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Último adeus a Jorge Sampaio, um homem bom que reuniu consensos

“Para Jorge Sampaio Portugal nunca foi uma abstração, uma fortaleza fechada egoísta e distante”, disse Marcelo Rebelo de Sousa. O dia da despedida de Jorge Sampaio começou com a urna a ser levada para o exterior do antigo Museu dos Coches por Cadetes das Forças Armadas e colocada no hipomóvel. Volvidos treze minutos, iniciou-se o cortejo fúnebre em hipomóvel, escoltado pela Guarda de Honra da Guarda Nacional Republicana a cavalo.

O cortejo parou junto à entrada do Palácio de Belém – onde recebeu aplausos e ouviu-se o hino por volta das 10h25 – e, posteriormente, seguiu para o Mosteiro dos Jerónimos, trilhando o caminho pela faixa com a linha do elétrico até junto da entrada do Museu de Marinha, onde inverteu a marcha passando para a via mais próxima do Mosteiro.

Às 10h30, já no Mosteiro, a urna, coberta pela Bandeira Nacional, foi retirada do hipomóvel por Cadetes das Forças Armadas e recebeu honras de Estado pelo Batalhão com banda e fanfarra da Guarda Nacional Republicana, tendo sido tocada a marcha fúnebre em honra daquele que exerceu o cargo de Presidente da República entre 1996 e 2006.

Uma breve passagem da urna na Praça do Comércio, em Lisboa. (Foto: D.R.)

Dezoito minutos depois, a urna entrou nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos e, pelas 10h54, ouviu-se novamente o hino nacional que, desta vez, abriu a cerimónia de homenagem no interior dos Jerónimos.

Presidente Marcelo Rebelo de Sousa endereçando as suas condolências à família de Jorge Sampaio
(Foto: D.R.)

Nos minutos seguintes, foram recordados momentos da vida política de Jorge Sampaio, tendo sido ouvido um excerto do Discurso da Tomada de Posse como Presidente da República, na Assembleia da República, em 9 de Março de 1996, a intervenção na CNN sobre Timor-Leste, em 10 de dezembro de 1996, considerada essencial para a independência e uma mensagem de Timor-Leste.

Os Presidentes, da República, da Assembleia da República e o Primeiro Ministro, respectivamente, Marcelo Rebelo de Sousa, Ferro Rodrigues e António Costa
(Foto: D.R.)

A sessão prosseguiu com mensagens do ex-primeiro-ministro de Timor-Leste Mari Alkatiri e do ex-Presidente da República José Ramos Horta, sendo que foi transmitido um momento musical, gravado ontem, pelo coro da escola portuguesa de Díli que interpretou “Ai Timor” dos Trovante.

Pelas 11h02, ocorreu a intervenção de Vera e André Sampaio, os filhos de Jorge Sampaio, que homenagearam o pai destacando a autenticidade, o amor à liberdade, verdade, responsabilidade e exemplo. Vera Sampaio acrescentou que o pai “partilhava lágrimas como quem partilha um abraço”.

Aproximadamente pelas 11h15, o primeiro-ministro começou a sua intervenção. “Prestamos tributo à memória de um cidadão exemplar e um português de exceção”, declarou, elogiando tanto as qualidades pessoais de Jorge Sampaio, como as políticas e também as lutas sociais que travou e às quais se dedicou.

Descrevendo-o como um político “ultra-exigente consigo próprio”, “firme e flexível”, assim como “um homem de causas e valores”, António Costa enalteceu a sua ação no combate à toxicodependência, que colocou Portugal como referência mundial e que “salvou milhares de vidas”.

A nível internacional, Timor foi um dos temas destacados tal como havia acontecido momentos antes. “Jorge Sampaio foi tudo o que fez. Um exemplo de rigor ético, de sobriedade e honradez pessoal, de simpatia e empatia, de proximidade às pessoas. Entregamos o legado e o exemplo ao futuro”, rematou.

Museu dos Coches em Lisboa (Foto: D.R.)

De seguida, foi a vez de Eduardo Ferro Rodrigues falar. Pelas 11h30, o presidente da Assembleia da República lembrou que Sampaio era um homem de grande saber, cultura e generosidade. Logo de seguida, frisou “a figura ímpar de Jorge Sampaio” e o “legado extraordinário” que deixou. “Uma dor que sinto pelo amigo de longa data que perdi”, disse, adicionando: “É também um momento para lembrar quão afortunado foi Portugal por ter tido em Jorge Sampaio um dos seus cidadãos mais ilustres”.

Descrevendo o antigo Presidente da República como uma “referência política do Portugal democrático”, afirmou que “Jorge Sampaio teve uma intervenção cívica ativa e desempenhou vários cargos.

O último adeus dos admiradores do político em Lisboa
(Foto: D.R.)

Em todos eles imprimiu a marca dos seus valores humanistas, uma visão progressista e um forte dever cívico”. “Serviu como poucos causas justas e a causa pública, antes e depois do 25 de abril, com convicção, combatividade, integridade e enorme generosidade”, explicou.

“Prestigiou todos os cargos que exerceu, tendo sabido levar a palavra pública e a sintonia que conseguiu alimentar com o povo português”, reparou Ferro Rodrigues, evidenciando também a “forma como soube impulsionar uma nova centralidade nas políticas públicas”.

