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“Filho ilegítimo” de Iglésias quer ADN dos legítimos

Maria Edite Santos engravidou numa das 10 noites que passou com o cantor, mas só conseguiu contar-lhe quando o filho tinha 12 anos e se disfarçou de segurança para entrar num ensaio.

Os advogados de Javier Sánchez Santos, o “filho ilegítimo” do cantor Julio Iglesias, pediram que os restantes filhos do músico sejam submetidos a um teste de ADN, para comprovar a ligação genética de Javier ao músico. Javier tem 42 anos e a mãe garante que nasceu da relação que manteve com o mais bem sucedido músico de Espanha.

Até ao momento, Iglesias, de 75 anos, negou-se a fazer o teste de ADN. Esta recusa levou o advogado de Javier a pedir um teste aos filhos do cantor.

Em 2017, a SÁBADO conheceu a mãe de Javier, Maria Edite Santos, que diz que engravidou numa das dez noites que passou com o músico na década de 70.

Há 40 anos, quando chegou a Espanha, não se entendia com a língua, nunca tinha estrelado um ovo, muito menos cozinhado a típica paella de Valência, na qual depois se tornaria especialista. Queria voltar para Portugal, mas o contrato que assinara com um grupo de ballet internacional fez com que ficasse – sempre gostou dos palcos e dos aplausos.

Agora, as expressões em português são raras. Durante as cinco horas que passou com a SÁBADO limitaram-se a um “faz muito tempo” – quando explicou que já se divorciara há vários anos do pai do seu segundo filho –, e a um “tu fala português” que eu não falo, mas percebo. As coisas só mudam nas férias, quando vem a Portugal visitar a família e volta ao sotaque nacional por uns dias.

Desta vez, Maria Edite não cozinhou, mas não nos deixou sair de Valência sem comer uma paella a sério, como aquelas que chegou a fazer em Miami para os pais da cantora Shakira, que viviam ao lado da sua casa. Há truque? Claro, garante.

E exemplifica: “A água faz muita diferença no sabor, cheguei a levar água daqui para os Estados Unidos.” A portuguesinha, como Julio Iglesias lhe chamava, viveu em Barcelona, Madrid, Miami e Santo Domingo (na República Dominicana), mas é em Valência que se sente em casa.

E é sobretudo do filho Javier que quer falar. Dele e do processo que, juntos, acabam de colocar contra o seu alegado pai, o cantor espanhol, um dos 10 músicos que mais discos vendeu na história e que tem uma fortuna avaliada em quase mil milhões de euros.

Tem um teste de ADN que confirma, com 99,99% de certeza, que o seu filho Javier Santos é filho de Julio Iglesias. De quem são essas provas?
Não posso dizer, porque não posso prejudicar o caso. Mas são de uma única pessoa.

Sabe de quem são?
Sim, claro.

Os jornais espanhóis escreveram que contrataram um detective espanhol para ir a Miami e que foram recolhidas 15 amostras de ADN de objectos atirados ao lixo.
Foi uma equipa de detectives muito profissional a Miami, sim. Essas provas já estão feitas, foram várias, mas não posso dizer quantas nem o que são. E temos também documentação de todas elas: conforme se ia seguindo a pessoa, ia-se fotografando tudo.

Demorou muito tempo a conseguir os elementos para os testes?
Creio que uns 10 ou 15 dias. Foi muito caro. Tudo isto custa dinheiro, é preciso pagar alojamento, alimentação e deslocações [da equipa]. Mas para lutar com Julio tem de ser assim.

Porquê Miami?
Porque a maioria da família Iglesias vive lá e o Julio também tem casa ali.

Já tinha posto um primeiro processo de paternidade, que venceu em primeira instância, mas perdeu no Supremo em 1992, sem que Julio Iglesias tivesse feto um teste de ADN. Desta vez acha que vai ganhar?
Tenho esperança, porque quando há uma prova científica tão forte, com 99,99% de probabilidade, quase 100% e o máximo possível, tem de haver justiça. Além disso, tu falas com o Javier e ele fala da mesma maneira que o Julio, tem os mesmos gestos, o mesmo andar, a voz. Nunca tive nenhuma dúvida.

