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“Digitalizar arquivos significa colocar informações à distância de um click”

O 27 de Outubro, Dia Mundial do Património Audiovisual, significa, para o jornalista Raimundo Salvador (RS), o “Dia da Memória Viva”, pois esta é “palpável por dois sentidos fundamentais: a voz e a visão”.

Membro da comissão organizadora da Associação de Desenvolvimento Comunitário do Sequele, em Luanda, Raimundo Salvador, 45 anos de idade, a completar a 1 de Dezembro, é natural de Xangongo, no Cunene. Antigo repórter e editor no Jornal de Angola, estudou Direito na Universidade Agostinho Neto, foi realizador e co-apresenta-dor do Programa “Os Kambas”, na rádio MFM, e é actualmente um dos realizadores e co-apresentadores do programa “Conversas à Sombra da Mulemba”, na Rádio Ecclésia.

O jornalista lamenta, en-tretanto, que a data seja “também um dia triste, porque me remete à realidade dantesca: lidamos muito mal com tudo o que tem a ver com a memória”.
Raimundo Salvador explica as razões da sua tristeza: “A Cinemateca Nacional praticamente não existe. Arquivos fundamentais da TPA e da RNA simplesmente desapareceram.  E ninguém diz ou faz absolutamente nada. ”

O Dia Mundial do Património Áudio-visual foi instituído em 1980, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), como Recomendação para a Salvaguarda e a Conservação das Imagens em Movimento.

Raimundo Salvador afir-ma-se “muito preocupado” com a situação. “São elementos fundamentais para estudarmos a nossa história.  Sem este conhecimento, não é possível entender o que somos hoje. A razão de ser de determinados comportamentos, acções, opções ou atitudes não são devidamente compreendidas, porque não percebemos a sua razão de ser. Isso tem a ver com a forma como interagimos com o nosso passado, com a nossa História”.

No ano passado, a diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova, afirmou, a propósito da data, que “o património áudio-visual desempenha um papel fundamental no trabalho para promover aquilo que nos une e não aquilo que nos divide. Ao fazê-lo, podemos ajudar a nutrir valores universais e a construir uma cultura de tolerância e paz”.

A dirigente lembrou que “memórias e testemunhos, conhecimento e ideias, de maneiras vivas e dinâmicas, fornecem as bases para um melhor entendimento e para o diálogo entre gerações e entre pessoas da mesma idade, assim como entre e dentro das sociedades”.

“Interligando o passado e o presente, esse património faz parte da nossa história comum e deve ser salvaguardado e compartilhado como uma fonte de identidade e pertencimento, inovação e criatividade”, afirmou.

Irina Bokova disse ainda que filmes, materiais sonoros, programas de rádio e televisão oferecem uma oportunidade de olhar para a história com fundamento no respeito e na tolerância e realçou que a UNESCO “trabalha com governos de todo o mundo para salvaguardar o património audiovisual como fonte de força que deve ser compartilhada por todos – para permitir que mulheres e homens, hoje e amanhã, continuem a descobrir, lembrar e compartilhar o património que nos faz quem somos”.

Raimundo Salvador concorda com a preocupação da UNESCO em relação à digitalização dos arquivos de som e imagem, devido à perda constante de património audiovisual a que vimos assistindo em todo o Mundo.  “Apenas ganhamos com a digitalização. Digitalizar arquivos significa colocar informações vitais à distância de um click. Digitalizar significa, praticamente, imortalizar os arquivos.

O Dia Mundial do Património Áudio-visual, que hoje se celebra, tem como objectivo aumentar a consciencialização sobre a sin­gularidade deste testemunho histórico, estimular a acção urgente para o preservar e honrar os profissionais e instituições que trabalham incansavelmente e muitas vezes em condições difíceis para proteger este património ameaçado.

A UNESCO pretende chamar a atenção para a necessidade da adopção de me-
didas imediatas, que permitam a conservação dos arquivos e registos audiovisuais no mundo inteiro, relembrando que estes são importantíssimos para a construção integral da identidade cultural das nações.

