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CHICO MONTENEGRO (1952-2019): Golpe na música angolana

A morte do músico Chico Montenegro, no passado dia 12, foi um rude golpe no seio da Música Popular Urbana Angolana. Figura incontornável da banda Os Jovens do Prenda, deixou sucessos como “Teté”, “Gienda jia Luanda”, “Isabel” e outros

O músico Chico Montenegro nasceu Francisco Miguel António em 1952, algures no Bairro Novo, antigo Bairro Popular, actual Neves Bendinha, e depois se transferiu, ainda miúdo, com os pais, para o Bairro Prenda, onde fez toda a vida como homem e profissional da música. Iniciou-se nas lides musicais no coro da Igreja Metodista. Figura incontornável dos Jovens do Prenda, teve passagem pelo conjunto “Fapla Povo”.

Autor de sucessos como “Teté”, “Gienda jia Luanda” e “Isabel”, apenas para citar estes, Chico Montenegro, que faleceu no dia 12 deste mês, teve uma conversa connosco há alguns anos, onde se abriu e falou da sua vida e das suas ideias. Condensamos, a seguir, essa conversa.

Segundo Chico Montenegro, a sua inserção no meio musical começa antes do tempo dos conjuntos, num grupo carnavalesco que, com amigos, criou no Bairro Prenda. Posteriormente, com a inclusão de violas, formaram uma turma, os Kasolas do Prenda, de que faziam também parte Tony do Fumo, Cangongo, Verry Inácio e Muxinge, este que era deficiente visual e responsável pela dança. Estamos a falar do período entre 1960 e 1962. Os ensaios decorriam na casa do Muxinge, no Bairro da Kinanga.

Montenegro afirmou ainda que a sua vida sempre esteve ligada aos grupos. “Comecei a tocar caixa no grupo carnavalesco e depois nas turmas. Mas as coisas mudaram com a entrada do Zé Keno e do Gama, o viola baixo, elementos que antes faziam parte de um grupo musical do bairro Margoso, onde viviam.”

Montenegro e Verry Inácio, que faziam parte dos Jovens do Catambor, uniram-se ao Zé Keno, Gama e Sansão, núcleo que resultou, mais tarde, nos Jovens do Prenda. Cangongo e Tony do Fumo, que faziam parte do conjunto Estrelas da Maianga, acabariam por também entrar nos Jovitos. Cangongo tocava baixo. Verry Inácio tocava tambor e Chico Montenegro “um tambor mais pequeno”.

Montenegro revelou que, em 1972, apesar de pertencer aos Jovens do Prenda, trabalhava na Valentim de Carvalho como artista de estúdio, tendo chegado a participar em três discos de um grupo onde Carlitos Vieira Dias era o supervisor. É nesse período que grava “Jienda jia Luanda” com alguns integrantes dos Kiezos. Com Os Jovens do Prenda gravou, na altura com o selo Rebita, os temas “Bolero Jovem”, “Passagem do Rio” e outros. E mais tarde “Teté”.

Chico falou da interrupção da carreira em 1974, numa altura em que Os Jovens do Prenda observavam uma paragem e os seus integrantes foram para outros grupos. “Fui cumprir a vida militar. O Zé Keno foi para Os Merengues. Mais tarde foi para o conjunto Fapla Povo. O Verry Inácio, o Augusto e o Cangongo foram para uma banda da Polícia”, explicou.

Em 1982 Chico Montenegro reuniu-se com os elementos dos Jovens do Prenda, pois tinha contactos privilegiados com um empresário, Kandango, que pretendia relançar o conjunto.

Também tratado como homem sentimental, Montenegro afirmou que o seu percurso de vida e o cotidiano o inspiravam. Recordou uma passagem muito má, quando, aos 12 anos, o seu pai foi preso pela PIDE e acabaria por ficar 12 anos na cadeia de São Nicolau.

Este facto afectou-o muito e teve bastante influência na sua vida. Passou então a cantar lamentos, onde explicava o que se passava consigo. Aliás, desde os seus 15 anos começou a trabalhar numa marcenaria, para ganhar o sustento.

Não deixou de falar da suposta rivalidade entre Os Jovens do Prenda e os Kiezos do Marçal. Achando engraçado, disse que, na verdade, o que existia era um despique salutar na gravação de temas, nas actuações no Ngola Cine e noutros shows. “Fora disto éramos e seremos sempre amigos e colegas”, frisou, acrescentando que sentia que talvez os admiradores é que continuavam a alimentar a pretensa rivalidade.

Para Chico Montenegro, o Ngola Cine era uma espécie de tribunal dos artistas e grupos musicais. Como exemplo, disse, se passassem na “Aquarela Musical” ou num “Dia do Trabalhador”, tinham o aval para actuarem onde desejassem, caso contrário, “a carreira do músico entrava em baixa.”