Foi o seu filho Javier que pôs este novo processo, no dia 4 de Setembro. Fê-lo por ele ou por si?
Fá-lo por mim, porque sabe que eu nunca menti, sempre disse a verdade e sempre disse o mesmo. É filho de Julio Iglesias, queiram ou não, mas é filho dele. E é o mais parecido com ele.

Julio Iglesias reagiu a este novo processo?
Sei que os nossos advogados entraram em contacto com os advogados dele quando já tínhamos as provas, para tentar chegar a um acordo, e para que isto se resolvesse sem ir parar à imprensa, não queríamos isso.

O que seria para si um acordo justo?
Isso só os advogados poderiam dizer. Mas, bem, não chegámos a um acordo.

A imprensa espanhola calcula que o património de Julio Iglesias valha quase mil milhões de euros e que Javier teria direito a pelo menos cerca de 30 milhões.
Isso para mim é demasiado dinheiro. Mas Javier é filho de Julio Iglesias, terá o que lhe corresponder, não sei se é muito, se é pouco, ou nada. Mas tem os mesmos direitos que os outros irmãos.

Lembra-se da noite em que o conheceu?
Sim, claro. Conheci-o em 1975, ele cantava e eu dançava. Estive na sala Las Vegas, em Sant Feliu de Guíxols [na Catalunha] uns 15 dias, com o meu grupo de ballet, e ele fez uma gala ali. Quando o vi, pareceu-me atraente, mas nada mais. Foi ele que veio ao meu camarim, não eu, vê -se perfeitamente na foto [de capa do livro que lançou] que é ele que entra. Entra e pergunta-me se quero ir beber qualquer coisa com ele. Eu digo que não.

Porque é que recusou?
Não estava habituada, sempre fui muito tímida. Não queria ir assim com uma pessoa que acabava de conhecer. Sempre tive esse medo.

Ele insistiu, certo?
Sim, no dia seguinte telefonou para a sala, nessa altura não havia telemóveis. Eu estava a actuar e foi o coreógrafo, que depois foi minha testemunha [no primeiro processo], que atendeu. Queria falar comigo e ele disse-lhe que eu estava a actuar, que telefonasse mais tarde.

Quando ele ligou e eu atendi, insistia que queria sair comigo. Lá aceitei, mas disse que não ia sozinha e chamei uma companheira [de ballet]. Ele mandou um carro com motorista, creio que um Mercedes, mas eu quis ir no meu, no dia seguinte tínhamos ensaio, podíamos querer sair, e não ia ficar dependente de que alguém me levasse fosse aonde fosse. E assim foi.

Onde se encontraram?
Fomos directamente para uma casa, não sabia se era dele. Ela ficou num quarto, eu no outro, com Julio.

Ficou em casa de Julio Iglesias 10 noites?
Uma ou outra noite não pude ir, mas sim, foi mais ou menos isso. Juntávamo-nos depois das actuações. Fomos à praia, eu, o Julio, a minha amiga e algumas pessoas do grupo que tocava com ele. Não havia problema nenhum.

Um dia, uns holandeses convidaram-nos para um passeio no barco deles e fomos todos juntos. Fizeram um vídeo com uma câmara antiga, mas são amigos dele e o vídeo nunca apareceu.
No livro que escreveu em 2007 diz que Julio lhe ofereceu umas calças e lhe disse que devia deixar de fumar.
Sim, eu nessa altura fumava bastante e lembro-me de que ele me dizia isso.

Tivemos essa conversa no jardim de casa dele, à sombra de uma árvore, estávamos a falar da vida dos dois, mas ele nunca me disse que era casado. Há quem diga que ele saía em todos os meios de comunicação, mas eu não os lia. Nem sei que revistas havia, tinha acabado de chegar a Espanha.