“Pela forma íntegra e empenhada onde exerceu todas essas funções, colheu um devido respeito e admiração, dentro e além fronteiras. Jorge Sampaio era uma pessoa de grande saber, cultura, inteligência e generosidade. Alguém que escolheu colocar as suas qualidades ao serviço de causas”, esclareceu.

“O exemplo de Jorge Sampaio lembra-nos a importância não só de perfilharmos ideias novas e justas, mas da relevância de intervirmos para melhorar o mundo em que vivemos. Felizmente, Jorge Sampaio, soube fazê-lo, mantendo até ao fim dos seus dias uma constante intervenção político-cultural”.

Por fim, Ferro Rodrigues pediu que se recorde “o grande advogado, o grande político, o enorme ser humano e um dos melhores servidores da causa pública da sua geração”. “E também um amigo. Na política, também se fazem amigos e Jorge Sampaio teve muitos e grandes amigos na política”. “Obrigado, Jorge Sampaio”, terminou.

Pelas 11h44, teve início a última intervenção, a de Marcelo Rebelo de Sousa. Referindo-se a Jorge Sampaio como sendo um entre “alguns dos nossos maiores”, mencionou “o humanismo fundado numa ética de compaixão de partilha e de serviço”, recordando, particularmente, o trabalho na erradicação das barracas em Lisboa “do homem dos sem tecto a quem ajudou a dar tecto” que não se coibiu de “sujar as mãos de intelectual nas obras que se fazem nas casas, ruas, cidades”.

Assumindo que Sampaio mostrava fragilidade, disse que “fez dessa fragilidade sua, nossa, de todos nós força sua, nossa, de todos nós”. “Nunca quis ser herói, mas foi”, disse, identificando no político “um heroísmo discreto”. “Para Jorge Sampaio Portugal nunca foi uma abstração, uma fortaleza fechada egoísta e distante”.

Às 11h55, a cerimónia fúnebre de Jorge Sampaio chegou ao fim, sendo que o término estava previsto para mais tarde. A urna foi levada por cadetes, coberta com a Bandeira Nacional e as insígnias foram transportadas por Oficiais Superiores.

Atrás, seguiram a família do antigo Presidente da República, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente da Assembleia da República e Primeiro-Ministro.

Fora do Mosteiro, várias pessoas, que puderam assistir à cerimónia através de um ecrã gigante, aplaudiram. Momentos depois, a família fez um compasso de espera no momento em que a urna entrou no carro funerário. A mulher e filhos de Sampaio também entraram num carro, tendo seguido para o cemitério.

Às 12h02, começou o cortejo para o cemitério do Alto de São João cujo percurso será: Avenida da Índia, Avenida 24 de julho, Avenida da Ribeira das Naus, Praça do Comércio, Avenida Infante D. Henrique, Avenida Mouzinho de Albuquerque, Praça Paiva Couceiro e Rua Morais Soares.

O mesmo é composto por batedores da PSP,  pela escolta motorizada da GNR, o carro funerário, outro carro com coroas de flores, um carro da GNR com as insígnias, a família de Sampaio, o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, o primeiro-ministro e a restante escolta de honra.

Cinco caças F-16 da Força Aérea Portuguesa sobrevoaram a Praça do Comércio, em Lisboa, no momento da passagem da urna e do cortejo fúnebre de Jorge Sampaio e, no cemitério, 165 militares dos três ramos das Forças Armadas aguardam a chegada do antigo líder. Alguns minutos depois, o cortejo fúnebre de Jorge Sampaio chegou ao cemitério do Alto de São João.

Entre a Praça Paiva Couceiro e o local da Guarda de Honra, perfilavam-se 57 militares dos três Ramos das Forças Armadas, provenientes de várias unidades de Marinha, do regimento de artilharia antiaérea de Queluz e do centro de formação militar e técnica da Força Aérea Portuguesa na Ota.

Por outro lado, à entrada do cemitério, a Guarda de Honra constituída por 165 militares dos três Ramos das Forças Armadas, mencionada anteriormente, teve como comandante da Força o capitão-de-fragata Silva Caldeira.

Após a retirada do carro funerário, a urna foi transportada por cadetes dos três ramos das Forças Armada, enquanto se ouviu uma marcha fúnebre e uma salva de pessoas que se encontravam junto ao cemitério. A seu lado, um pelotão de fuzileiros fez três descargas – tiros de salva – no momento da passagem da urna pela porta do cemitério.

Enquanto cinco fuzileiros dobravam a bandeira nacional que cobria a urna de Sampaio, ouviram-se 21 tiros de salva de artilharia, executados pelo Navio Patrulha Oceânico Sines fundeado no Tejo e comandado pela capitão-tenente Ester Pereira.

Após ter sido dobrada, a bandeira nacional foi entregue ao primeiro-tenente Geraldes Rodrigues da Marinha, que a entregou ao Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, Almirante António Silva Ribeiro, que a entregou depois ao Presidente da República. No final, Marcelo Rebelo de Sousa entregou a bandeira à mulher de Jorge Sampaio, Maria José Ritta.

Marcelo Rebelo Sousa, Ferro Rodrigues, António Costa, o ministro da Defesa e o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa cumprimentaram a mulher e os filhos de Sampaio e teve fim a cerimónia oficial, iniciando-se assim a cerminónia privada reservada à família. A urna do político que ficou conhecido por reunir consensos foi transportada por elementos da segurança pessoal do antigo Presidente da República. (SOL)

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