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Colóquio sobre Agostinho Neto e Cultural Nacional desperta curiosidades

A conferência visou promover o mais alargado debate de ideias em torno da Cultura Nacional e, ao mesmo tempo, revisitar o pensamento cultural de Agostinho Neto e encará-lo à luz das necessidades dos dias de hoje.

O Memorial Dr. António Agostinho Neto, em Luanda, acolheu esta Quinta-feira o colóquio sob o tema: “O Dr. António Agostinho Neto e a Cultura Nacional”. A conferência dividida em duas sessões, teve como oradores os académicos Cornélio Caley, Alexandra Aparício, José Luís Mendonça, José Domingos Pedro, Benjamim Fernando, Eduardo Pérez Alberto e o anfitrião António Fonseca. O colóquio reuniu distintas figuras entre as quais estiveram docentes, estudantes universitários, diplomatas, autoridades tradicionais, entre outras individualidades e iniciou com o debate à volta do tema “Sagrada Esperança: O Conceito”, pelo historiador Cornélio Caley, que dividiu a sua dissertação em três momentos.

No primeiro, Cornélio Caley referiu- se aos vários períodos que marcaram a intervenção de Agostinho Neto na luta contra a pobreza, a consolidação da independência nacional, a consolidação das ideias pan-africanistas, a negritude, entre outras questões. Por seu turno, a directora do Arquivo Nacional de Angola, Alexandra Aparício, a quem coube a dissertação do tema “António Agostinho Neto e a Geração da Mensagem Na Afirmação da Identidade Angolana”, frisou que Agostinho Neto deixou um legado com uma boa parte por explorar e partilhar.

Referiu-se também a uma descrição da situação da colónia de Angola da época, explicando o aparecimento do Movimento dos Jovens Intelectuais dessa Geração, que através da sua poesia contestaram e chamaram a atenção para a situação calamitosa e para o sistema colonial vigente. Um Movimento que estendeu-se passando da contestação intelectual para a luta armada que conduziu à libertação de Angola do jugo colonialista e à sua independência.

Já o escritor, José Luís Mendonça, na sua intervenção sobre a “Angolanidade e Universalidade na Poética de Agostinho Neto”, realçou que a hermenêutica do discurso poético tem como ponto de partida a fenomenologia da composição lírica. Adiantou que nessa conformidade hermenêutica, não podia comparecer nas vestes de crítico literário, que não se ajustam à sua anatomia académica. “Estou aqui nas vestes de poeta a ler outro poeta, a interagir com outro Ser-no-mundo, pelo cordão simbólico e hertziano da hipersensibilidade”, disse José Luís Mendonça, acrescentando, que enquanto sintomatologia do estado do mundo, a obra poética de Agostinho Neto constitui um vasto poema épico angolano e universal, em verso livre, entremeado de estâncias líricas e elegíacas.

Para fixar os conceitos de angolanidade e de universalidade na poética de Agostinho Neto, o orador aconselhou que partíssemos do exercício de compreensão da realidade histórico-social da sua época e de como a alma do poeta fez a absorção desse fenómeno pelo crivo da Cultura, de como o Ser-nomundo se realizou enquanto Homo Culturalis, decompondo as quatro estruturas constitutivas da sua introspecção: Primeiro a veia sanguínea bantu; segundo, a poeira do tempo político- social; terceiro, o clima e a natureza e, por último, o peso da História Universal no pensamento e na memória do poeta.

Com esta caixa de ferramentas verbais, segundo Luís Mendonça, desparafusamos a fenomenologia da Angolanidade e da Universalidade e expomos sobre o tapete desta oficina as palavras que representam a sua “significação”, extraídas da própria poesia de Agostinho Neto.

Já no que diz respeito ao fenómeno da Angolanidade em construção, recordou que na obra completa de Agostinho Neto destaca-se uma estrutura semiótica emocional segregada em cada verso a qual lhes confere a sonoridade identitária ou da pertença a um determinado entorno etno-cultural. Nesta óptica, uma observação visceral, compósita, deste conceito permite constatar que ele é dialecticamente global, intercultural, da qual resulta a Angolanidade como uma Universalidade, tanto no sentido material quanto no conteúdo simbólico-cultural da construção da civilização humana.

O conceito de Angolanidade emerge assim da dimensão política, cultural e antropológica do processo civilizatório africano e mundial e comporta a dialéctica da sua resolução geo-espacial no contexto colonial, que se agudiza no período pós-colonial. Daí a interdependência entre a Angolanidade e a Universalidade material e simbólica expressa no verso “O caminho das estrelas sobre a curva ágil do pescoço da gazela”.

“Elencamos diversas categorias simbólicas, como forma de melhor arrumar a dissecação exegética do fenómeno da Angolanidade em construção no discurso poético de Agostinho Neto”, concluiu José Luís Mendonça.

O debate terminou com a abordagem dos temas “Agostinho Neto e As Línguas Nacionais” pelo linguista José Domingos Pedro; “Renúncia Impossível: O Conceito”, Benjamim Fernando; “O Pensamento Filosófico de Agostinho Neto Sobre Angola enquanto Estado: O Mais Importante é Resolver Os Problemas do Povo” por Eduardo Pérez Alberto e “A Política Cultural no Pensamento do Dr. António Agostinho Neto” pelo anfitrião, António Fonseca, Presidente do Conselho de Administração do Memoria Dr. António Agostinho Neto. (O País)

 

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