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“As nossas marcas têm estado ao nível dos criadores internacionais”

É com o tecido que expressa toda a sua criatividade, identidade e história. A estilista, que viu recentemente a sua marca no palácio da Rainha Isabel II de Inglaterra, diz que é necessário a criação de dinâmica para que a moda faça parte da economia que move o País.

É conhecida internacionalmente pela forma como combina tecidos e padrões africanos. Quando e como entra no universo da moda?

O meu grande caminho para o mundo da moda começa quando era manequim e trabalhava para outros designers. Eu vive em vários países e desfilei para várias marcas. Mas foi na África do Sul que tudo começou, na fase pré-libertação do Presidente Nelson Mandela. O país estava a apostar em novas marcas, novas caras e novas ideias e a minha entrada foi facilitada. Durante muitos anos, os manequins negros tinham dificuldade em entrar no mercado. Assim, começa a minha trajectória. Mas a moda vem do passado, pelo facto de eu gostar de desenhar e também ter uma mãe que costurava.

Que significado tem para a sua carreira o facto de vestir figuras públicas?

Fazer parte do grupo de estilistas que representam Angola e o continente e que, com alguma responsabilidade, assume a imagem e o conceito bonito de poder vestir algumas figuras públicas é um passo extremamente importante para a divulgação da nossa cultura. Quando fizemos referência a algumas figuras públicas, claramente ligamos essas pessoas ao resto do mundo. E hoje fazer parte, como marca, desta grande história é muito importante para a minha carreira. Gostava muito de poder continuar a passar essa informação que tenho sobre a moda e poder ajudar outros criadores a atingirem o mesmo nível de trabalho.

Fez parte do grupo de mulheres empreendedoras que reuniu com o secretário de Estado Mike Pompeo. Que significado teve esse encontro?

Há uns anos, fiz parte de um projecto de liderança nos EUA, a convite da embaixada dos Estados Unidos em Angola, juntamente com outras mulheres africanas. Fui a única a representar Angola. O encontro com o secretário Mike Pompeo foi para passarmos a informação sobre resultados alcançados, o que ganhámos com essa experiência e de que forma a marca Nadir Tati contribuiu para o nosso crescimento. Falámos sobre a mulher, o empreendedorismo e a liderança, e como devemos inspirar e ajudar outras mulheres a trilhar o mesmo caminho.

Em 2018, realizou a primeira exposição de moda em Angola. Para quando a próxima?

Já tive vestidos expostos em Milão e Macau. Neste momento, estou a preparar a nova colecção, penso que será exposta em Abril.

Defende que a moda também pode conter e contar histórias, como?

A moda para mim não faria nenhum sentido se eu não pudesse contar histórias. Eu vivo todos os dias a contar histórias. Eu gosto de um bom momento, porque são os momentos que fazem as nossas histórias, são os momentos que falam sobre a nossa identidade, que nos posicionam no mundo como seres humanos. Sou defensora da história do continente africano, das mulheres e das crianças.

Como avalia a moda em Angola e o mercado nacional de têxteis?

Faço uma avaliação positiva. Penso que temos pessoas atentas a esse crescimento. Infelizmente, ainda temos de lidar com o facto de não termos industria têxtil ao nosso nível. Mas hoje temos criadores que conseguem mostrar trabalhos bons e bonitos. Temos novos talentos que estão a trabalhar com força, mas é uma indústria que precisa de muito trabalho e desenvolvimento. Espero que essa atenção seja dada imediatamente para se poder transformar o que fizemos em algo mais valioso, para que se consiga vestir os angolanos e depois exportar para o continente africano e para o mundo.

Vestir bem é caro?

É caro sim, porque é algo que tem a ver com a exclusividade. Quando olharmos a posição do nosso País e as dificuldades que os estilistas têm para obter o material, naturalmente que encarece o produto. Mas, o que tenho observado, é que as marcas dos criadores angolanos têm estado ao nível e à altura dos criadores internacionais.

Qual é o impacto da crise no negócio de moda?

A crise não afecta só a moda, mas todos os sectores que são importantes para o desenvolvimento da economia. Na moda já sofremos por não ter uma indústria têxtil, claramente que a falta de divisas e a falta de material vem dificultar ainda mais o nosso trabalho. Não existe uma academia para dar resposta ao mercado. Apesar de termos alguns estilistas que leccionam de forma independente, é necessário que se crie uma dinâmica rápida e séria para podermos melhorar e fazer parte da economia do País e do continente.

Como vê o estado económico e financeiro do País?

Penso que Angola está num momento de transição, importante para a nossa economia, com alguma direcção. Isso quer dizer que algumas oportunidades devem começar a ser dadas às pessoas que conseguem trabalhar. Quando falamos de economia, lembramos que não é apenas o petróleo e os diamantes, mas também um conjunto de pessoas, essas são as riquezas de um país. Faço parte da geração que acredita que se apostarmos no capital humano e olharmos para aquilo que o País tem, se isso for bem capitalizado, dividido de forma equitativa, controlado e estar à disposição de quem quer trabalhar, pode trazer sucesso para e economia.

Quais são os seus projectos para 2020?

Este ano, começamos com alguns momentos importantes para o crescimento da marca e todos os dias surgem novos desafios. Um dos grandes projectos é dar atenção às crianças, de forma a que a educação seja acessível em todo o País, falo do projecto Museu da criança. Em relação à moda, estamos a preparar um desfile que será realizado dentro de algumas semanas, no Botswana.

Na moda, com olho nas crianças e pé na criminologia

Nasceu em Luanda em 1975. Além da moda, Nadir Tati é formada em criminologia e, dentro em breve, pretende regressar e retomar essa actividade com uma força de segurança. “Sou madrinha de várias crianças em Angola e faço parte de algumas organizações que estão directamente ligadas às crianças e aos seus direitos, mas ainda temos um longo caminho a percorrer”, disse. (Expansão)

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