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Romeu e Diakota: Os «dedos» de que nasceu o hino oficial da «Dipanda»

Quando foi proclamada a Independência de Angola, em Novembro de 1975, Diakota e Dr. Romeu nem sequer eram nascidos.

Por isso, nos últimos dias, com a propagação da notícia de que são eles os autores do hino oficial de celebração dos 45 anos da «Dipanda», os jovens músicos, respectivamente, de 35 e 34 anos, sentem que valeu a pena terem sublinhado, ao longo da composição, os dizeres “façamos a nossa parte, o momento é agora”.

Residentes no distrito do Sambizanga, em Luanda, os dois jovens orgulham-se de pertencer ao musseque. Aliás, passam, exactamente, esta mensagem quando escolhem como local para a entrevista ao Novo Jornal um velho armazém situado nas imediações do antigo mercado do Roque Santeiro.

Com duração de pouco menos de uma hora, a conversa decorre tranquila, apesar de bem ao lado haver um outro grupo de jovens que se diverte com o popular jogo «Não-te-irrites».

A explicação sobre como ambos entraram na «máquina» que prepara os 45 anos da Independência é breve: Diakota é membro dos Gabeladas, um grupo musical «apadrinhado» por Big Nelo, o dono da Karga Eventos, empresa à qual o Estado atribuiu a responsabilidade de tratar do hino. E é fruto deste «triângulo» que Diakota convidou Dr. Romeu, pseudónimo de Romeu António Máquina, para ambos escreverem a letra.

“Pegar as ideias e escrever o texto foi rápido.

A concepção não foi muito morosa. A parte mais complexa foi a composição, que é onde entram outros intervenientes”, revela Dr. Romeu, acrescentando que, embora tenha nascido 11 anos depois da «Dipanda», conhece a história do país e tem convivido com gente que a relata na primeira pessoa.

Romeu e Diakota, que adiantam que não se basearam no passado, mas sim numa “visão mais futurista” do país, põem de lado as «quezílias» que envolveram os três movimentos de libertação nacional no período seguinte à Independência.

Por isso, dizem os jovens, as polémicas sobre as figuras alegadamente esquecidas ou sobrevalorizadas não entram no hino.

“Na música, não contámos a história de Angola, não defendemos nenhum relato, chamámos a nação para o patriotismo”, referem, voltando a sublinhar a necessidade de os angolanos prestarem atenção à parte do hino em que se aliam mensagens de patriotismo aos dizeres escolhidos pelo Estado como lema dos festejos dos 45 anos da «Dipanda»: unidade, estabilidade e desenvolvimento.

“Daí a letra fazer referência ao facto de se tratar de uma luta de todos e cuja vitória a todos pertence”, reforça Diakota, pseudónimo de Filipe Pedro.

«Não foi imposto»

Após receber o «ok!» do Estado para tratar do hino e vídeo oficiais da festa da «Dipanda», a Karga Evento desafiou vários artistas a tratarem da letra, mas uns acabaram por não cumprir os timings.

Entre as propostas que chegaram à fase final, houve, por exemplo, a letra composta por Kyaku Kyadaff, que também perdeu para os dois jovens músicos do Sambizanga, conforme a decisão da Comissão Interministerial para a Organização das Acções Comemorativas Alusivas ao 45.º Aniversário da Independência Nacional, liderada pelo ministro de Estado e chefe da Casa Civil do Presidente da República, Adão de Almeida.

Para Romeu e Diakota, trata-se de um hino que “não foi imposto”, na medida em que teve de ser analisado em concorrência com outras propostas.

Diakota, por exemplo, entende que o facto de se tratar de uma letra de artistas “novos” simboliza uma “viragem”, o que contribui para a valorização dos jovens, na medida em que, dentre os 20 artistas que dão voz ao hino, constam nomes de «veteranos» como Filipe Mukenga, Eduardo Paim ou Gabriel Tchiema.

“Quando começámos a escrever a letra, não tínhamos noção da responsabilidade, simplesmente olhámos para a arte”, recordam os jovens compositores, que admitem, entretanto, ter sentido um leve «arrepio» depois de se aperceberem, já em estúdio, de que alguns dos intérpretes, afinal, eram os seus ídolos de infância.

As 20 vozes do hino

Assim que se tornou público que a Karga Eventos, de Big Nelo, era a empresa à qual o Estado havia entregado a responsabilidade de tratar do vídeo e hino oficiais dos 45 anos da «Dipanda», houve quem tivesse posto em causa a lisura do processo, questionando, por exemplo, se o concurso público tinha sido publicitado “o suficiente”.

Entretanto, ao Novo Jornal, Big Nelo considera tratar-se de “um não-assunto”. O artista recorda que o artigo 5.º da Lei dos Contratos Públicos prevê várias modalidades de concursos públicos, como é o caso do concurso público limitado por convite.

Recusando-se a revelar os valores do contrato, Big Nelo avança que apresentou uma proposta “mais barata” que a concorrência e considera que outro elemento determinante foi o facto de o seu projecto apostar na diversidade.

Com a produção musical de Heavy C, o hino dos 45 anos da «Dipanda» conta com as vozes de Bessa Teixeira, Calabeto, Filipe Mukenga, Eduardo Paim, Patrícia Faria, Gabriel Tchiema, Socorro, Yola Araújo, Matias Damásio, Nagrelha, Anna Joyce, Big Nelo, Noite& Dia, Eva Rap Diva, Gerilson Insrael, Rui Orlando, Sandocan, Sandra Cordeiro, Vui Vui e Cef. (Novo Jornal)

Por: Onélio Santiago

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