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Nzinga Mbandi e as guerras de resistência em Angola. Século XVII.

Nzinga Mbandi é a mais famosa e controversa personagem da história de Angola no século XVII. Pretendemos neste trabalho, analisar a trajetória política de Nzinga tendo em vista o conturbado contexto da expansão da colonização portuguesa na África Central e da instituição do tráfico negreiro, principalmente durante o período em que representou maior oposição aos portugueses, nas décadas de 1620 e 1630.

Buscamos compreender as estruturas de poder que haviam no reino do Ndongo antes da chegada dos portugueses e como o povo Mbundo se organizava política e economicamente. Entramos no debate historiográfico sobre quem eram os Jagas, como lutaram a favor dos portugueses e contra eles, ao lado de Nzinga.

Buscamos entender como Portugal criou a colónia de Angola através do avassalamento dos sobas, construção de presídios, controle das feiras e composição de um exército africano que servia a seus interesses.

Nzinga Mbandi desempenhou diferentes papéis durante sua trajectória: cristã, Ngola, Tembanza, rainha de Matamba, etc. Buscamos compreender estes papéis face à disputa pelo controle do Ndongo, em que os portugueses a destituíram do trono e instituíram um novo rei em 1626, para isto, analisamos a questão da legitimidade e do poder feminino no reino do Ndongo.

Entendemos Nzinga como a principal líder da resistência contra a presença portuguesa em Angola no período, pois além de dar asilo a centenas de escravos fugidos dos portugueses, impediu feiras e desorganizou a cobrança dos impostos.

Nzinga na literatura e na historiografia Nzinga Mbandi é uma das mais famosas personalidades da história centro-africana e a mais bem documentada rainha de Angola. Muito se escreveu sobre Nzinga, desde o século XVII, com diferentes matizes e abordagens.

A literatura europeia a descreveu como uma tirana selvagem, de comportamento bizarro e hábitos canibais. No século XVIII, Castilhon destacou seu posicionamento político contraditório e sua personalidade ambivalente, afirmando que ela buscou alianças com os portugueses para destruir seus inimigos africanos e para se enriquecer com o tráfico de escravos, efectuando uma política colaboracionista, alheia a ética e a acordos.

1 Na visão de mundo iluminista, os governantes africanos eram ambiciosos, usurpadores, infiéis e foram responsabilizados pela existência da escravidão e pela crueldade que se abatia sobre o povo.

Os rituais africanos, sobretudo dos Jagas, aparecem como “açougues públicos de carne humana”, em que a matança indiscriminada e as orgias sexuais foram narradas para mostrar ao leitor europeu como os brancos eram civilizados diante dos bárbaros negros, tudo isso com a seleção de uma linguagem pintada de sangue a fim de provocar choque, asco e estranhamento ao leitor.

As religiões africanas foram associadas a actos satânicos, assim Nzinga, enquanto viveu como Jaga, teria perdido seu caráter humano e foi representada como uma besta, um animal à procura de sangue, entregue aos ritos diabólicos.

O romance francês “Zingha, Reine d’Angola”, de forma literária, explorou a homossexualidade de Nzinga, sem nenhuma base documental. Ela aparece vestida como homem, enquanto seus vários “concubinos” se travestiam de mulher e a tratavam como rei.

O arquétipo da heroína canibal, “femme fatale”, capaz de assassinar e comer seus amantes e inimigos, não demorou a encontrar ecos no pensamento da época e aguçou as ideias “libertinas”. Marquês de Sade, leitor de Castilhon, apropriou-se da personagem criada por seu colega e lhe rendeu homenagens no seu delirante reino psico-sexual de Butua em “Aline et Valcour”.

2 Nzinga foi também citada em “La philosophie dans le boudoir”3 , em que Sade viu nela um exemplo de revanche feminina sobre a dominação masculina, contribuindo para a repercussão da imagem da rainha negra antropófaga, tirana e sodomita.

Mais tarde, no século XIX, Hegel reforçou esta visão ao afirmar que a história não poderia existir na África, pois ali o homem estava na barbárie, no estado selvagem, ainda sem a capacidade de formar uma cultura.

Provavelmente, Hegel baseou-se nos escritos de Castilhon e Sade ao referir-se a Nzinga, que é citada nominalmente em seus estudos como estereótipo da tirania e barbaridade.

4 Historiadores portugueses, no século XX, tentaram omitir a hostilidade de Nzinga para com os portugueses e reforçaram, ao invés, sua conversão ao catolicismo e as relações harmoniosas que ela mantinha com os missionários e com outros governadores em Luanda durante os últimos anos de sua vida.

5 Nesta perspectiva, claramente associada aos projetos coloniais que ainda eram mantidos em Angola, estes historiadores tentaram minimizar a actuação política e militar de Nzinga, mas a colocaram como co-autora do tráfico negreiro, na tentativa de legitimar a atividade e transferir a culpa da escravidão aos chefes africanos.

O belga Curvelier contribuiu para a divulgação da história de Nzinga pela Europa no século XX, mas seu trabalho é bem romanceado, com muitos exageros e imprecisões.

6 Não utiliza base documental e a opinião do autor é evidenciada em vários momentos, em que os preconceitos em relação aos africanos e o ponto de vista próportuguês são marcantes, mantendo a perspectiva colonialista européia. Curvelier continuou enxergando Nzinga como uma tirana canibal, mas extremamente sedutora e perspicaz.

