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“O jazz em Angola vive um momento de esperança”

O jornalista cultura e promotor de eventos de jazz, Jerónimo Belo, em entrevista ao Mercado fala da “música de audição difícil” que “não é para massas”.

Como caracteriza o actual momento do Jazz em Angola?

Como em muitos domínios da nossa actividade humana, o Jazz em Angola vive um momento de esperança. Todos somos testemunhas que, entre nós, não existe “lato sensu” grande respeito, estímulo e carinho para as profissões ligadas à arte. Não se pode, em rigor, falar em marginalização, mas o Artista, com raríssimas excepções, não beneficia de paternalismos. As excepções são conhecidas. E os argumentos são, frequentemente, inconfessáveis.

A Arte com qualidade sobrevive por milagre. Se não existisse o esforço louvável das Igrejas, a situação seria pior. Regressemos, entretanto, ao Jazz: há uma grande esperança, muito embora não se viva um momento de exaltação. A estrada continua cheia de pedras. Por este motivo há quem opte por atalhos, habitualmente bem remunerados.

Há evolução do jazz no país?

É indesmentível que alguns músicos actuais estão sintonizados com o Jazz. Deixaram-se tocar pelo Jazz. Há diferenças significativas entre os músicos que surgiram logo após à Independência, que tocaram em alguns eventos organizados pelo Francisco “Chico” Rasgado, falo do “FestiJazz” e alguns dos jovens que hoje tocam em Luanda. Alguns deles têm mesmo formação académica realizada no exterior, designadamente na África do Sul, no Reino Unido e em Portugal. Posso dar alguns exemplos, mesmo correndo o risco de ser injusto involuntariamente, porque não tenho o pretensiosismo de conhecer tudo.

O meu universo é, infelizmente, limitado. Os músicos Carlos Praia (guitarra), a Katiliana (voz), Nino Jazz (teclados), Mário Gomes (guitarra), João Oliveira e Mário Garnacho (piano e teclados), Kris (baixo eléctrico), Toty Sá’Med (violão e voz), Afrikanita(voz), Simmons Massini (multi-instrumentista) e mais alguns expressam-se numa linguagem jazzy de bom nível técnico. E não nos envergonham quando participam em sessões com colegas de polos eventualmente mais diferenciados.

Quem são os percursores do jazz em Angola?

Quando se escrever a história do Jazz em Angola, Rogério de Vasconcelos, Rui Romano (1932- 2000) e José Andrade “ZAN” (1946-2015) serão nomes importantes e fundamentais no capítulo da divulgação.

As gravadoras estão interessadas em gravadoras de jazz?

As gravadoras visam o lucro. E não são instituições de caridade. Não me parece que estejam interessadas em promover uma música que não resulte financeiramente. E há outras tipologias musicais muito mais consumíveis. O Jazz é uma música de músicos.

O jazz é um estilo para a elite angolana?

O Jazz é uma música de audição difícil e, sejamos claros, não é uma música de “massas”. O Jazz é uma música de grande virtuosismo e apoiado numa nova sensibilidade. Do meu ponto de vista é a arte que melhor expressou o génio e os tumultos sociais do século XX. E também porque o Jazz tem vindo indesmentivelmente a evoluir no sentido da obra aberta, através de uma vanguarda que se une ao projecto de todas as Artes (Jazz e cinema, dança, bailado, teatro, poesia, etc.). E ainda porque na génese e surgimento desta música que se chama Jazz existem dois fenómenos da maior importância, diria mesmo incontornáveis: a escravatura e o racismo.

Entre os séculos XVI e XIX, cerca de doze (12.000.000) milhões (esta cifra oscila, consoante os autores) de Africanos foram transplantados para o continente americano. E a África ocidental era deste modo sangrada do seu potencial humano. Estou pessoalmente convencido que ainda hoje há feridas por cicatrizar. Mas, estranhamente, as elites africanas não gostam de Jazz. Praticam outros garimpos.

