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As “Kuribekas” angolanas. Maçonaria em Angola! Quem Diria…

No ano de 1872, a Maçonaria instalou-se em Angola, primeiro em Luanda e logo a seguir na vila da Catumbela. Pouco tempo depois esta loja maçónica transferiu-se para Benguela onde fez obra de grande vulto.

A militância nos ideais republicanos, assim como a promoção de uma imprensa de brancos radicais, foram utilizados por uma burguesia angolana branca e maioritariamente mestiça, principalmente de Benguela, Catumbela, Huíla e Moçâmedes, que se via cerceada por condicionalismos de toda a ordem que a impediam de se expandir, e desenvolveu um conjunto de protestos e reivindicações económicas suportado pelas lojas maçónicas ali existentes, tradicionalmente identificadas como uma organização secreta denominada pelo termo ovibundu, «Kuribekas», o que só por si já representa um elemento de diferenciação e de autonomia em relação a Portugal, (Kuribeka significa “apresentar-se”; oferecer-se”; vir sem ser chamado ).

Era um importante grupo de poder como instituição organizada, cujas ideias  tomaram corpo sobretudo após a independência do Brasil (1822), pelo menos desde 1860, manifestando-se contra Portugal, com o objectivo de obterem, primeiro a autonomia para o território e depois a independência, como atestam os vários documentos históricos, embora a História de Angola pareça por vezes  ignorar, preferindo alimentar olhar os brancos em Angola como agentes passivos do colonialismo. Passaremos a citar alguma movimentação que aconteceu em Angola e teve o dedo das Kuribekas angolanas:

 Em 1891 foi gorado um golpe militar em Benguela, devido à fragilidade da burguesia.
– Em Janeiro de 1906 foi criada na Catumbela a Associação Beneficente dos Empregados do Comércio, cujos membros pertenciam todos à loja maçónica local, assim como todos os membros que nesse mesmo ano fundaram a Associação Comercial de Benguela.

– Em Dezembro desse mesmo ano, em Catumbela, foi fundado o Grémio Pró-Pátria, loja maçónica de inspiração republicana e autonomista que perdurou até finais dos anos sessenta.

Benguela, e na altura o concelho da Catumbela, foram dos três municípios angolanos (o outro foi o de Novo Redondo), em que o Partido Republicano ganhou as eleições autárquicas em 1906.

– Em 1918/1920 houve um enorme e violento protesto organizado em Benguela, que incluiu o bloqueio de estradas, a destruição de pontes, e uma greve de trabalhadores que teve forte impacto na economia.

– A partir de 1923, as manifestações e protestos tornaram-se mais violentos, inclusive uma greve de trabalhadores do Caminho-de-Ferro no Lobito teve de ser dominada por militares.

-Em 1926 outra greve de trabalhadores brancos paralisou a economia de todo o território.

-E nesse ano em Benguela foi criada a “Confederação Brasílica”com o objectivo de conseguir a independência de Angola no quadro de uma relação federal com o Brasil, independente em 1922.  Como resultado disso, nasceu em Benguela a UDA,  União dos Defensores de Angola. com filial na Catumbela. Toda essa movimentação de revolta aberta contra o domínio português, tinha por detrás a Maçonaria, e só foi debelada depois da ocupação da cidade por três companhias militares de infantaria enviadas de Portugal. (1)

–  Com a Revolução de 28 de Maio de 1926  em Portugal, a liderança do regime passa para o General Óscar Carmona (Maçon) que é eleito Presidente da República em Abril de 1928.

-Até 1929 a Maçonaria teve plena liberdade de acção, embora se começasse a sentir, gradualmente, o emergir de um conservadorismo apoiado pela Igreja Católica, adversária da Maçonaria e dos princípios defendidos pelos franco-maçons.

– Em 19 de Janeiro de 1935, na recém-inaugurada Assembleia Nacional, o deputado José Cabral apresenta um projecto de lei proibindo todos os cidadãos portugueses de fazerem parte de associações secretas, sob pena de aplicação de penas várias que vão da pena de prisão ao desterro. O projecto embora não o especifique dirige-se contra a Maçonaria, e é objecto do protesto do General Norton de Matos,  (2) Grão-mestre  maçon  convidando a Assembleia da República a não aprovar o projecto. O projecto de lei recebe parecer favorável da Câmara Corporativa em 27 de Março é votado favoravelmente e por unanimidade em 6 de Abril e a Ordem é banida (Lei nº 1901, de 21 de Maio de 1935”Em 21 de Janeiro de 1937 é dissolvido formalmente o Grémio Lusitano.

