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Criadores vivem dias dramáticos em busca de água e pasto na Huíla

O amanhacer, Joaquim Mundinga procura desesperada- mente por água na localidade de Mbaque Mphangui, município dos Gambos, na Huíla, para dar de beber às mais de 200 cabeças de gado bovino que possui.

 Devido à seca severa que afecta o Sul de Angola, o criador de gado abandonou o município do Curoca, província do Cunene, em busca de poços de água e pasto para os animais na região dos Gambos.

“Nunca vi seca tão severa como esta. Anteriormente, podíamos ter seca, mas havia água e pasto para os animais”, desabafa Mundinga, que há dois anos percorre longas distâncias em busca do precioso líquido e do pasto para o seu gado.

Os municípios dos Gambos e Matala, na Huíla, transformaram-se nos últimos tempos nos principais destinos dos criadores de gado das províncias do Cunene e Namibe que, “fugidos” da seca, procuram salvar os seus animais. Estima-se que mais de 60 mil cabeças de gado tenham chegado à província da Huíla, num processo que se prolonga até Novembro próximo.

Tchimuti Wandua, com 250 cabeças de gado, é outro criador de gado que também foi obrigado a deixar o Curoca em busca de água e pasto. “Sofremos muito. Percorremos longas distâncias e corremos o risco de sermos atacados por animais ferozes e doenças, em busca de água e pato para os nossos animais”, lamentou.

Só no Vale do Chimbolelo, nos Gambos, estão concentradas mais de três mil cabeças de gado, das quais cerca de 300 são do ancião Alfredo Muhenye. Há três anos, conta à reportagem do Ventos do Sul, que não chove no Curoca.

Durante a viagem, que durou sete dias, Alfredo perdeu 50 cabeças de gado. Umas morreram por doença e outras foram devoradas por animais ferozes. Devido a falta de água e pasto, acrescentou, as vacas diminuíram a produção de leite.

O mesmo drama vive Sapalo Paulo. Há três meses, instalou-se na localidade de Tunda, município dos Gambos, proveniente de Otchijau, na Cahama, no Cunene. “A nossa viagem durou uma semana e perdemos mais de 20 cabeças, das 210 que possuíamos, por causa da fome”, conta.

Nos Gambos, Sapalo Paulo enfrenta uma situação curiosa: Há pasto, mas não há água, que existem em abundância na Cahama, onde não há pasto para os animais.

TRINTA MIL CABEÇAS DE GADO NO MULONDO

A comuna do Mulondo, na Matala, revelou o administrador Zeca Mu- pinga, recebeu, de Abril a Junho, mais de 30 mil cabeças de gado bovino, proveniente da província do Cunene. As autoridades comunais estão preocupadas com esta situação, na medida em que muitas cabeças de gado apresentam sinais de doença de pele, carbúnculo, entre outras.

Zeca Mupinga defendeu a construção urgente de mangas de vacinação e tanques banheiros para o gado. O administrador também está preocuapdo com a escassez de pasto nas margens do rio Cunene, provocado pela chegada massiva de animais à região.

“Há necessidade de transferir estes animais para locais com maior pasto, mas não há água nesses locais. Por isso, será necessário criar furos de água e instalar bebedouros para Criadores vivem dias dramáticos em busca de água e pasto na Huíla

Tchimuti Wandua é criador de gado do Curoca o gado”, defendeu, desmentindo as denúncias de que estariam a cobrar 100 kwanzas por cada cabeça para ter acesso ao pasto da região.

“O gado proveniente do Cunene está infectado de doenças e precisa ser tratado com banho e vacinação. Por isso, a Administração solicitou um valor módico aos cria- dores para os animais serem trata- dos nos tanques banheiros construídos no Mulondo”, justificou.

Este não é o único problema. A população do Mulondo está preocupada também com a destruição dos seus campos de cultivo pelas manadas vindas do Cunene e Namibe e exige ser indemnizada. Ze- ca Mupinga defende que o problema da seca exige estudos e projectos sustentáveis para a sua mitigação e quer protecção para as zonas de pastagem, com a proibição de queimadas, com vista a salvaguardar a vida dos animais.

A directora do Gabinete Provincial da Agricultura na Huíla, Mariana Soma, revelou que há suspeitas de que algum gado é oriundo da Namíbia em busca de pasto e água na Huíla. Nesta altura, acrescentou, decorreu um estudo para identificar a sua proveniência. “O gado parte de Ruacaná, na fronteira com a Namíbia, até aos Gambos”, disse.

SANIDADE ANIMAL

No sector de Taka, com grande potencial na agro-pecuária, está em construção uma unidade de for- mação sanitária, que inclui uma residência para o veterinário, no sentido de garantir a sanidade animal. O projecto inclui a reabilitação de mangas de vacinação para o gado bovino e caprino.

Soma garante que estas condições estão a ser criadas para atender também o gado proveniente do Virei, província do Namibe. “A par disso, vamos continuar a sensibilizar e a mobilizar a população sobre o maneio de gado, com o apoio de técnicos de veterinária”, disse, acrescentando que estão a ser preparadas campanhas de vacinação contra a peripneumonia, carbúnculos externos e internos e a dermatite nodular.

Cenário de fome nos Gambos

A entrada massiva de gado proveniente das províncias do Cunene e Namibe, levou o governador da Huíla, Luís Nunes, a deslocar-se ao município dos Gambos, onde mais de 40 mil pessoas estão sem alimentos devido à seca.

O administrador municipal, Elias Sova, garantiu que tudo está a ser feito para que estas pessoas recebam ajuda no âmbito do programa de emergência e de apoio às vítimas da seca.

A directora do Gabinete Provincial da Agricultura, Maria Soma, garantiu que decor- re a bom ritmo o processo de abertura e reabilitação de furos de água. Actualmente es- tão em construção nove siste- mas de água na localidade de Taka e um na embala do rei, requalificação e ampliação do sistema de distribuição de água da vila do Chianje, reabilitação de 18 sistemas de água e a construção de outros oito. Nos municípios da Chi- bia, Quipungo e Quilengues, afirmou, vão ser construídos

Administrador Elias Sova

12 sistemas de água e terra- planados mais de 100 quilometros de estrada. Ao longo do vale do Chimbolelo existem grandes fazendeiros que dispõem de grandes quantidades de água. Mariana Soma exortou esses fazendeiros a partilharem o precioso líquido com os criadores de gado tradicional, no sentido de minimizar o impacto da seca a nível da Região Sul. (Ventos do Sul)

Por: Arão Martins

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