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Águas subterrâneas “salvam” agricultores do Namibe

Namibe – Em meio a estiagem (ausência prolongada de chuvas regulares), centenas de agricultores e criadores de gado da província do Namibe continuam a optar pela exploração de águas subterrâneas, para “salvarem” a actividade agropecuária daquela zona desértica.

Além desta técnica, os operadores do campo aproveitam a humidade do leito dos rios intermitentes (contêm água somente quando há presença de chuvas regulares) para a abertura de furos/cacimbas de água, visando a irrigação das culturas e a protecção do gado.

Adicionalmente, a pastorícia também tem sido feita nas margens das fontes de águas termais, brotadas de forma natural de rochas/pedras e solo, servindo para o abeberamento dos animais (bois, cabritos, ovelhas e burros), assim como a irrigação de pequenas plantações.

Estes são exemplos de uma dura realidade que continua a afectar a população dos cinco municípios do Namibe, onde a chuva e a terra estiveram “divorciadas” por mais de dois anos.

No caso particular do município da Bibala, a escassez de chuva leva os camponeses a recorrerem às águas subterrâneas de pequenos vales, com o auxílio de moto-bombas.

Só para se ter ideia, das 14 fazendas/empresas até então existentes, apenas seis estão em funcionamento, em consequência da falta de chuva regular, da crise financeira e da Covid-19.

Considerado como o município com maior potencialidade agropecuária, a Bibala destaca-se pelo cultivo do tomate, melancia, cebola, batata-rena, massambala, milho, massango e feijão, que estão actualmente a ser produzidos com auxílio das águas subterrâneas.

Apesar do custo de produção ser mais alto e reduzir os níveis produtivos, uma das vantagens da actividade agrícola praticada por meio da irrigação é a colheita de bens ao longo do ano, diferenciando-se de outras regiões do país, que somente dependem das chuvas para cultivar.

Na campanha agrícola 2020/2021, o município registou a colheita de 112 mil toneladas de produtos, como o milho, massango, massambala, feijão, tomate e a melancia.

Entretanto, com o recomeço das chuvas, em Dezembro último, augura-se o aumento dos níveis de produção na presente época (2021/22), sendo que estão preparados mais de sete mil hectares, explorados por 14 mil e 612 camponeses.

Dos 14.612 camponeses, agrupados em famílias, 6.612 estão inseridos no Programa de Combate à Pobreza e cinco mil no fomento agrícola, que conta com apoio de empresas privadas a operarem no município.

A ANGOP apurou, recentemente, que o município da Bibala tem perto de 190 mil cabeças de gado e um aviário privado, dos quais só cerca de 10 por cento aderem à vacinação.

Este facto preocupa as autoridades sanitárias do município, que afirmam estar em risco a vida dos animais e criadores, bem como dos consumidores de carne daquela localidade.

Com uma população estimada em 81.944 habitantes, maioritariamente composta pelos grupos etnolinguísticos dos Cuvales e Nhaneca Humbi, a actividade pecuária na Bibala, o segundo município com maior número de cabeças de gado na província do Namibe, está mais virada para o âmbito costumeiro ou tradicional do que para a comercialização.

Esta situação tem causado transtornos na gestão e controlo do efectivo pecuário do município, tendo inviabilizado, inclusive, a comercialização em grande escala do gado.

Até Abril de 2021, a seca acentuada, que assola a região sul do país, afectou mais de cem mil famílias na província do Namibe e cerca de 500 mil cabeças de gado bovino, caprino e suíno.

Virei e Tômbwa apostam na agricultura de subsistência

Por conseguinte, os munícipes do Virei e Tômbwa têm-se dedicado, nos últimos anos, à prática da agricultura de subsistência, com o cultivo, essencialmente, de tomate, cebola, melancia, milho e massango, com recurso às águas subterrâneas.