Foram as instituições económicas mais importantes que em todo o período colonial tomaram posições polémicas em momentos cruciais da vida política angolana.

Segundo o  historiador Oliveira Marques: “A Maçonaria de qualquer país acha-se organizada como um Estado dentro do Estado. Tem a sua Constituição, a sua lei penal, o seu código de costumes, as suas finanças, a sua lei internacional até” Note-se que  a Maçonaria faz parte da estrutura interna dos Estados modernos. Especificamente quanto a Portugal, escreve o mesmo Oliveira Marques: “Estudar a Maçonaria do nosso país é o mesmo que estudar a História de Portugal, pelo menos a partir de 1817”. Muitos países foram, aliás, fundados por Maçons. O caso mais flagrante é o dos EUA.

(1) Segundo o historiador René Pélissier,  de grande importância a corrente autonomista branca que terá assumido laivos de separatismo nos finais da 1ª República, quando a actividade  económica esteve semi-paralisada e a crise financeira atingiu o ponto mais alto. Aliás, foi um grupo de elementos da UDA que deixou bem claro ao presidente Carmona quando da sua vista, em 1938 : “Angola não pode continuaa seuma quinta de luxo, gerida à distânciaa bel-prazede quedesconhece as suaansiedades”

(2)  Norton de Matos
,  republicano, maçon, tentou em Angola um calendário inovador, ainda que em muitos aspectos se visse cerceados seus irmãos ele promoveu a instrução, com a fundação do primeiro liceu em Luanda, a abertura de escolas primárias; a construção de milhares de quilómetros de estrada; a criação de uma instituição de assistência social para indígenas, um trabalho reconhecido pelos democratas, razão pela qual o apoiaram na candidatura à presidência da República. Mas todos estes avanços foram considerados subversivos para a ditadura que veio a seguir, e que pugnava pela ignorância do povo, como suporte da sua sobrevivência. O catecismo da liberdade, igualdade e fraternidade entrava em luta com o flagelo da época em África, uma escravatura que já não tinha este nome mas que mantinha em servidão os trabalhadores. Na iniciação maçónica, Norton de Matos jurara combater a escravatura, por isso essa seria uma das suas prioridades em Angola. E um dos meios de combater seja que flagelo for  era para Norton  a instrução, não só importante para que os nativos pudessem um dia gerir a sua própria independência, como também  para se aprender a vencer os escolhos dos textos escritos em tempos de censura.

Ainda relacionado com as actividades das «Lojas maçónicas no sul de Angola»,  no período de transição da 1ª República para o Estado Novo, e a título de curiosidade, transcreve-se parte de dois textos encontrados na Net, e devidamente identificados quanto à origem,  com algum interesse para esta temática:

«…A portaria de 25 de Janeiro atribuiu a cada uma delas as verbas indispensáveis para o seu funcionamento, nove contos para a de Luanda, quatro contos e meio para a de Lobito e igual quantia para a de Moçâmedes — o que perfazia a soma de dezoito mil angolares, na linguagem do tempo, relativa à moeda em circulação neste território.  Apesar de se não referir directamente aos problemas escolares ou educativos, não deixaremos de registar, como curiosidade histórica, que no dia 3 de Janeiro de 1938 foi dada aplicação em Angola ao disposto no decreto de 23 de Abril de 1937, que mandava dissolver os organismos, de qualquer espécie, com denominação que pudesse confundir-se com a de organismos corporativos, e que não tivessem modificado a sua designação. Portugal era então, oficialmente, um “Estado Corporativo”. Recordaremos que as doutrinas corporativas estavam então em voga, sendo aceites em quase todo o mundo. Podemos chegar à conclusão de que esta mentalidade chegou a estar mais difundida do que hoje nos querem fazer acreditar, sendo adoptada por indivíduos das mais diversas tendências. Foram abrangidos por aquela determinação as seguintes instituições:
— Grémio Pátria Integral, de Luanda, criado em 25 de Maio de 1915;
— Grémio Salvador Correia, de Luanda, fundado em 30 de Junho de 1924;
 Grémio Camabatela, na povoação deste nome, ali organizado em 7 de Outubro de 1929;
— Grémio Paz e Trabalho, de Malanje, instituído em 17 de Janeiro de 1925;
— Grémio Paulo Dias de Novais, de Malanje, criado a 16 de Abril de 1925;
— Grémio Lusitânia, de Benguela, organizado em 23 de Novembro de 1910;
— Grémio Recreativo de Seles, de Vila Nova de Seles, criado em 25 de Novembro de 1929;
— Grémio Pátria Nova, de Silva Porto (Belmonte), instituído em 18 de Janeiro de 1912;
 Grémio Pátria Livre, de Moçâmedes, fundado em 13 de Abril de 1926.
… »