Reconheceu que Luís Montez foi um grande impulsionador da música angolana, “era um branco que gostava muito da nossa cultura e que fez projectos interessantes, como é o caso dos Kutonoka.”Não deixou de falar do Conjunto Angola 70, que resultou da selecção de antigos músicos para apresentarem, ao vivo, as colectâneas de música angolana dos anos ‘60 e ’70, por iniciativa dos produtores Otaniel Silva, angolano, e Samy Redjeb, alemão.

Chico sentiu-se bem e achou que “eles foram corajosos”, reunindo um grupo de instrumentistas, muitos dos quais nunca haviam tocado juntos. “Foi interessante o facto deles optarem por uma sonoridade do antigamente. Nada de órgão ou bateria, apenas as guitarras, reco-reco e tambores. Também foram interessantes as digressões e os palcos por onde passámos.”

Chico Montenegro afirmou que o projecto “levou-os” ao início da carreira, quando tocavam nos salões com ngomas, dikanzas, violas de caixa com vibradores e usavam os amplificadores da aparelhagem dos discotequeiros. Com nostalgia, riu-se, porque, às vezes, tocavam dentro da sala do discotequeiro e as pessoas apenas os viam quando saíssem a transpirar e, então, diziam: “Olha, os gajos dos conjuntos são estes”.

“Era uma boa época da música angolana. Mesmo sendo roubados, não sentíamos isso, porque havia trabalho para todos. Hoje isto não acontece, os artistas têm que se virar. Se não tiveres êxito ou sucesso vives apenas da fama. Hoje, tirando o Kilamba, o Cantinho do Catete, o Weza Paradise e o Muximangola, restam aí umas festinhas de aniversário ou casamentos.”

Homem do Prenda, Chico Montenegro falou também de outros grupos, como os Dikanzas do Prenda, Os Prendas, Estrelas da Maianga, Corimba e Os Jovens da Maianga (com dois elementos que se juntariam aos Jovens do Prenda). “O Prenda é o bairro dos grandes solistas. Zé Keno, Constantino, Alberto…”

Ainda sobre o seu Prenda, falou dos salões Las Palmas, Bela Vista, 11 Bravos da Samba, Benfica da Gabela e Astros. E de outros bairros referenciou as passagens pelo Giro-Giro, Bom Jesus, Maxinde, Desportivo União São Paulo e Centro Social São Paulo.

Havia também o Kudissanga Kwa Makamba, Salão dos Anjos, Kebela, Barreirense da Barra do Dande, Sport do Rangel, 1808… E o Matouba, do Cazenga, salão onde Urbano de Castro parava. No Bairro Popular havia Os Perdidos e o Cine São João. No Golfe, o Kizomba. “Eram muitos salões e bem concorridos”, disse Chico Montenegro, com nostalgia.

Os momentos mais marcantes da sua carreira foram, numa primeira fase, o prémio de melhor grupo musical pela Rádio Club de Luanda, em 1968. Outro momento marcante foi o reaparecimento dos Jovens do Prenda, em

1982, por iniciativa do senhor Kandango, que, infelizmente, também já não está entre nós. O facto marcou a aposta deste homem, que recuperou o grupo do bairro, o que resultaria em grandes sucessos e actuações memoráveis dentro e fora do país. Marcou-lhe, também, o festival em Berlim, na Alemanha, onde foi gravado um LP ao vivo. “Pena que este disco não foi vendido cá. Fizemos uma digressão pela Europa do Leste, onde ficamos cerca de três meses… E, claro, a participação no Top dos Mais Queridos.”

A dado momento da entrevista, tornou-se incontornável pedir um esclarecimento sobre a existência, de um lado, dos Jovens do Prenda apenas com Zé Keno e Chico Montenegro, e do outro, dos Gloriosos do Prenda, que reunia as outras estrelas do conjunto

e, claro, o unificador Chico Montenegro. De forma inteligente, sugeriu que falassem com outras pessoas e condenou o facto de algumas pessoas dizerem coisas que não eram correctas. Na altura, já defendia que Os Gloriosos do Prenda não eram um conjunto estável, “porque existiam fãs dos Jovitos que não gostavam das novas versões das músicas, pediram que nos juntássemos e executássemos como antigamente.”

Reuniam-se para algumas actuações e, depois, individualmente, tinham as suas agendas. Justificou que Os Gloriosos não estavam para desestabilizar a nova geração dos Jovens do Prenda, uma vez que ele era o directoradjunto da nova geração, da qual o Zé Keno era o director. “O grupo apareceu apenas para tocar coisas antigas”,

disse. Outra revelação que fez é que, mesmo nos Gloriosos, havia instrumentistas da nova geração. “Não era um grupo fixo, montava-se e desmontava-se. Estavam aí para satisfazer os fãs.”