Não conhecia a música de Julio Iglesias?
Não, vivia em Portugal quando ele começou. Quando contei à minha mãe que estava grávida do Julio ela é que me diz: sei quem é.

E as calças?
É um detalhe, dizem que o Julio oferecia sempre Cartier às raparigas que estavam com ele. A mim não me ofereceu nenhuma jóia. Havia uma espécie de tenda turística onde se vendia de tudo, comida, roupa, coisas para a praia, cremes, eu estava com a minha amiga e ele disse ao manager: “Compra-lhes o que quiserem.” Vi umas calças de que gostava – e tinha dinheiro para as comprar –, mas ele ofereceu-me umas a mim e outras a ela.

Porque é que ao fim de 10 dias acabou tudo?
Uma noite estava com ele numa sala e apareceu a Isabel [Preysler, com quem Iglesias era casado]. Para mim ela apareceu de surpresa, para ele não faço ideia. Dei a volta e fui-me embora, não quis saber mais nada dele. Tinha -me enganado.

Não havia fotografias da mulher na casa, nada?
Não, nunca vi.

Não estava apaixonada por ele, já admitiu.
Não, não estava. Para que duas pessoas estejam juntas tem de haver um feeling, uma atracção, e isso havia, uma atracção muito forte. Não sei se com o tempo nos apaixonaríamos ou não, mas não estava apaixonada por ele. Nem ele por mim.

Chegou a dizer que ele foi o seu melhor amante.
Isso sim [risos]. Isso sim.

Sabe como reagiu Isabel Preysler?
Não faço ideia. Sei que não demoraram muito a separar -se [em 1979, quatro anos depois].

Julio nunca teve medo que engravidasse?
Não. Eu disse-lhe que não tomava nenhum contraceptivo, porque não estava com ninguém. Tinha saído de Portugal, não conhecia ninguém ali.

Tinha saído de Portugal pouco antes disso, com 20 anos. Onde nasceu?
No Cercal do Alentejo. Em alguns dos anos que fui de férias a Portugal passei pela aldeia, chamava-se Sonega. Queria ver o sítio, como estava a [nossa] casa, lembro-me de que era branca com umas riscas azuis. Ainda estava lá quando fui à aldeia, mas já não é dos meus pais, venderam-na e fomos para a Costa de Caparica, compraram uma casa na Charneca. A minha família ainda mora aí.

O seu pai criava animais no Alentejo? 
Sim. Lembro-me da matança [dos porcos], de se fazerem os chouriços. Mas comíamos de tudo, fome não me recordo de ter passado. Depois na Charneca creio que o meu pai trabalhava na câmara, a minha mãe era dona de casa. Somos cinco irmãs, tenho uma gémea.

Quando nasceu pensavam que estava morta. O que é que aconteceu?
Nesses anos, no Cercal do Alentejo, as mulheres davam à luz em casa, não se ia ao hospital. Eu não estava a respirar, e como vinha mais uma tiraram-me dali, bom, esta está morta, vamos tratar da outra. Depois lá comecei a chorar. Só demorei um pouco mais.

Foi parar ao hospital aos sete anos porque a tentaram separar da sua irmã gémea. Como foi essa história?
Estava sempre com a minha irmã gémea, íamos às aulas juntas, tudo. Um dia, disseram-me que uma tia, irmã da minha mãe, queria que eu fosse viver com ela. Ela vivia muito bem, não tinha filhos, e eu gostava muito dela, mas claro que aos sete anos essas coisas magoam. Não o fizeram por mal, mas porque sabiam que eu teria muito mais oportunidades. Depois essa minha tia, que vivia em Almada [na altura a família de Maria Edite já se tinha mudado para a Caparica], creio, adoptou uma prima minha.

A história da amante portuguesa de Julio Iglesias na primeira pessoa

Foi no hospital que recebeu a sua primeira boneca.
Sim. Acho que foi a minha irmã mais velha que me deu. Depois aos 16 anos ganhei um concurso de misses, e aí começou a minha vida. Fiz uma fotonovela, algumas das imagens foram gravadas numa discoteca da Costa de Caparica, que se chamava Colibri. Comecei no teatro em Lisboa, trabalhei, estudei.

