Opinião

O espírito olímpico nas ruas da amargura

Num texto datado de 1935, sob o título “Os Fundamentos Filosóficos do Olimpismo Moderno” Coubertin discorreu acerca daquilo que entendia por espírito olímpico.

Para ele, o espírito olímpico ultrapassava as performances própria dos atletas na medida em que a luta entre rivais valentes e enérgicos, num esforço pelo esforço da competição cortês mas também violenta, devia estar envolvida numa atitude cavalheiresca, quer dizer, justa, nobre e leal.
E, assim acontecia, na medida em que, na perspetiva da cultura agonística dos gregos antigos, da luta entre rivais valorosos quando esgrimiam diferentes pontos de vista, ideias opostas ou objetivos contrários, não devia decorrer o ódio e, muito menos, a vingança fria e calculista da usura do poder mas, através do contraditório dos argumentos, a renovação das forças vitais de cada um dos antagonistas em honra da pólis e dos deuses do Olimpo.

Se existe actividade humana em que a luta deve ser justa, nobre e leal é, certamente, aquela que se processa no decorrer dos confrontos desportivos. Mas, não só, porque a competição também deve ser justa, nobre e leal quando se está no domínio da gestão político-administrativa das mais diversas organizações desportivas, quer elas sejam públicas, quer privadas, com ou sem fins lucrativos.

A liderança pelo exemplo é de fundamental importância em qualquer processo de relações humanas. Não existe nada pior do que ver um dirigente desportivo a exigir aos atletas aquilo que, em termos relativos, não exige a si próprio. Por exemplo, como é que um dirigente desportivo pode exigir um comportamento justo, nobre e leal aos atletas, aos técnicos e, até, aos dirigentes que dele dependem quando, ele próprio, não o pratica?
Com que moral um dirigente desportivo pode cortar a bolsa a um atleta por não ter atingido os objetivos quando, ele próprio, ficou muito longe de atingir os objetivos a que se comprometeu? Qual é a credibilidade dos dirigentes que impõem soluções técnico-políticas quando, sistematicamente, se recusam a coloca-las em confronto com outras opiniões?

Se o resultado da competição entre atletas, através de um processo competitivo justo, nobre e leal é apurado em cada evento desportivo, porque é que, no que diz respeito ao dirigismo, a sua performance não é apurada tendo em atenção as ideias e projetos que, num contraditório justo, nobre e leal, os opositores tiveram de cruzar entre si ao confrontarem no período eleitoral os planos estratégicos que se propõem desenvolver no horizonte temporal em questão.

O problema é que, cada vez com mais frequência, a gestão das organizações desportivas que deviam ser um exemplo do espírito olímpico em busca das melhores soluções cada vez mais estão transformados em processos onde predomina a lógica corporativa da moral de rebanho em que a vivência democrática já nem sequer está condignamente assegurada nos procedimentos eleitorais desde logo porque, via de regra, deixaram de existir listas opositoras porque os estatutos que regem as eleições colocam as maiores dificuldades ao seu surgimento.

Quer dizer, estão cada vez mais a acontecer eleições fechadas, realizadas com lista única, em arranjos de interesses, com comissões eleitorais sem qualquer credibilidade e estatutos completamente à margem dos mais elementares princípios democráticos. E quando existem listas de opositores, estas não têm a mínima hipóteses de confrontar as suas ideias e propostas numa competição, justa, nobre e leal com a designada lista “institucional” formada exclusivamente para manter um “status quo” que privilegia a lógica de rebanho que, cada vez mais, está a caracterizar os sistemas desportivos nos mais diversos países do mundo.

Em consequência, depois de eleitos, estes líderes, como nunca se comprometeram com nada nem com ninguém, à margem do mínimo controlo social, fazem o que muito bem entendem. E aquilo que devia ser um projeto partilhado de transformação social acaba num projeto pessoal ao estilo do quero, posso e mando do “magister dixit” realizado à custa do dinheiro dos contribuintes. Repare-se a tragédia que é o legado dos Jogos do Rio de Janeiro.

Depois de tomarmos conhecimento do estado deplorável em que se encontram muitas das instalações olímpicas no Rio de Janeiro, na reunião do conselho executivo do COI, realizada em Julho de 2017, o Comité Organizador dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016) solicitou ao COI uma ajuda a fim de liquidar os US $ 28 milhões em dívida. Contudo, o COI, apesar de ter recebido US $ 4 biliões de direitos de TV recusou-se a prestar tal ajuda.
Quer dizer que, se Arthur Nuzman enquanto presidente do Comité Organizador dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro primou pela mais genuína incompetência já Thomas Bach enquanto Presidente do Comité Olímpico Internacional primou pela mais profunda hipocrisia relativamente ao tão apregoado legado olímpico.

Hoje, salvo as devidas exceções, nos mais diversos países do mundo, o desporto está nas mãos de dirigentes que não são responsabilizados pelas estuporadas decisões que tomam. Chega-se mesmo ao ponto de verificar que, após cada Ciclo Olímpico, quanto piores são os resultados, mais eles, sustentados na mentalidade de rebanho que tomou conta do desporto, à margem de qualquer controlo social minimamente credível, mantêm-se agarrados ao poder a prepararem o próximo desastre.

Infelizmente, não se pode dizer que, do Ciclo Olímpico do Rio De Janeiro (2016), com todos os acontecimentos que dele decorreram, as forças vitais que devem animar o Movimento Olímpico nos mais diversos países do mundo, em honra da pólis e dos deuses do Olimpo, tenham saído reforçadas. Antes pelo contrário. O medo tomou conta do ambiente pelo que é de fundamental importância, no melhor dos espíritos olímpicos, calar a voz daqueles que, em cada país, ousam dizer que o querido líder vai nu. Na realidade, o espírito olímpico anda pelas ruas da amargura. (ABOLA)

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