OS JORNAIS DE COMBATE

A Maçonaria também teve os seus jornais de combate. O mais importante de todos foi A Defeza de Angola (1903), um bi-semanário, servido por jornalistas profissionais que se deslocaram de Portugal para Luanda. O jornal tinha tipografia própria de grande qualidade, comprada por subscrição pública. O comerciante Farinha Leitão foi um dos que mais se destacou na criação de condições para o apetrechamento gráfico do jornal.

A lista dos periódicos (1)

Em Luanda: Boletim do Governo Geral da Província de Angola (1845), Almanak Statistico da Província d’Angola e suas Dependências (1852), A Aurora (1856), A Civilização da África Portuguesa (1866), O Commercio de Loanda (1867), O Mercantil (1870), Almanach Popular (1872), O Cruzeiro do Sul (1873), O Meteoro (1873), Correspondência de Angola (1875), Jornal de Loanda (1878), Noticiário de Angola (1880), Boletim da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Geographico-africanos de Loanda (1881), Gazeta de Angola (1881), O Echo de Angola (1881), A Verdade (1882), O Futuro d’Angola (1882), A União Africo-Portugueza (1882), O Ultramar (1882), O Pharol do Povo (1883), O Raio (1884), O Bisnagas (1884), O Arauto dos Concelhos (1886), A Tesourinha (1886), O Serão (1886), O Rei Guilherme (1886), O Progresso d’Angola (1887), O Exército Ultramarino (1887), O Imparcial (1888), O Foguete (1888), Mukuarimi (1888), Arauto Africano (1889), Nuen’exi (1889), O Desastre (1889), Correio de Loanda (1890), O Chicote (1890), O Polícia Africano (1890), Os Concelhos de Leste (1891), Notícias de Angola (1891), Commercio d’Angola, 1892, A Província (1893), O Imparcial (1894), o Independente (1894), Bofetadas (1894), Propaganda Colonial (1896), O Santelmo (1896), Revista de Loanda (1896), Propaganda Angolense (1897), A Folha de Loanda (1899).
Em Benguela: O Progresso (1870) e A Semana (1893).
Em Moçâmedes (Namibe): Jornal de Mossamedes (1881), Almanach de Mossamedes (1884), O Sul d’Angola (1892), A Tesoura (1892), A Tesourinha (1892) e A Bofetada (1893).
Na Catumbela: A Ventosa (1886).
No Ambriz: A Africana (1893).
Angola, no século XIX, tinha 59 jornais. Em Luanda foram editados 49, seis em Moçâmedes (Namibe), dois em Benguela e um no Ambriz .
…»
(1) In pioneiros do jornalismo em Angola 

Até 1961, os africanos não possuiam um estatuto de cidadão pleno, nasciam com o estatuto de indígena, e como tal para viajar pelo território deviam ser portadores de uma autorização do administrador, pois corriam o risco de serem interceptados, ainda que na maioria dos casos a lei não passasse do papel. Após 1961 já podiam ascender ao estatuto de “assimilado” caso soubessem falar correctamente o português, ler e escrever e ter uma vida à europeia, o mesmo será dizer um casamento monogâmico e uma família organizada. Com estas imposições, em 1960,  pouco mais de 50 000 tinham conseguido adquirir o estatuto de assimilado. O indiginato acabaria abruptamente, em 1961, por força das mudanças ocorridas na lei em virtude dos levantamentos no norte de Angola.