Como é que concorreu a Miss Caparica?
Toda a gente dizia que eu era muito bonita, nessa época [risos]. Há muita gente que ainda se lembra disso quando vou lá. Convenceram-me, fui e ganhei.

Depois do concurso, a sua vida mudou muito?
Trabalhava durante o dia e estudava à noite, em Belém. Ainda não havia ponte, por isso vinha de ferry para Lisboa. Trabalhei nos cafés Tofa, servia cafés, pastéis, tudo, e numa fábrica de relógios que se chamava Timex Express. Comecei na fábrica, a fazer relógios. Depois passei a ser secretária de um dos chefes, que foi o meu primeiro e único amor, a única pessoa por quem me apaixonei a sério, nunca mais. Tinha uns 17 anos.

Já vivia sozinha. Com que idade saiu de casa?
Muito nova, eu mentia na idade para poder trabalhar.

Começou na Timex aos 14 anos e na Tofa aos 16?
Sim, não me pediram o bilhete de identidade, nada.

Saiu de casa porque havia um ambiente difícil?
Não apenas por isso, mas também porque sempre fui rebelde. Gostava muito de liberdade, e comecei a trabalhar para ter a minha própria independência. As minhas irmãs casaram todas muito cedo e a minha mãe queria o mesmo para mim. Era a mentalidade dessa época. Mas eu não queria casar, ter namorado, nada disso, queria sair, estar com as minhas amigas, era essa a minha rebeldia.

O seu pai não era uma pessoa fácil, ou era?
Não era uma pessoa fácil, mas era muito boa pessoa.
Tenho muito boas recordações dele. Houve uma época em que bebia muito, mas não me lembro de me ter levantado a mão uma única vez.

E esse primeiro amor funcionou?
Sim, mas desapareceu porque uma das raparigas da fábrica tinha estado com ele – não sei o que se passou – e os pais dela queriam que eles se casassem. Ele fugiu de Portugal para o Brasil e aí terminou a minha história de amor. Senti-me enganada. Voltou anos mais tarde.

Quando ele voltou, tinha acabado de assinar contrato com um grupo de ballet internacional. Arrependeu -se de ter ido para Espanha?
Sim. Devia ter ficado. Mas eu sou muito orgulhosa e tinha ficado com o ego um pouco ferido pelo que tinha acontecido. E ele veio precisamente no dia em que eu ia viajar para Espanha. Se tivesse vindo um par de dias antes, teria ficado certamente com ele.

Quando começou a dançar?
Não me lembro de datas. Comecei quando estava a trabalhar num teatro em Lisboa. Fazia um número argentino com um rapaz desse país. E aí apareceu um grupo de ballet que me viu e quis contratar.

A primeira cidade onde viveu em Espanha foi Barcelona. Correu bem?
Queria sair de Portugal, mas quando cheguei a Barcelona não me senti bem. Vivíamos todos juntos [o grupo do ballet], ao pé das Ramblas. Não gostava porque não percebia a língua, agora é o contrário, custa-me falar português. Também me faziam falta a minha mãe, as minhas irmãs. Telefonei à minha mãe a chorar, a dizer que não gostava de estar ali e ela disse: “Vem para cá, volta.” Mas não podia, tinha um contrato assinado. Depois fomos para Sant Feliu e comecei a gostar de Espanha.

O grupo trabalhava em que países?
No mundo inteiro. Depois de eu ter saído, creio que havia um contrato para ir a Tel Aviv. Mas eu só trabalhei em Espanha e em Portugal.

Que tipo de dança era?
Um ballet moderno. Mas isso desapareceu com a gravidez e tive de me habituar a uma vida que não era a minha. Adorava o meu trabalho, viajar com o ballet, tudo aquilo de que uma miúda de 20 anos gosta.

Nunca pensou em não ter o bebé?
Não. Não é que seja muito crente em Deus, nem sou de ir à igreja, mas era um ser humano.

