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Colômbia: académica e ex-empregada doméstica negras disputam vice-presidência

Duas mulheres negras disputam a vice-presidência da Colômbia no segundo turno da eleição presidencial, que acontece neste domingo (19/06).

De um lado, está a ex-empregada doméstica, advogada feminista e activista pelo meio ambiente e contra o racismo Francia Márquez, que integra a chapa do político de esquerda Gustavo Petro.

De outro, a doutora em Educação e ex-vice-reitora da Universidade Minuto de Dios (Minuto de Deus) Marelen Castillo, parte da coligação do empresário Rodolfo Hernández, um empresário e ex-prefeito que se apresenta como “outsider” da política e acabou surpreendendo na reta final do primeiro turno.

Márquez e Castillo vêm de cidades da área do Pacífico colombiano, no departamento de Cauca, reduto histórico de afrocolombianos. Uma área conhecida tanto pelas belezas naturais e pelo turismo quanto pelos desafios dos tempos da guerrilha — entre eles a questão da pobreza e dos “desplazados”, aqueles que se vêem sem alternativa a não ser deixar as suas casas e territórios diante da criminalidade.

As candidatas têm, contudo, mais diferenças do que semelhanças, já que compõem chapas com ideologias e propostas bastante distintas.

Esta é a primeira vez que a disputa presidencial na Colômbia se dará entre um candidato da esquerda ou centro-esquerda e um candidato que se apresenta como “outsider” do sistema político. Os partidos tradicionais de direita e de centro-direita, que governaram o país por décadas, foram derrotados no primeiro turno, realizado no dia 29/05.

Márquez foi escolhida como vice de Petro após receber ampla votação nas primárias partidárias realizadas pela coligação Pacto Histórico em março passado.

Com 40 anos, ela é definida como um “fenómeno eleitoral” pela sua capacidade de aglutinar apoiadores, que cresceu após a sua participação nos protestos nacionais realizados em 2019 e 2020. Dois anos atrás, ela escrevia nas suas redes sociais querer ser presidente do país “para que as nossas crianças possam andar sem medo de serem assassinadas”.

Entre as suas bandeiras em defesa do meio ambiente, ressaltadas nesta campanha eleitoral, está a oposição ao fracking para a exploração de petróleo e gás, que vai ao encontro da proposta de Petro de desacelerar a exploração petrolífera no país — e que tem gerado críticas do sector empresarial colombiano.

Francia caminhando em corredor, com homens atrás
Francia começou o activismo ambiental ainda na adolescência (Crédito Reuters)

Castillo era, como ela mesma se definiu, uma “perfeita desconhecida” do eleitorado colombiano até pouco tempo. Há apenas três meses, ingressou na chapa do ex-prefeito de Bucaramanga Rodolfo Hernández, que enfrentou dificuldades para nomear uma candidata a vice.

O empresário do ramo da construção, à frente da coligação Liga dos Governantes Anticorrupção, é dono de frases definidas como machistas, entre elas a de que as mulheres deveriam ficar em casa cuidando dos filhos.

Com 53 anos, Castillo é formada no México e nos Estados Unidos e devota da santa católica Virgem de Guadalupe.

Passou a ganhar popularidade na recta final da campanha do segundo turno ao expor o seu trabalho ligado à inclusão universitária de jovens de áreas pobres do país e ao defender a criação de oportunidades para as mulheres.

“Eu aceitei a candidatura para poder ajudar tantas mulheres colombianas que não têm oportunidades. E porque acredito que a política e a educação têm o mesmo objectivo de fazer o bem à cidadania”, declarou.

A candidata disse que Hernández tem experiência como “empreendedor e empresário” e que sua participação em um eventual governo se daria principalmente na área da educação. O presidenciável já afirmou que, caso a chapa seja eleita, Castillo ocupará também o Ministério da Educação.

Nos planos da possível futura vice estão aumentar o salário dos professores das escolas públicas e a realização de investimentos nas áreas de esportes e artes.

Em seu currículo, enviado por sua assessoria de imprensa à reportagem, constam quatro diplomas universitários, incluindo doutorado em educação nos Estados Unidos, mestrado em administração de empresas no México, engenharia industrial e biologia e química na Colômbia.

Castillo discursa no microfone e gesticula, observada por outras pessoas
Castillo foi chamada de ‘perfeita desconhecida’ do eleitorado colombiano (Foto: D.R.)

