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A universidade e o desenvolvimento

Na manhã de sábado passado, José Octávio Serra Van-Dúnem convidou-me para ir ouvir a oração de sapiência, que proferiu, no início do ano académico da Universidade Católica de Angola (UCAN), no seu “campus” no bairro Palanca.

Antes do acto académico houve uma “Celebração Eucarística” presidida pelo Bispo do Uíge, Dom Joaquim Nhanganga Tyombe e abrilhantada pelo excelente coro da UCAN: o ambiente de paz e tranquilidade rimava com as temperaturas amenas, nas primeiras horas do dia.

Um grupo significativo de estudantes, – entre os quais os caloiros -, os decanos das diferentes faculdades e os responsáveis das diferentes unidades orgânicas e educativas, bem como a magnífica reitora interina, Maria Helena Miguel, participaram na cerimónia religiosa, que serviu de antecâmara ao acto académico.

Tudo estava a postos para, na manhã de sábado passado, aquela ida ao “Campus Palanca” da UCAN, em Luanda, reforçar a minha natural adoração pelos “Campus Universitários”: quando, ao longo da minha vida como estudante, frequentei alguns deles, tive experiências maravilhosas, eles costumam a  ser o lugar ideal para o recolhimento e atitude reflexiva, uma interacção intelectual com os nossos pares, colegas ou amigos, que marcam as nossas vidas.

“Universidade e Desenvolvimento: novos desafios, velhos problemas”, o tema escolhido para a sua oração de sapiência é bastante actual e oportuno. Com a presença inspiradora da sua mãe, com noventa anos de idade, na sala, José Octávio Serra Van-Dúnem começou, naquela que identifiquei como a primeira parte, lendo o texto da prelecção num tom clássico, desgranando sobre a utilidade da universidade face aos processos de descolonização e ao canône ocidental, sobre os modelos de universidades, sobre a autonomia e a liberdade académica, sobre a democraticidade do meio universitário.

Mas, onde me pareceu mais incisivo, foi quando, na segunda parte, de um modo subtil e serenamente construtivo, o orador optou por um tom mais coloquial em que num modo de retórica, em que se foi auto-questionando e respondendo, de modo pertinente, sobre as funções da universidade no mundo de hoje e a necessidade de reinventá-las constantemente bem como, por exemplo, sobre a importância dela não se circunscrever somente ao primeiro ciclo e alargar o seu labor a níveis de Mestrado e de Doutoramento, a melhorar a qualidade do ensino híbrido bem como a fortalecer a relação entre a universidade e o mundo empresarial.

José Octávio Serra Van-Dúnem falou também sobre a necessidade de criação de pensamento crítico e da valorização da inteligência competitiva no mundo universitário, sobre a importância da investigação e da inovação no contexto da criação de centros de pesquisa e de excelência.

Frontal e nada evasivo, ele não se esqueceu de falar, também, sobre a importância e os limites institucionais da universidade face aos órgãos de tutela, no caso o Ministério do Ensino Superior e, finalmente, sobre a importância e a urgência de fortalecer o papel das universidades e de repensá-las, numa perspectiva descomplexada em face da necessidade de se pensar de modo coerente o tipo de profissional qualificado ideal para o país e o seu desenvolvimento.

Depois de anos de investimentos em infra-estruturas no Ensino Superior público e privado, em Angola, e da sua problemática massificação e expansão, em todo o território nacional, unido a consciencialização de que, por si só, ele resolve muitos dos problemas básicos, mas não necessariamente o problema de fundo, é notório um maior interesse do Estado e de todos actores sociais que intervém no processo, incluindo os docentes e os discentes, para pensarem e para trabalharem para a mudança de paradigma.

O foco do interesse, das narrativas e dos projectos do Ensino Superior, em Angola, de um tempo a esta parte, começou a transferir-se da infra-estrutura e dos equipamentos para o investimento na qualidade do capital humano, na investigação científica e na sua inter-relação com o mercado de trabalho e a criação de emprego, entre outros, que, hoje, constitui um dos principais desafios para o Governo e, de um modo geral, para a criação e consolidação de uma cidadania responsável e fortalecida.

Na manhã de sábado passado, ao desfrutar do coro e ouvir, também, as mensagens e discursos dos responsáveis da Associação de Estudantes da Universidade Católica de Angola, da Alumni, da magnífica reitora interina Maria Helena Miguel, incluindo a dedicatória da oração de sapiência de José Octávio Serra Van-Dúnem à mãe, saí de lá inspirado: é, por isso, que é sempre gratificante regressar a um campus universitário. (Jornal de Angola)

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