Deixou o ballet quando engravidou e foi para onde?
Quando fiquei grávida, vim trabalhar a uma sala precisamente neste edifício [o Hotel Neptuno], por isso é que venho sempre aqui. Fui comer a um restaurante um pouco mais abaixo e foi aí que conheci a família do meu ex-marido, e aquela que viria a ser a minha sogra, uma das melhores pessoas que conheci na vida. Contei-lhe tudo e disse que não podia voltar a Portugal.

Porque é que não podia regressar?
A minha mãe tinha uma mentalidade muito antiquada, e se eu não estava casada, não podia estar grávida. Essa senhora deu-me trabalho e casa. Em cima do restaurante, havia uns apartamentos que alugavam durante o Verão, fiquei num deles, pequenino, e comecei a trabalhar ali.

Javier Santos
Javier Santos

O que fazia?
Nunca tinha estrelado um ovo e acabei a fazer paellas, aprendi a guisar. No princípio, lavava loiça, servia às mesas, fiz de tudo.

Quem é que a levou à maternidade?
Fui sozinha e a chorar. Qualquer mãe gosta de estar acompanhada de um familiar ou parceiro, e quando não estás é doloroso. Mas quando vi a cara do meu filho desapareceu tudo.

Casou pouco depois disso.
Sim, quando o Javier tinha um ano. Mas o meu casamento não é sequer para falar dele, não interessa.

Levava os seus filhos para o restaurante?
Sim, eles ficavam numa cama que colocava numa mesa. Dava-lhes o biberão e eles tomavam-no sozinhos. Trabalhava muitas horas e não tinha tempo para cuidar eles.

Não disse a Julio Iglesias que estava grávida?
Não, era impossível. Percebi que estava grávida aos dois meses. No primeiro, pensei que era um atraso. E não lhe podia dizer porque ele já estava nos Estados Unidos nessa época e eu trabalhava sem salário, não tinha possibilidades económicas para ir ter com ele. Mas nunca deixei de pensar em falar com o Julio, um dia ele tem uma actuação em Valência e poderei aproximar-me. Esperei 12 anos. E foi quando ele veio dar um concerto que fui vê-lo e que disse ao meu filho.

Porque é que não tinha um ordenado?
Como não pagava casa, nem água, luz, gás ou comida, era como se tivesse salário. Imagino que fosse por isso. Os gastos que tinha eram para comprar alguns medicamentos, roupa para os miúdos – no princípio ofereciam-me, mas chegou um momento em que disse que gostava de ter algum dinheiro para comprar roupa de que gostasse e começaram a dar-me metade do dinheiro das gorjetas.

Quanto tempo ficou no restaurante?
Fiquei 15 anos. Por volta dos 28, comecei no culturismo. Competi durante 15 anos, ganhei muitos prémios e estava a preparar-me para o campeonato do mundo quando tive um acidente com 150 quilos às costas. Tive de ser operada [a uma hérnia discal] e ainda fui ao campeonato do mundo, mas fiquei em 5º lugar. Depois desisti.

Como se aproximou de Julio Iglesias para lhe contar a verdade? Comprou um bilhete para o concerto?
Nessa época, era culturista e estava muito forte, por isso passei por segurança. Levava uns calções, uma camisola de manga cava, tinha uns ombros muito grandes. Fui com um amigo que competia comigo e levei o meu filho – disse que lhe queria apresentar um amigo, ainda não foi aí que contei a verdade. Pusemo-nos os três a ver o ensaio, depois deixei-os por uns momentos e fui procurar o Julio. Entrei nos camarins das Trillizas [Las Trillizas de Oro, que actuavam com Iglesias], subi ao cenário, ninguém me dizia nada. A dado momento, já com o Javier, encontrei o seu pai, o dr. Puga e disse: “Este é o teu avô, e este é o teu neto.” Chamou automaticamente a segurança e puseram-nos fora. E aí, com o meu orgulho, pensei: agora vou pela lei.