Falou da intenção de lançar um disco onde incluiria dois temas do irmão, Paulo Nove, e recuperaria algumas músicas do disco “Memórias”, fazendo a introdução da bateria, órgão e sopros, mas sempre mantendo a base. Pensava, ainda, trabalhar com alguns familiares, o Neto dos Kimbandas do Ritmo, o Carlitos Timóteo “Calili” e o Dulce Trindade. Gostaria de voltar a trabalhar com o Carlitos Vieira Dias e não abdicaria do Zé Mueleputo nos solos, e do Zé Luís na viola ritmo. E contava com a dikanza do amigo Didi da Mãe Preta e, claro, com os companheiros dos Jovens do Prenda.

TESTEMUNHOS

Calou-se a voz do bolero angolano

O nosso amigo e companheiroChico Montenegro, do nosso jovitos, que, com os seus bongôs, trazia outra sonoridade nas ketas. Dono de uma voz que se tornou referência com os seus boleiros numa matriz muito própria. Recordo o ano de 1972, quando, depois de receberem o galardão na Rádio Club de Angola se dirigiram aos 11 Bravos da Samba e aí fizeram uma apresentação fenomenal. Lembro dos ensaios ali no Batola, na companhia de Zé Keno, Sansão, Verry Inácio, Cagongo, Didi, Casimiro, entre outros, e nós, os miúdos do bairro, íamos ver com muito entusiasmo.

Chico, pessoa afável que nos momentos mais difíceis do conjunto soube manter o equilíbrio e, sobretudo, a serenidade. Me lembro também do dia em que eu e o actual director [provincial de Luanda] da Cultura Manuel Gonçalves nos sentamos contigo, o Didi e o Baião, numa altura em que alguns cépticos não acreditavam no ressurgimento dos Jovens do Prenda.

Quando nos reunimos tu, Chico, dissestes “Queremos um Jovens do Prenda onde todos nós, os kotas e os jovens, possamos estar todos juntos e andar de braços dados, porque um dia nós vamos e alguém tem de segurar o conjunto.” Chamaste-me em privado e dissestes “Maneco, Zé Keno está doente, mas falem com a Julinha, a sua filha.

Vá ter com o Yuri Simão até a casa dela e tratem tudo como deve ser feito”, porque, na verdade o objectivo era levar os Jovens do Prenda, na sua plenitude, ao Show do Mês. E assim fizemos Chico! Dissestes também que o Baião deveria liderar todo o processo para o bem de todos.

Quando menos contavam, os Jovitos apareceram em grande no Show do Mês, todos juntos, para a nossa felicidade, e o filho do Zé Keno lá esteve em representação do pai, como foi teu/vosso desejo para a homenagem feita. Era o grande momento da família Jovitos, todos reunidos, e daí para frente jamais parou. Fizeram dois memoráveis espectáculos que lhes valeu o prémio de Melhor Espectáculo do Ano, prémio esse atribuído pela Rádio Luanda.

Obrigado pelo teu valioso contributo para o bem da Cultura Angolana, sobretudo a Música Popular Urbana. Descanse em Paz, Meu Kota, meu Avilo.” (Maneco Vieira Dias, encenador, in facebook)

“Fazia a diferença e era espectacular”

Esteves Bento (percussionista e vocalista) – “Conheci Chico Montenegro em 2003, numa altura em que os Jovens do Prenda ensaiavam na Feira Ngoma, onde, durante cerca de seis ou sete anos, arrendaram o espaço. A partir dessa altura, e para minha felicidade, tornámo-nos amigos. Era uma pessoa de trato fácil, conselheira, dotada de uma simplicidade incrível. Apesar da grande diferença de idades ele nunca fez questão de colocar este factor como obstáculo. Eu entro nos Jovens do Prenda em 2006, a convite dele. Ele sempre foi o meu protector. Dava-me dicas nos andamentos dos Jovens do Prenda, dizendo “isto não é Semba, mas Merengue, aqui é Bolero”…  A área dele eram os bongôs, mas quem ditava e

As suas canções reflectiam a nostalgia e o amor ao próximo
(Foto: Edições Novembro)

conhecia o andamento das congas era ele. Foram muitos os momentos marcantes e é complicado descrever apenas um. Ele era alegre, contador de anedotas, ninguém ficava triste onde estava o Chico Montenegro.”

