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Rui Guapo Garção: “Unidos, poderemos orientar o mercado da Arte em Angola”

Rui Garção regressa ao panorama artístico com uma nova proposta, “A Libertação e Os Novos Caminhos”, um conjunto de desenhos para textos e poesia dos Países Africanos de Expressão Portuguesa (Antologia de Irene Guerra Marques 1977/1978 – Ministério da Educação de Angola).

Nesta entrevista, o artista fala da nova criação, do interregno de 2 anos e do seu regresso às artes plásticas

Como vai a carreira artística e como está em termos de exposições em Luanda e no interior do país?

A carreira artística teve alguns anos de interregno desde que acumulei actividades na TV e como publicitário, e desde há 2 anos para cá como docente universitário. Não estão agendadas outras exposições nas províncias, espero que, a partir desta em Luanda, surjam os convites.

É a primeira vez que expõe em Luanda?

Expus em Luanda várias vezes desde criança tanto em colectivas como em exposições individuais.

Qual foi o título da sua anterior exposição e onde a fez?

“IN sinuações”. Foi em Lisboa em 2009.

Regressa agora com uma nova criação, “A Libertação e Os Novos Caminhos”, no Camões Centro Cultural Português. Como é constituída e o que retrata?

Como o texto de apresentação diz, esta exposição é uma revisita visual às ilustrações que fiz de uma colectânea de Literatura Africana de Expressão Portuguesa da autoria da Profª Irene Guerra Marques nos idos de 1976. Então, agora, revisito alguns poemas e textos do período da luta de libertação dos PALOP, mas com novas propostas a partir daí, reflectindo sobre o meu e nosso caminho conjunto como sociedade desde antes das independências.

Ela vem sendo preparada há mais de 1 ano, mas só recentemente é que encontrei um espaço que a possa projectar e com os devidos apoios circular pelos PALOP enquanto muitos dos autores ainda estão vivos. Haja boas vontades e apoios reais Esta exposição revê as ilustrações de uma Coletânea como disse atrás e vão estar expostos Poemas e algumas dessas imagens depois, apresento novas propostas visuais e especial incidência na Dança (onde homenageio Mateus Pelé do Zangado que ainda conheci em vida), as diversão actuais e o tema Maternidade também estará presente.

Quais foram as técnicas usadas na execução desta Exposição?

São apresentados Desenho, Pintura e Escultura.

Quem é o curador desta exposição e quanto tempo ficará aberta ao público?

O curador é o nosso prestigiado académico e compositor Filipe Zau, que acompanha o meu trabalho desde há anos e produziu um texto bonito para esta exposição.

Que mensagem deixa ao público apreciador das artes plásticas?

Vão até à galeria do Centro Cultural Português- Instituto Camões e sintam “A Libertação e os Novos Caminhos”.

É a primeira vez que a mesma é exibida em Luanda?

Sim.

Quantas exposições realiza anualmente no país e no estrangeiro?

Neste ano esta é a primeira e estão previstas algumas no estrangeiro e este projecto de revisita a Poesia de Expressão portuguesa será para circular pelas capitais dos Palops logo que estejam criadas as condições de apoios.

O que mais o fascina nas artes plásticas?

As Artes Plásticas como tudo, têm evoluído com as sociedades e o gosto das pessoas e isto vem desde a antiguidade na Grécia e depois com outras abordagens como os princípios de Kant e da própria filosofia estética contemporânea. Mas acima de tudo é a revelação visual de tudo o que o artista sente.

Já agora, qual é o seu ponto de vista sobre as artes plásticas no país?

As Artes Plásticas no país estão numa fase de incremento e de grande actividade por novas ideias e propostas dos criadores, alguns já estão com uma carreira sólida no exterior e o público tem sabido responder à chamada e tornar-se bom apreciador. No entanto, muito há a fazer sobre as actividades de agenciamento, promoção e marketing ainda muito dependente de cada artista.

Que aspectos devem ser corrigidos ou melhorados na sua opinião?

