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Angola: “Ministros nunca irão admitir que o país está em dificuldades”

O Governo angolano defende uma perspectiva económica optimista para o país. Mas o economista Alves da Rocha afirma que, devido às eleições de 24 de Agosto, os governantes nunca vão admitir que Angola está em dificuldades.

O Governo angolano mantém elevadas as perspectivas económicas, mas os analistas alertam que esta aparente recuperação da economia é um benefício “apenas conjuntural”.

Em entrevista recente à DW, o secretário de Estado para o Trabalho de Angola, Pedro Filipe, considerou que a economia está a melhorar devido à alta do preço do petróleo e afirmou estar satisfeito com o desempenho económico do país.

Porém, críticos consideram esta perspectiva “demasiado optimista” e acusam o Governo de “objectivos eleitoralistas” aquando da publicação de dados.

Para esmiuçar melhor este tema, a DW conversou com o economista Manuel Alves da Rocha, do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola sobre o assunto.

Alves da Rocha in LuandaAlves da Rocha: “Esse crescimento não será suficiente para alavancar o desenvolvimento e muito menos o progresso social”

DW África: Serão as perspectivas económicas do Governo angolano demasiado optimistas?

Alves da Rocha (AR): Isso é uma perspetiva oficial. O país está em eleições. Naturalmente que os membros do Governo, os ministros e secretários de Estado nunca irão admitir que o país está em dificuldades; que a taxa de crescimento que está prevista para Angola até 2026 anda numa média de 2,5%, 3%, ao ano, e não consegue compensar a taxa de crescimento da população.

Só por aí, pelo menos até 2026, o rendimento médio por habitante em Angola vai diminuir. Portanto, ainda que o país apresente agora algumas expectativas de um crescimento positivo, devido justamente ao bom comportamento do sector do petróleo, esse crescimento não será suficiente para alavancar o desenvolvimento e muito menos o progresso social.

DW África: Críticos duvidam das estatísticas oficiais e dizem que os dados apresentados pelo Governo têm objetivos eleitoralistas. Concorda?

AR: Sabe que essa questão das estatísticas oficiais em Angola não é uma questão nova. É uma questão que já vem desde o tempo da independência, quando se começou a construir uma base estatística no país. E essa base começou a ser construída com o Índice de Preços no Consumidor. E já na altura existiam dúvidas sobre a veracidade e a conformidade desses dados estatísticos…

Como alguns jovens angolanos estão a fintar o desemprego?

DW África: Nesta linha de raciocínio, os sindicalistas e ativistas já tinham questionado inclusive as estatísticas oficiais em maio, quando o Instituto Nacional de Estatística (INE) disse que a taxa de desemprego caiu no primeiro trimestre de 2022. Na sua opinião, qual é a perspetiva?

AR: Não, esta questão não é só em matéria das estatísticas do emprego, é também relativamente ao próprio crescimento do PIB [Produto Interno Bruto]. O anterior diretor-geral do Instituto Nacional de Estatística foi demitido destas funções justamente por ter contrariado a opinião na altura do ministro da Economia e Planejamento, que tinha transmitido formalmente uma taxa de crescimento do PIB mensal, taxa de crescimento homóloga do PIB de Fevereiro a março de 10%, quando o diretor do INE o contrariou dizendo que não.

DW  África: E como analisa essa controvérsia?

AR: A controvérsia tem a ver com o receio em se publicar estatísticas que expressem a realidade dos factos, sejam factos económicos, como o PIB, sejam factos sociais, como o desemprego. Sabe-se que a taxa de desemprego em Angola é das mais elevadas do mundo. Uma taxa de desemprego de 30% a 32% é muita coisa. Isso significa uma ociosidade da força de trabalho que tem reflexos significativos no aumento do PIB. Porque se trata de uma mão de obra que não encontra possibilidades, não encontra oportunidades de contribuir para o processo produtivo em Angola.

Angola: Fome leva famílias a comer ratos em Luanda

DW  África: O Governo confirma que devido à pandemia da Covid-19 foram perdidos quase 200 mil postos de trabalho, e para reduzir o impacto junto das famílias lançou o programa de reconversão da economia informal, o que formaliza 200 mil actores. Como avalia esse programa, será preciso mais do que isso para alavancar estruturalmente a economia angolana?

AR: Claro que sim, claro que é necessário muito mais. O problema da economia angolana não está na economia informal. Se não fosse a economia informal, provavelmente a taxa de desemprego em Angola não seria de 30% ou 32%. Um colega meu, investigador da Universidade Católica de Angola, publicou um artigo no semanário Expansão em que, ao analisar também o sector informal da economia, concluiu que, se não fosse aquele setor, a taxa de desemprego em Angola poderia rondar os 70% ou 80%. Estamos a falar de uma profunda crise social em Angola.

DW  África: Se pudesse elencar os três pontos mais importantes para alavancar uma mudança estrutural da economia angolana, quais seriam?

AR: O primeiro ponto capital humano, o segundo ponto a diversificação da economia, e, o terceiro ponto, uma resolução social que permitisse que os cidadãos pudessem sair da situação de pobreza extrema em que vivem. (DW)

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