Quem faz a opinião e dita a moda na nossa sociedade é um grupo de gente endinheirada, arrogante, consumista, com uma cultura de prefácios, que quando não percebe diz mal; gente que assumiu cegamente a imitação reflexa e a modernização imitativa como filosofia de vida face aos padrões que vigoram nas capitais europeias, no Brasil, Dubai e nos Estados Unidos.

Hoje em Angola quem vai aos concertos é uma população maioritariamente jovem, universitária, jornalistas de música e grandes franjas do mundo da intelectualidade; pessoas que seguem o Jazz através de diversas fontes escritas, rádio e TV. Enfim, pessoas que amam o Jazz.

Os festivais de Jazz em Angola morreram?

Não gostaria que esta conversa se transformasse no necrotério do Jazz e dos Festivais. Recordo-me de o trompetista de New Orleans Winton Marsalis ter dito que, nos nossos dias, o Jazz é cada vez menos e menos tocado em Festivais em seu nome. Hoje fala-se muito de Jazz porque é “chique” é “in”, mas é preciso questionar certos critérios. Sabemos que é assim. Gostaria de sublinhar que, em meu entender, o concerto é a mais importante forma espectacular do Jazz.

O Jazz veio da rua e apropriou-se dos famosos salões de dança, para os hotéis. Daí passou para os “night clubs” e para os inesquecíveis “caveaux”. Depois, finalmente, surge o chamado “concert hall”, os Festivais, os shows em palanque, ao ar livre. Respondendo à sua pergunta: os Festivais não morreram, mas correm perigos imediatos e estão a balões de oxigénio. É muito triste. Ao assistirmos a um concerto experimentamos uma intensidade singular.

Que festivais de jazz Angola pode seguir como exemplo?

Angola deve acompanhar o que de melhor se faz no mundo, mas dimensionar as actividades com base na nossa realidade. Um dos melhores Festivais do mundo realiza-se em África, em Cape Town, que exige conhecimento e experiência que nós não temos. Também no Jazz “small is beautiful, small is possible”. Se um Festival também é um negócio, não existem negócios que prosperem realizados por pessoas que não dominam o “métier”. Não basta querer e ter muito dinheiro; é preciso saber. E conhecer. É aos produtores locais que compete desenhar um modelo de Festival, adequado às nossas circunstâncias.

Os Festivais que frequento têm bons pianos, afinadores, engenheiros de som, excelentes salas de concerto, um conjunto de recurso que nós, infelizmente, ainda não temos. Nem criámos ao longo de todos estes anos. É altura de destacar o que faz o meu colega e amigo Yuri Simão e Senhora: o Show do Mês é algo de que me orgulho.

É certamente um dos rostos do estilo no País, como começou essa paixão? Quando estava a passar dos calções para as primeiras blue jeans, compradas nas lojas de roupa usada (fardex americano, como lhe chamávamos na altura) e lavadas na praia para ficarem com um aspecto mais usado, mais antigo, como era moda nos anos 60. Mas, como todas as paixões, surgiu inexplicavelmente…Comecei a ouvir os primeiros discos com o José Andrade (ZAN), já falecido.

Primeiro surgiu a paixão pelo som; a problemática chegaria depois, com os poemas de Agostinho Neto e Viriato da Cruz, onde há imensas referências à escravatura e aos Blues – forma maior da música afro-americana – depois a paixão foi aumentando e a brincar passaram-se mais de 50 anos, sempre com esta música na alma, com livros, discos, concertos e companheiros de caminhada.

Realizar eventos de jazz é uma tarefa fácil em Angola? Estamos a falar de um evento de Jazz?

Se sim, aqui vai a resposta: para quem não beneficia de grandes paternalismos é quase uma loucura. As “coisas” vão andando com muito suor e algumas lágrimas e humilhações à mistura, e uma boa dose de descontentamento, mas vai havendo determinação e a razão não nos abandona. Há um saxofonista americano que escreveu uma frase, que se transformou numa espécie de guia para a minha acção. Falo de Archie Shepp, que disse: “O Jazz é a flor que, apesar de tudo, desabrocha no pantanal”. (Mercado)

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