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Fazendo piada com a vida

A comédia, essa arte cujo propósito é divertir, fazer rir, através do tratamento cómico de situações, costumes e personagens reais ou fictícios, exige do seu cultor além do necessário talento natural, uma preparação constante, permanente. E uma inquietude radical perante a vida.

Quando Calado Show está em palco até podemos pensar, inicialmente, que estamos diante de um actor que vai “vestindo” a roupagem e interiorizando os personagens que interpreta, mas depois acabamos por ser vencidos pela constatação de que ele, o Calado Show, é verdadeiramente todos os personagens que glorifica ou ridiculariza, tal a força e a autenticidade como os anima. E outra coisa que espanta os que há anos seguem a carreira deste mestre da comédia é a sua energia inesgotável e a forma como associa à sua performance a dança, normalmente bastante vigorosa, e a música. Aliás, ele foi bailarino na fase inicial da sua carreira artística, e tem demonstrado, que, se o quisesse, bem poderia ter uma carreira como cantor de sucesso.

Impiedoso consigo mesmo, ele ri de si próprio, do seu aspecto físico, da sua careca de criação, da grande cabeça que ele carrega sobre o pescoço troncudo… E quando um comediante se põe a rir, não importa do quê ou de quem, todo o mundo ri com ele. Rei da mímica, ele fala e faz rir com o olhar, as caretas, o movimento do corpo, tudo em doses exageradas.Em palco elecanta, dança, corre,pula… É a alegria em pessoa.

Piadas sobre casais
Calado Show preenche tempo apreciável dos seus espectáculos com piadas sobre casais, sogras, infidelidades… É uma parte que lhe rende imensos aplausos, com muita gente na plateia a rir até às lágrimas. Os casos ou exemplos que ele apresenta são bastante comuns, resultam, aliás, de uma leitura pormenorizada que faz dos costumes. Qualquer um sente que poderia ser o protagonista da história contada, quando já não chegou mesmo a vivenciá-la. E, no fundo no fundo, quando as pessoas se põem a chorar de tanto rir, estão a rir e a chorar de si mesmas, das suas misérias, das suas traições, das suas pequenas alegrias, das suas maldades íntimas. Ultimamente Calado Show, mais do que nunca consciente da sua influência sobre o público, faz questão de passar mensagens edificantes sobre a união familiar, contra a violência doméstica, pela valorização da mulher. E não se pense que ele se deixou enredar pelo politicamente correcto. Não tarda, ele lança um olhar panorâmico sobre a plateia e pergunta: “Aqui há crianças?”.

Lamentavelmente há pais que insistem em levar os filhos pequenos para os espectáculos do Calado Show, apesar das advertências que ele amiúde faz. É sabido que a comédia de palco alimenta-se muito com o obsceno, com o sexo. É por causa dessa parte inevitável, reservada para adultos, que os pais não deveriam levar as crianças. Porque sendo todo o espectáculo de comédia literalmente ridículo, acaba por ser tragicamente rídículo ver um pai ou uma mãe ao lado do filho pequeno a rir de cenas e situações que, em casa, reprova e desaconselha redondamente.

Mas o espectáculo ainda não acabou. Calado Show interioriza o personagem do ex-Presidente da República. Vestido a rigor, toma o lugar no púlpito, bem no centro do palco.Atira um olhar solene e abrangente sobre a sala. Diz uma ou duas palavras de saudação e a sala quase desaba de tanto riso.O momento encerra uma enorme complexidade. Uma geral associação de ideias junta na cabeça de cada um a memória de tempos políticos relativamente recentes, em que a figura representada teve um papel crucial, a realidade dos tempos de abertura política actualmente vividos, tudo isso potenciado, no sentido do riso, pela actuação magnífica deste mestre chamado Calado Show.

Temática diversificada
Está assim mais do que visto que a temática das piadas do mestre é diversificada. Esposas, esposos, sogras, chefes, figuras públicas, políticos, todos podem servir de matéria-prima. Ah! Íamo-nos esquecendo de um aspecto não menos importante da actuação de Calado Show: quem acompanha o artista ao longo dessas duas décadas da sua carreira sabe do terror que é chegar tarde à sala dos seus espectáculos, pois, de repente, pode ser alvo de uma piada improvisada. Ele é capaz de fazer, repentinamente, uma ponte entre a actuação que está a fazer com uma alusão ridícula, ou ridicularizante, à pessoa que chega tardiamente.