Não obstante,  convém lembrar que no fim do século XIX, e princípios do século XX, os luandenses e os benguelenses estiveram perto de atingir esse estatuto, especialmente à época da implantação da República em Portugal, em 1910, talvez por inspiração dos ideais libertários dos maçons (românticos). Algo fugaz desde logo cerceado pela oligarquia colonial, residente em Lisboa. Retenha-se que nesta altura ainda não havia uma colonização propriamente dita, estabelecida e estruturada na base de um conjunto de famílias portuguesas.

A burguesia angolana era, fundamentalmente mestiça, incluindo uns muito poucos brancos e negros. Era africana ou de raiz africana. Também por esta altura as fronteiras de Angola ainda não estavam definidas. Mas toda a pretensão da mesma em ascender ao poder foi por água abaixo com o povoamento maciço de europeus a partir de 1920, (1) e mais tarde com o golpe militar do 28 de Maio de 1926 e o advento da ditadura em Portugal. que via no Darwinismo Social a base do imperialismo.

Foi pois, repetimos em Luanda e em Benguela que floresceram as únicas burguesias africanas em toda a África,no período de 1860 até 1920. Não seria por acaso que Luanda e Benguela fossem as duas cidades que resistiram à onda de destruições que caracterizou a independência, em 1975. E que os militares portugueses tenham favorecido estas burguesias africanas mais próximas dos portugueses aos outros africanos.   Rosa Coutinho explica a preferência porque acha que “eles escrevem poesia em português e gostam de bacalhau”.

Em conclusão, a verdade é que o sistema politico português tal como estava estruturado para os povos das colónias não poderia originar populações politizadas, cidadãos com consciência para votarem em referendos ou eleições. Nem brancos e muito menos negros, a maioria dos quais eram analfabetos dispersos pelo interior do território, e até ainda organizados em vida tribal com suas leis próprias, seus usos e costumes impenetráveis a toda e qualquer mudança.

Em consequência dessa falta de cidadania e dessa ignorância quase total nos mais diversos sectores da vida pública, os africanos eram presa fácil para propagandas oportunistas, e interesses inconfessáveis. Apenas uma minoria conseguiu ir mais além e de entre essa minoria contavam-se antigos estudantes  que se revelaram na hora da independência. (Arque Senas)

MAÇONS ANGOLANOS

André Franco de Sousa passou ao Oriente Eterno em 17 de agosto de 2010.
Foi um dirigente nacionalista angolano, nos anos 50 do século passado, e um dos fundadores do MPLA.Foi um dos envolvidos no “processo dos 50” e esteve preso no Tarrafal. Depois do 25 de Abril, com Aurora Verdades, fundou um partido político, que não vingou. Depois do Acordo do Alvor, assinado entre Portugal e os três movimentos de libertação reconhecidos, tomou posse o Governo de Transição e André Franco de Sousa partiu para Portugal.
(Foto: D.R.)

Aqui escreveu e publicou, em 1998, o livro “Angola, o Apertado Caminho da Dignidade” onde explicou as razões pelas quais era um opositor ao partido que fundou, o MPLA.

Foi um dos fundadores da Mestre Affonso Domingues. Ainda me recordo de com ele ter estado em várias reuniões de Loja. Depois, fundou outra Loja, para onde se transferiu, e raramente o passei a ver, normalmente em assembleias de Grande Loja.
Conheci-o já idoso. Manteve sempre o seu apreço pela Democracia, que o levara a cortar com a organização que fundara. Dele guardo uma imagem de completa serenidade e enorme simpatia.
Contou-se, embora brevemente, entre os obreiros da Mestre Affonso Domingues. Foi um dos nossos e como um dos nossos é aqui recordado. Foi um dos veteranos que criaram as condições para a Loja ser o que ela é. Estamos-lhe gratos pelo seu contributo.
Há já alguns anos que a doença o afastara do nosso convívio e o André se encaminhava para o nicho das recordações. Das boas recordações. Agora ali encontrou, em definitivo, o seu lugar.
Por: Rui Bandeira

 

 

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