadoras que já abriram um livro: “Hoje, a minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem.” Em 1957, quando ganhou o Nobel de Literatura, a sua pátria, Argélia, estava a ferro e fogo e essa pátria fugia-lhe entre os dedos. O estudante do liceu Bugeaud, o guarda-redes do Racing de Argel, o mediterrânico da margem sul, Camus, enfim, estava dilacerado pela separação das duas comunidades da sua pátria.

Quando me calhou reportar sobre guerra civil, detive-me nos olhos febris de uma menina bacongo. Ela tinha sido ferida por uma mina a mil quilómetros da sua aldeia do norte e acabava de ser amputada num hospital de campanha nas anharas do leste. Que tropas estavam envolvidas neste drama? Tropa.

Para quase todos a solução simples convinha: ou francesa ou árabe. Mas Camus gostava daquele “e” copulativo que, na política, tantas vezes traz a solidão. A direita francesa chamava-o traidor. A esquerda e os nacionalistas da FLN diziam-no dúbio. Então, quando ele recebeu o Nobel, um jovem argelino interpelou-o. Na resposta, Camus lembrou a mãe, que nunca vira a França e vivia num bairro pobre de pieds-noirs (brancos argelinos). E disse: “Eu creio na justiça, mas defenderei a minha mãe antes da justiça.” Correu, então, que Camus se bandeara para os reacionários.

Mas quando a morte do escritor franco-argelino fez meio século, e o tempo trouxe sabedoria, o presidente argelino Bouteflika resgatou o significado verdadeiro de “eu creio na justiça, mas defenderei a minha mãe antes da justiça”. Disse o representante da independência argelina: “Qualquer um de nós daria essa resposta. O que prova que Camus é dos nossos.” Eu, que fiz a escolha aparentemente oposta à de Camus, trago este para aqui, para dizer que quando os desígnios são tão fundos as lealdades não se opõem. Isto para vos dizer que, em Angola, trago a minha mãe ao peito e, em Portugal, Angola na escrita.

E é assim que, quando me calhou reportar sobre guerra civil, me detive nos olhos febris de uma menina bacongo. Ela tinha sido ferida por uma mina a mil quilómetros da sua aldeia do norte e acabava de ser amputada num hospital de campanha nas anharas do leste. Que tropas estavam envolvidas neste drama? Tropa. Como aquela camponesa no filme Doutor Jivago. Quando na guerra civil russa lhe perguntaram qual dos lados a perseguia, tropa revolucionária ou tropa reacionária, ela respondeu: “Tropa.” Trinta anos depois, juntei dois generais, um governamental do MPLA e outro dos rebeldes da UNITA, e comovi-me com o abraço e a amizade entre eles.

E sobretudo com o trabalho comum daqueles generais, ambos deputados a legislar pela causa comum. Eles eram o símbolo de que a guerra acabara quando acabou. Em 2002, acabou – mas isso podia ser pouco e até nada. Aconteceu com muitos países africanos. Acabou e, depois, por exemplo com Moçambique, continuou, continuou… Em Angola, não. Acabou, mesmo. Os rebeldes integraram o exército nacional e os políticos da UNITA elegeram-se para o Parlamento. Por vontade e mérito dos governamentais e dos rebeldes, Angola acabou com um mal, e continuou com ele acabado.

Histórias dessas, boas e tão verdadeiras como as más, Angola vai tendo-as. Mas insiste-se na exclusividade das que a colam com o erro e a infelicidade. Nem admitimos as evoluções que dão esperança. A palavra para definir o que falha na educação e na saúde é simples: indecente. É indecente, é indecente, é indecente. Mas deixem um bocadinho de espaço para o homem de boa vontade que criou uma escola luandense, num bairro de ruas de terra batida, com uma orquestra de violinos e centenas de instrumentos à disposição dos garotos.

Angola é-nos servida enquistada, amarrada ao que pensamos dela. Não se tiram conclusões por aquilo que é dinâmico e promissor. A UNITA, que se construiu contra os “mulatos de Luanda”, elegeu há pouco um mestiço como novo líder… O governamental Jornal de Angola já relata e respeita os congressos dos partidos da oposição… (Diário de Notícias)

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