Puseram-na na rua?
Sim. Eu queria apresentar o meu filho a Julio e fazer as coisas discretamente, resolver entre nós. Mas depois disso avancei com o processo.

E como contou a verdade a Javier?
Fui falar com a minha sogra e pedi-lhe que me ajudasse. Era difícil, eu tinha dois filhos, não sabia como explicar nem a um nem a outro. Pedi-lhe ajuda, juntámos a família toda e aí contei.

Ele não suspeitava de nada?
Sim, de alguma coisa, porque no colégio já lhe chamavam Julito. E quando o levei ao estádio e disse “este é o teu avô”, suspeitou de que alguma coisa se passava. Além disso toda a gente [da zona] sabia que eu tinha um filho com Julio. Sempre disse: “Estou grávida e o pai do meu filho é o Julio.” Para mim era muito normal, na época em que o conheci ele não era tão famoso.

Como reagiu Javier?
Mal, sofreu muito. E viu-me sempre sofrer muito. Fui sozinha para a maternidade, trabalhei até ao último dia, não fui ao hospital um único dia durante a gravidez porque nem sequer tinha segurança social. Ou trabalhava, ou estava com os meus filhos, não tinha um momento livre.

No primeiro processo, perdeu sem que Julio Iglesias tivesse feito um teste de ADN. O que lhe custou mais?
Apareceram uns senhores a dizer que tinham estado comigo nessa época. Não sei como é que a justiça aceita isso, que provas tinham esses senhores? Porque eu tenho provas e testemunhos de que estive com Julio, e se quiserem provas de ADN, mas esses senhores? Julio tinha e tem muito poder. Muito dinheiro e muito poder. E conseguiu.

Perdeu por causa do dinheiro e do poder de Iglesias?
Há mais alguma explicação? Revogaram a sentença da primeira instância porque foram apresentados testemunhos falsos. O que a justiça devia ter feito era dizer: ok, então façam os quatro o teste de paternidade. Nunca vi esses senhores na minha vida. Desprestigiaram-me, quase me chamaram de prostituta.

De que testemunhas foi à procura para esse processo?
Os primeiros foram os jornalistas que fizeram a reportagem com o Julio e que tiraram a foto de capa do livro. Só sabia que estavam em Perpignan [em França]. Peguei no carro, encontrei-os, perguntei-lhes se podiam ser minhas testemunhas e eles vieram. Depois procurei o coreógrafo que recebeu a chamada. Falei com ele, estava em Barcelona, ele disse que sim, deu os dados, mas uns dias depois telefonou-me à 1h ou às 2h da manhã e disse: “Olha, não posso ser tua testemunha.” Porquê? “É muito simples: o dinheiro faz-me falta e ofereceram-me dinheiro para não ser tua testemunha.” E eu disse: “Já não podes fazê-lo, porque já deste os teus dados ao tribunal.” Ele acabou por ir e contou a verdade. Isto foi a história que ele me contou, não fui eu que a presenciei. Depois fui à procura da amiga que esteve comigo na casa de Julio, seria o testemunho mais fiável. Estava a trabalhar num circo em Madrid.

Julio nunca lhe telefonou?
Nunca, mas há uma história que prova que ele sabe que o meu filho existe desde que o Javier tinha um ano. O grupo [de ballet] continuou e voltou a encontrar-se com o Julio noutro país. Ele perguntou por mim e a minha amiga disse-lhe que eu tinha um filho dele e que estava em Valência. Ele mudou de assunto, mas sabe, desde essa altura.

Chamava-lhe a portuguesinha?
Sim, a portuguesinha.

Em 1992, tiveram de desistir.
Não havia forma de continuar essa luta. E ao meu filho puseram-lhe muitos entraves. Ele foi disco de ouro, tinha o mesmo produtor de Enrique Inglesias, há uma foto em que o disco de ouro dele está ao lado do do Enrique.

A carreira de Javier acabou depressa. O que se passou?
Muito rápido. Segundo lhe disseram, eu não o posso afirmar, terá sido por causa do senhor Iglesias.