Temos de ser mais unidos ainda para podermos avaliar e decidir sobre formas de actuação e interpretação do mercado da Arte em Angola pois como em tudo também tem sofrido com a presente crise económica.

Sente-se um artista realizado?

Parcialmente, porque o artista nunca está satisfeito, mas sinto que ainda tenho muito para “pedalar” em busca da consistência de princípios técnicos pictóricos e visuais de que o período longínquo da minha formação na ESBAL de Lisboa foi só o princípio.

Quando é que se iniciou nas artes plásticas e qual foi a sua primeira criação?

Olha, desde que me conheço que desenho e fotografo com a vista e reproduzo com o lápis e o pincel…acho que tinha 5 anos de idade numa exposição infantil.

O que retratava e onde a expôs?

Retratava uma moto niveladora com as alavancas do comando todas e o boné no manobrador… foi no antigo Centro de Turismo ainda no período colonial.

Como é que Rui Garção se define socialmente?

Acho que sou um tipo normal, pacato, ponderado e observador, que os longos anos de trabalho em TV ajudaram a ver as coisas e cenas do quotidiano com outros olhos.

Artisticamente?

Gosto de fazer uma pintura desenhada porque gosto de revelar ou insinuar as cenas que o abstraccionismo com o seu poder de síntese não permite…

Qual será o seu próximo trabalho e onde o apresentará?

Aguardemos.

Fale-nos um pouco mais sobre o intercâmbio e o movimento artístico ao nível da destas duas comunidades?

No âmbito da CPLP e Palpos, há algumas poucas movimentações e muito particularmente por iniciativa pessoal de alguns artistas no intuito da internacionalização mas, de forma organizada há poucas iniciativas exceptuando algumas Exposições colectivas e Residências artísticas especialmente viradas para os jovens. Esperemos que melhores anos venham para que o trabalho de cada um se projecte de forma mais regular. É um desejo meu e de todos nós.

A colecção “

A Libertação e os Novos Caminhos” é um conjunto de desenhos para textos e poesia dos Países Africanos de Expressão Portuguesa (Antologia de Irene Guerra Marques 1977/1978 – Ministério da Educação de Angola), bem como Novos Caminhos plásticos, de Rui Guapo Garção. Tem como Curador o Professor Doutor Filipe Zau, Membro da Academia angolana de Letras, ex-Secretário para os Assuntos Culturais da CPLP e actual Reitor da Universidade Independente de Angola. O trabalho integra um projecto de itinerância, que viajará pelos países da CPLP.

O artista

Rui Guapo Garção, nascido em Luanda, licenciou-se em Design de Comunicação pela Escola de Belas Artes de Lisboa. Foi realizador e Produtor de televisão e Docente universitário na disciplina de Arquitectura e Urbanismo na Faculdade de Belas Artes da Universidade Independente de Angola, onde é Vice- Decano.Em 1972, participou no 1º Salão de Novíssimos e em diversas exposições colectivas em Luanda.

Colaborou com ilustrações de literatura e poesia para diversos jornais e revistas em Luanda. De 1976 a 1977, trabalhou na reestruturação do ensino em Angola e colaborou com o Conselho Nacional de Cultura e com o poeta António Jacinto na promoção e divulgação das Artes Plásticas e no projecto da Escola de Artes “O Barracão”, bem como na dinamização das Brigadas de Pinturas Murais em Luanda.

Conquistou o Prémio de Desenho Satírico no Festival de Artes Negras da Nigéria, em representação de Angola. Participou em várias exposições individuais e colectivas, organizadas pela Casa do Pessoal da RTP. Realizou e produziu, na RTP, vários programas culturais e documentários, de que destacam a ópera “Tosca” e a série “Mar das Índias”. De 2010 a 2014, foi consultor para a Imagem de Eventos do Ministério da Cultura de Angola. Actualmente, dedica-se ao estudo e desenvolvimento dos grafismos unilineares dos desenhos na areia dos “Sonas” do Leste de Angola. (O País)

 

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