Outro aspecto da carreira de Calado Show é o espaço que dá em palco à actuação de músicos e bailarinos, alguns dos quais ainda pouco conhecidos. Ele próprio, no início da carreira artística, enquanto bailarino, fazia actuações de poucos minutos, quando convidado, nos espectáculos musicais. É daí, aliás, que vem o seu nome artístico. Calado ele puxou do seu avô; Show foi-lhe dado pelo apresentador de um espectáculo, rendido à sua forma de dançar.
O final dos espectáculos de Calado é uma apoteose, com o público completamente entregue, satisfeito, contente com a vida, a dar como muito bem empregue o dinheiro despendido na compra do bilhete de acesso e o tempo gasto. É então que Calado Show sai de cena, volta a ser Domingos Dionísio, mas só para ele mesmo, pois até os seus mais próximos não o conseguem enxergar senão como Calado Show.

Trabalho que cuia bué

Quando ainda bailarino, Calado Show começou a adestrar cães para alargar a sua fonte de sustento. E resultou, tanto como mais um meio de sobrevivência como pela satisfação de lidar, estreitamente, com indivíduos daquela espécie animal. “Foi maravilhoso”, garante ele. Hoje, com o pouco tempo que lhe sobra dos espectáculos e como parte do seu processo de criação, ele ainda dedica atenção aos cães. “Os cães são parte da minha vida. Gosto de cães”, afirma.

Não escapa, a quem assiste aos espectáculos de Calado Show, a enorme facilidade, pelo menos aparente, que tem de expressar sentimentos com o corpo. “Como bailarino já fazia caretas, com muito humor. Uso muito a expressão corporal, a expressão facial. Consigo fazer humor sem falar”, explica ele. E é verdade. Os trejeitos exageradíssimos conferem aos espectáculos de Calado Show uma dimensão plástica e visual que se perde completamente nas transmissões via rádio ou nas gravações áudio.
O humorista está consciente da impossibilidade de agradar a todos.

De eventualmente ferir a susceptibilidade deste ou daquele. “Tento sempre melhorar, para não ferir o próximo. Mas no decorrer do nosso trabalho há sempre uma ou outra piada que não cai bem a alguns. Não é possível agradar a gregos e a troianos. O humor tem disso, mas sem maldade”. E isso decorre da própria definição de Calado Show a respeito da sua profissão: “o humor é o exagero da realidade e de como ela é satirizada para arrancar o sorriso nas pessoas. Sempre para a alegria das pessoas”.
Mas, enfim, há os efeitos colaterais. Enquanto uns sorriem outros choram. É a vida. No cômputo geral, vale o desabafo do humorista: “o meu trabalho cuia bué, ya. O meu trabalho é o melhor do mundo”.

Para se manter activo

Nessa fase do confinamento, Calado Show também adoptou os lives na Internet como forma de se manter activo e em contacto com os fãs. A plataforma em que ele actua a partir de casa é o Instagram, todas as quartas-feiras. Em perfeita analogia com as suas saudosas “Quartas Quentes” ele denominou essas intervenções como “Quartas Quentes Lives”.
“Felizmente estou a conseguir sair de casa virtualmente, todas as quartas-feiras, a partir das 21 horas”, revela, acrescentando que os seus lives “são dos mais vistos de Angola”. Lá faz sempre coisas inéditas, com base no momento actual, além de introduzir uma ou outra anedota do seu velho repertório, a pedido dos internautas.

O confinamento, na sua opinião, aguça a criatividade. “Vou buscar tudo, trabalho com tudo, com os momentos bons e maus. Já desenvolvi temas como o comportamento do marido com a mulher, dos pais com os filhos, da mulher que está a alimentar o marido para ele ficar bebucho depois da quarentena, dos maridos que estão a prometer, finalmente, casar com as respectivas esposas…”
Apesar dessa circunstancial adaptação ao formato virtual, a arte de Calado Show nutre-se mesmo é da presença física do público, que enriquece o seu processo de criação ao estimulá-lo a fazer improvisações.
“É mesmo uma adaptação, tanto é assim que depois da quarentena vou voltar ao formato físico. A vantagem dos lives é que a plateia virtual é mesmo global”. O artista já chegou a atingir, num dos seus lives, as 30 mil visualizações.

Calado Show, que se considera um “despertador de empatias”, afirma que os artistas, em todo o mundo, com os seus lives, estão numa cruzada contra a covid-19, contribuindo com a sua arte para amenizar os espíritos.
“O meu desejo é que todos nós saiamos dessa pandemia como pessoas muito melhores”, expressou. (Jornal de Angola)

Por: Isaquiel Cori

 

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