Primeiro turno com recorde de candidatos afrocolombianos

Para a cientista política Luciana Manfredi, da Universidade Icesi, de Cali, as declarações de Castillo atuam como uma espécie de “contenção” às polêmicas afirmações de Hernández.

“Ele a escolheu para ser sua vice após várias tentativas que não deram certo. Ela é uma educadora preparada, mas tem uma trajectória muito diferente da de Francia, [que é] muito mais popular e com mais experiência no âmbito político”, completa.

Em entrevistas, Castillo, mãe de dois filhos, contou ter crescido no seio de uma família de classe média e miscigenada, com um pai branco e uma mãe negra, onde raça não era um assunto discutido.

Marquéz, mãe solteira aos 16 anos, teve uma vida de dificuldades financeiras. Ainda na adolescência, aos 15 anos, iniciou o activismo em defesa do meio ambiente e contra as empresas ilegais de mineração em Cauca, como mostram as suas entrevistas disponíveis, daquela época.

Anos mais tarde, em 2018, ela recebeu pela sua actuação nessa área o prémio internacional Goldman, definido por especialistas como o “Nobel Verde”.

Márquez diz ter decidido estudar direito por conta das suas preocupações ambientais e pela sua dedicação a enfatizar os seus antepassados escravizados. Em sua página na internet, define-se como “parte da luta contra o racismo estrutural”.

Num país “profundamente racista”, como disse o professor de ciências políticas Alejo Vargas Velázquez, da Universidade Nacional da Colômbia, ela passou a ser conhecida e respeitada nacionalmente pela sua liderança e defesa também do Meio Ambiente.

Apesar de pelo menos 10% da população do país ser negra, não se regista esta presença nas altas esferas do poder, como Márquez costuma frisar.

Esta campanha eleitoral, contudo, marcou o recorde de cinco candidatos afrocolombianos à vice-presidência na primeira etapa da disputa eleitoral, o que foi definido pela professora de sociologia e diretora do Centro de Estudos Afrodiaspóricos da Universidade Icesi, Aurora Vergara-Figueroa, como “algo inédito e que ocorre quando há cerca de 170 anos os afrodescendentes estavam em condições de escravidão na Colômbia”.

Perfis diferentes, desafios diferentes

O analista Jorge Restrepo, da Universidade Javeriana, de Bogotá, observa que as semelhanças entre as duas vices parece limitada ao facto de serem originárias da região do Pacífico colombiano.

“Estamos a começar a conhecer a vice de Hernández, enquanto Márquez já é uma política de expressão nacional e que já tinha influência antes mesmo de ser vice de Petro”.

Márquez foi presidente do Comitê Nacional de Paz e Reconciliação e Convivência do Conselho Nacional de Paz, quando apoiou e “impulsou”, como disse, a implementação do acordo de paz entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que depuseram as armas após 50 anos de conflitos.

Durante a campanha eleitoral, como publicou o El Espectador, de Bogotá, ela foi alvo de “fake news” que apontaram supostos vínculos seu com o grupo guerrilheiro ELN. Neste ano, ela entrou com uma ação na Justiça contra um senador que teria sugerido este vínculo, mas o Judiciário entendeu que o processo iniciado não tinha sustentação.

O seu currículo como activista e personalidade nacional inclui o ano de 2014, quando ela liderou o que ficou conhecido como “a marcha dos turbantes” contra a mineração na comunidade negra e sua terra natal de La Toma, no município de Suárez, em Cauca.

A marcha reuniu dezenas de mulheres afrocolombianas que caminharam mais de 500 quilómetros durante 22 dias até a capital do país para denunciar a exploração ilegal de minerais.

Várias vezes ameaçada de morte por suas denúncias contra a mineração ilegal e a contaminação de rios, como denunciou em diferentes ocasiões, Márquez subiu ao palanque da campanha eleitoral acompanhada por seguranças.

Num dos comícios, em Bogotá, quando era comemorado o dia da “afrocolombianidade”, os seus assessores decidiram tirá-la do palco às pressas quando um laser verde foi apontado contra a candidata.

Para analistas, enquanto o desafio de Castillo é passar a ser mais conhecida entre os colombianos, o de Márquez é contar com apoio dos que não compartilham do seu activismo em defesa do meio ambiente. (BBC)

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