Produto audiovisual

A ciência considera Produto Áudio-visual a designação genérica para qualquer produto de comunicação (artístico, cultural, educativo, técnico, informativo, publicitário, etc.), formado por imagens com impressão de movimento acompanhadas de som sincronizado.

A definição de produto audiovisual inclui filmes exibidos em cinema, programas de televisão (aberta ou fechada), vídeos distribuídos em VHS ou DVD ou exibidos em salas especiais, programas transmitidos por telefonia móvel, vídeos disponibilizados na Internet, sejam ficcionais ou documentários, de animação ou acção, comerciais, institucionais, educativos, musicais, etc.

Apesar da tradição de considerar em separado os fenómenos ligados a cinema e televisão – como se uns fizessem parte apenas do campo das artes e outros do campo da comunicação -, nas últimas décadas, cresce a presença de estudos conjuntos e interdisciplinares do novo campo do audiovisual, tanto na área da formação universitária  e da teoria crítica quanto da produção profissional e da legislação.

De acordo ainda com documentos, os produtos áudio-visuais podem ser classificados de acordo com a sua tecnologia, veículo, estrutura, duração, género, etc.
Tradicionalmente, considera-se que produto áudio-visual cinematográfico (ou simplesmente filme) é aquele cujas imagens são produzidas a partir de tecnologia fotoquímica, ou seja, em suporte filme, a partir do fenómeno da foto-sensibilidade dos sais de prata.

Em contraposição, produto audiovisual videográfico (ou vídeo-fonográfico) ou simplesmente vídeo, seria aquele cujas imagens são produzidas em tecnologia electromagnética, combinando a aplicação de uma série de fenómenos relativos a este campo da física, tais como o ferromagnetismo, o efeito fotoeléctrico, a modulação electromagnética, etc.

O desenvolvimento da tecnologia digital, a partir dos anos 1990, veio a confundir esta classificação. Em primeiro lugar, o tratamento digital dos sinais de vídeo criou uma nova tecnologia para geração de imagens, tão diferente da tecnologia electrónica tradicional (hoje conhecida como vídeo analógico) quanto da tecnologia química (e também analógica) do filme.

Além disso, tanto na indústria cinematográfica quanto na televisão, processos tradicionais foram sendo substituídos por processos digitais, de tal forma que, já ao final da primeira década do século XXI, há mais semelhanças do que diferenças nas tecnologias utilizadas por estas duas indústrias.

Veículo
Considerando veículo no sentido de canal de comunicação, ou “meio físico pelo qual a comunicação au-diovisual chega até o espectador”, os produtos áudio-visuais tradicionalmente se destinavam a dois principais veículos:
– produtos realizados para sala de cinema, normalmente identificados com a ideia de filme;
– produtos realizados para televisão, simplificadamente agrupados sob o título de programas de televisão, com todos os seus géneros e subgéneros.

Mas, desde os anos 1940, filmes “de cinema” são exibidos também na televisão, o que provocou uma série de discussões sobre a adequação entre produto audiovisual e veículo – questões relativas à proporção de tela (geralmente mais larga no cinema), aos tipos de planos e enquadramentos utilizados (planos muito abertos dificultam o visionamento em telas reduzidas), e mesmo à estrutura dos produtos (que na televisão precisam ser interrompidos para a exibição dos comerciais).

Nas últimas décadas, a diferença de tamanho entre as telas dos diferentes veículos tem sido reduzida, graças tanto à diminuição de capacidade das salas de cinema quanto à ampliação e melhoria de qualidade das telas de televisão, com o surgimento do “home theater”.

No entanto, sala de cinema e televisão permanecem veículos diferentes para a exibição de produtos audiovisuais – um público, de acesso geralmente pago, de visualização colectiva e ritualizada numa “sala escura”; o outro privado, de acesso gratuito, para visualização individual ou em grupo familiar, doméstico.

Além disso, novos veículos têm surgido, como salas especiais para exibição de vídeos, telas de televisão com programação especializada para espaços públicos e, mais recentemente, o visor móvel do telefone celular e a integração de todas as telas no computador conectado à internet. (Jornal de Angola)

Por: Osvaldo Gonçalves

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