A produtora deixou de trabalhar com Javier?
Sim, o presidente tirou-o da editora, desapareceu.

Ele tentou outra produtora?
Sim, mas não conseguiu. Disse: “Bom, acabou-se, vou seguir a vida como puder.” Ainda é DJ, mas já não canta.

O Javier chegou a usar o apelido Iglesias?
Sim, quando ganhámos em primeira instância. E na editora também o puseram assim. Depois tiraram-lhe o apelido.

Foi por causa deste processo que começou a estudar Direito?
Sim, mas não terminei. Aborrecia-me. Houve um problema de forma [a notificação para o teste de ADN foi enviada para o advogado de Julio Iglesias e não para o próprio], sabes, e eu não tenho culpa disso.

Onde encontraram o primeiro advogado?
Não foi fácil, porque dizias Julio Iglesias e as pessoas recuavam. Por fim, encontrei um através de um amigo.

Nessa altura foi chamada ao programa La Maquina de la Verdad, em Espanha, e chumbou no teste do polígrafo. Depois passou num teste seguinte, no programa português, e no segundo que fez em Espanha. O que aconteceu?
Foi uma das coisas que me fez pior. Tinha acabado de ganhar em primeira instância. Nunca devia ter ido a esse programa, não creio que seja um programa para mim, mas sempre defendi a minha verdade, continuo a defendê-la e então fui. As pessoas estavam do lado do poder e de Julio e fizeram-me muito mal. Chamaram-me no dia seguinte para fazer o programa outra vez, para que não fosse falar do que se tinha passado. Mas eu não quis e comecei a falar do programa nos meios de comunicação.

Que exigências fez para vir a Portugal?
A primeira foi que o senhor que estava no polígrafo não soubesse quem eu era até ao momento em que estivesse diante dele, tinha medo de que acontecesse o mesmo. Prometeram-se que seria assim e fui. Em Espanha, quando passavam imagens minhas, passavam sempre o polígrafo que dizia que mentia, nunca o português nem o segundo que fiz em Espanha. Essa é uma das razões por que o meu filho não quer falar nem estar nos meios de comunicação, sofreu muito com esta história.

Chegou a pensar fazer uma greve de fome em frente dos tribunais, para exigir que Julio Iglesias fizesse o teste de ADN. Depois de um ensaio para essa greve de fome, em que passou dois meses quase sem comer, tentou o suicídio.
Sim, estava cansada de lutar contra algo tão forte como o Julio Iglesias, não aguentava mais que dissessem que mentia. Se entras em depressão, isto pode acontecer. Isto foi antes de estar em Valência [quando vivia em Madrid], os meus filhos depois trouxeram-me para cá.

Quanto chegou a pesar?
Fiquei com 40 quilos, lembro-me de que ia pela rua e não conseguia andar, caía. Isso contribuiu para que entrasse numa depressão grave e me tentasse matar. Vivia em casa de uma amiga e foi ela que me encontrou caída no chão, que me levou ao hospital e chamou os meus filhos.

Nunca teve nenhuma relação com a família Iglesias?
O Julio José [filho] foi-me apresentado por um amigo que tínhamos em comum nos EUA. Um dia estou em Madrid com uma amiga, na discoteca Kapital, e encontro-me com ele. Ele estava com a sua noiva, agora mulher, cumprimentei-o e ele apresentou-me à noiva: “Olha, apresento-te a mãe do meu irmão Javier.”

Disse mesmo assim, irmão?
Sim, sim, perguntou-me pelo seu irmão. Eu disse-lhe que o Javi estava bem, mas em Los Angeles, e perguntei porque não lhe telefonava. Ele disse que ligaria mas, claro, essa chamada nunca aconteceu. Quando vivia em Miami também tinha um grupo de amigos comum a um primo dele e saímos juntos.

Quando puseram este processo, Javier disse que não sentia rancor por Julio. E a Maria Edite?
Eu sim, para que é que vou dizer que não? Depois do mal que me fez, se disser o contrário estou a mentir. Nunca menti, vou mentir agora?  (Sábado)

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