Augusto Chacaya (vocalista) – “É uma perda irreparável. O Chico foi meu colega e amigo, crescemos quase juntos, moramos no mesmo bairro. Já o encontrei nos Jovens do Prenda e, por sinal, ele era meu compadre. Ao longo deste tempo todo foi sempre uma pessoa calma, paciente, conselheira. Quando a doença começou, pensamos que era algo banal, ele ainda ia ensaiar. Neste momento estamos concentrados, mas é sempre importante conservar a obra dos que foram.”

João Daloba (baterista, percussionista e irmão) –“O desaparecimento do meu irmão abalou muito a família. Ainda não conseguimos digerir isto, estamos muito tristes. Chico Montenegro, muito mais que um irmao, foi um bom amigo e conselheiro. Daqui para a frente é continuar a elevar Os Jovens do Prenda.”

Kintino (viola-ritmo) –“Conheci a música de Chico Montenegro ainda miúdo, no Sambizanga, porque os membros dos Jovens do Prenda frequentavam a zona. Passo a ter um contacto forte com ele quando entro nos Jovens do Prenda, nos finais dos anos ‘80. Descrevo o Chico Montenegro como uma pessoa calma, humilde, conciliadora, nunca o vi chateado. Dentre os vários momentos que realço, um deles é o facto dele ter-me dado a responsabilidade de dirigir Os Jovens do Prenda. A sua calma está presente na sua música, assente nos boleros e nos lamentos, e também era um excelente tocador de bongôs. Devemos preservar o seu legado e dá-lo a conhecer a esta nova geração. A música angolana perdeu um grande homem.”

Carlos Timotéo Calili (baixo) –“Entro nos Jovens do Prenda em 1972, levado pelo Didi da Mãe Preta. A mulher do Chico, a Isabel que é cantada num dos seus sucessos, e ele, acolheram-me como filho, tive sempre uma forte consideração pelo Chico, um amigo, um grande homem. Como músico foi um grande percussionista e cantor. Os Jovens do Prenda estão de luto, a sua morte deixou um grande vazio. Os momentos marcantes são vários, tanto nas digressões internacionais e nacionais, como nos ensaios. Eu o via também como um pai.”

Josué Rabuni (teclados) – “O nosso primeiro contacto pessoal no mundo da música creio que foi num concerto no Marítimo da Ilha, em 2005. Cinco anos depois entro para o conjunto. O que mais me marcou nele era a sua forma de inserção entre gerações. Por exemplo, ele era muito meu mais-velho, era um pai, mas a forma como se comportava connosco era única. Não quero levantar polémicas, mas no quarteto dos kotas ele fazia a diferença. Ele era espectacular.”

Xico Santos (percussionista e sobrinho)

–“Irmão da minha mãe, ele cresceu com Verry Inácio, Paulo Nove, Kangongo, Didi da Mãe Preta, e outros. Nós viemos do carnaval. Eles começaram e nós demos continuidade. Ele, no grupo carnavalesco, tocava caixa, que levou para Os Jovens do Prenda. E depois começou a tocar bongós. É uma grande perda. Neste momento era o único instrumentista de bongós, e, com a sua morte, temo que este instrumento desapareça da música angolana. Já não se vê ninguém a tocar bongós. Os Jovens do Prenda eram o único conjunto que ainda conservava o instrumento. Como sobrinho, fica difícil falar de Chico Montenegro, um conselheiro, amigo dos seus amigos. O que mais me marcava nele era a sua calma, era o homem que mais calmante dava ao pessoal, à família. Era difícil ver o Chico Montenegro nervoso. Só tenho notas positivas dele, nunca o vi metido em confusão. Era uma grande figura.”

Zé Mueleputo (solista) – “Pessoalmente, quando entro para Os Jovens do Prenda, em 1990, mas ainda antes em Benguela, apreciava as suas músicas pela rádio. Ele marcou-me com o seu estilo, o bolero angolano. Com poucas palavras resolvia os problemas. Sinto que ele é que persuadiu o Zé Keno na minha incorporação nos Jovens do Prenda. Aliás, o Zé Keno disse-me mesmo que o Chico Montenegro teve influência na minha admissão. É gratificante pensar nisto.”

Habana Mayor (percussionista dos Kiezos)

– “Fomos colegas no agrupamento Aliança Fapla-Povo, a partir de 1974, mas antes já ouvia as suas músicas. Eu tocava tambores e ele bongôs. Sempre foi um bom camarada, daí a minha confiança nele. Um dos momentos marcantes que gostaria de partilhar é que, num espectáculo que fizemos no Bailundo, tocávamos debaixo de um prédio e, a dado momento, dispararam para o palco, precisamente para a área onde estavam o Chico Montenegro e o Calili. Imaginem como todos ficamos!” (Jornal de Angola)

Por: Analtino Santos

 

 

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