Para o aumento da produção no Virei, por exemplo, estão a ser abertos 50 furos artesanais (22 já concluídos) com 10 a 12 metros de profundidade, no âmbito do Programa de Combate à Pobreza, gizado pelo Governo angolano, em parceria com instituições privadas.

Conforme o administrador municipal, Lenine dos Santos, a abertura dos furos, que servirão para a irrigação dos campos agrícolas, está avaliada em dois milhões de kwanzas.

Ainda no quadro do Programa de Combate à Pobreza, avança que, este ano, a administração municipal está a desmatar e entregar vários lotes de terras às famílias associadas em cooperativas, para cultivarem bens alimentares essenciais.

Embora a principal actividade seja a pastorícia, no Virei já se pratica agricultura de subsistência e de média escala, com o cultivo de sequeiros (milho, massambala e o massango) e a prática da cultura de regadio (tomate, cebola e melancia), actividades exercidas, maioritariamente, nas margens do Rio Bero.

Lenine dos Santos refere que, com mais investimento, será possível tirar o Virei da posição actual, ou seja, da lista dos sete municípios mais pobres do país, devido, principalmente, a estiagem que assola esta região há vários anos, agravada pela praga de gafanhotos que afectou a produção da região no ano transacto.

Mesmo com esses problemas, o Virei ainda registou a colheita de mais de 300 toneladas de tomate, 50 de cebola e 80 de melancia, no ano agrícola 2020/2021, de acordo com o director municipal da agricultura, pecuária e pesca, Fernando Gonçalves.

Para a presente época, prevê-se obter bons resultados, tendo em conta os projectos de abertura de novos furos em curso no município.

Com uma superfície de 15 mil e 92 quilómetros quadrados, Virei tem 41 mil e 222 habitantes, distribuídos em duas comunas (Sede e Cainde), e mais de 60 localidades nómadas.

Paralelamente ao Virei, o município do Tômbwa, conhecido pelo seu potencial pesqueiro, também já começa a dar os primeiros passos no cultivo de algumas culturas, como hortícolas.

Embora de forma tímida, com excepção do cultivo do tomate, um produto com níveis de colheita aceitável, a actividade agrícola, em geral, ainda é feita para a subsistência das famílias que praticam, de forma residual, a agricultura ao longo do vale do Rio Curoca.

Além da agricultura familiar, o município tem duas cooperativas: Pinda e Curoca, e pequenos empresários que se dedicam ao cultivo da batata-doce, rena, melancia, pepino e pimenta.

É nessas cooperativas e pequenas empresas que os jovens têm encontrado a primeira oportunidade de emprego, como por exemplo Pedro Cambandaka, saído da cidade do Lubango (Huíla) para trabalhar no campo.

O agricultor, que há três anos se dedica ao cultivo do tomate, pimento, cebola e milho, diz  ser boa a experiência de trabalhar no campo, e promete replicar o aprendizado a outros.

Pedro Cambandaka, que exercia a pastorícia na província da Huíla, aconselha os jovens desempregados a não terem vergonha de trabalhar no campo.

Quanto às quantidades produzidas, o Tômbwa colheu cerca de 50 mil toneladas no ano agrícola 2020/2021, como confirma a administradora municipal adjunta, Benvinda Mateus.

Por ser um dos municípios que também tem sido fustigado pela estiagem, a administradora adjunta reiterou que a prática da agricultura nessa circunscrição depende dos furos ou chimpacas e das águas das chuvas que vêm da vizinha província da Huíla.

Inicialmente projectado para perto de sete mil habitantes, actualmente o município conta com uma população estimada em 70.515 pessoas, tendo como principal actividade a pesca artesanal marítima e a pastorícia.

Com uma superfície de 18 mil 19 quilómetros quadrados, o Tômbwa, que dista a 96 quilómetros de Moçâmedes, conta com três comunas: sede, Iona e a Baía dos Tigres.

Das três comunas, apenas duas são habitáveis, sendo que a Baía dos Tigres está totalmente desabitada desde 2011, por força de fenómenos naturais/condições climatéricas. (ANGOP)

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