O autor deu maior ênfase à aproximação de Nzinga com o cristianismo, valorizando, sobretudo a ação dos missionários capuchinhos. Em Angola, Nzinga foi exaltada pelos movimentos políticos, nas décadas de 1960-1970, como uma líder da resistência “proto-nacionalista”, sendo a única heroína em comum exaltada tanto pelo MPLA como pela UNITA.

7 Esta abordagem incorre no erro de apresentar conceitos impertinentes para o século XVII, como o de “nação” e “luta de classes” e acabaram por exagerar o papel político de Nzinga na luta contra o colonialismo, sem se embasarem nos documentos históricos.

Contudo, reflectem o modo com que a imagem de Nzinga ficou registrada nas tradições e no imaginário angolano ao longo dos séculos. A partir da década de 1960, novos estudos surgiram de historiadores não portugueses, menos vinculados aos interesses coloniais.

Estas pesquisas inovaram por tentarem reconstruir a história sob a perspectiva africana, buscando entender a organização dos antigos reinos que existiam na África Central antes da chegada dos portugueses.

8 Desta forma, analisaram Nzinga no âmbito da política interna do Ndongo e Matamba, evidenciando seu papel como líder da resistência Mbundo. Na década de 1970, surgiram os trabalhos de Miller, que se distinguem pela ampla pesquisa de campo junto aos habitantes de Malanje, utilizando as tradições orais e propondo uma nova metodologia para abordar a história de Angola.

9 Miller analisou profundamente a estrutura interna e ideologia da política africana e defendeu que Nzinga travou uma constante batalha para legitimar sua sucessão contra os opositores que a viam como uma usurpadora incapaz de governar enxergando uma coerência nas diversas alianças construídas por Nzinga ao longo de sua carreira política.

10 Roy Glasgow apresentou um trabalho menos meticuloso no que tange ao uso e análise das fontes primárias, de linguagem mais literária e com muitas interpretações pessoais sem sustentação em evidências documentais.

11 Seu trabalho é interessante, pois faz um paralelo entre as lutas de Nzinga em Angola e os quilombos no Brasil, sobretudo Palmares.

Apesar de o título expressar a resistência de Nzinga frente ao colonialismo, o autor oscila em seus posicionamentos, enxergando-a ora como líder independente, ora como uma mulher seduzida pelas riquezas europeias e a coloca como co-autora do tráfico de escravos a partir de Matamba.

Beatrix Heintze é uma autora de grande importância para a História de Angola, pois propôs uma abordagem diferenciada de cruzamentos das fontes e fez um meticuloso estudo sobre metodologia, conciliando fontes orais e escritas.

12 A ela devemos a publicação da documentação do governador Fernão de Sousa, que trouxe novas luzes à questão mais crucial para este estudo.13 Adriano Parreira realizou um trabalho de antropologia social em que sistematizou os dados contidos em vários documentos históricos, produzindo uma ferramenta interessante para o historiador actual.

14 Parreira reexaminou o trabalho de Miller e criticou suas conclusões e pressupostos, argumentando que Nzinga tinha mais legitimidade do que Miller defende, sobretudo porque foi beneficiado pela larga consulta aos documentos de Fernão de Sousa, publicados por Heintze depois que Miller fez sua pesquisa.

John Thornton é outro importante pesquisador da vida de Nzinga e das relações culturais na sociedade angolana do século XVII. Travou intensos debates com Miller, levantando novas questões sobre a legislação e composição étnica no reino do Ndongo.

Para ele, Nzinga conseguiu se legitimar no poder e tornou-se precedente do poder feminino. Junto com Linda Heywood, Thornton formulou o conceito de “Atlantic crioles culture”, sugerindo uma nova forma de pensar a interpenetração da cultura europeia com a africana.

Neste sentido, a trajetória política de Nzinga foi pensada em termos de aceitação ou não dos elementos da cultura estrangeira. E por que mais uma vez falar de Nzinga Mbandi?

Percebemos que, mesmo com a grande quantidade de trabalhos publicados sobre Nzinga, sua trajetória politica não é conhecida o suficiente no Brasil. Neste momento, em que a História da África é estimulada, os professores da educação básica não sabem sequer citar reis ou rainhas africanos.

Nzinga Mbandi, para nós, é um excelente exemplo para contrapor a dominação europeia na África, é um exemplo de como os chefes africanos não aceitaram pacificamente a colonização e lutaram, militar e ideologicamente, para que seus estados permanecessem livres e independentes.

Entendemos Nzinga Mbandi como uma grande estrategista política e militar, que durante sua longa e conturbada trajetória, soube usar das mais diversas artimanhas para se livrar do cerco empreendido pelos governos portugueses que desejavam reduzi-la à submissão.

Não pretendemos fazer uma biografia de Nzinga, mas sim analisar sua atuação politica e militar no contexto da ocupação portuguesa do território angolano. Para isto, tornou-se necessário entender as relações de poder e a composição étnica e cultural existentes no reino do Ndongo antes da chegada dos portugueses.

No primeiro capítulo da presente dissertação buscamos analisar o significado da insígnia Ngola e como se deu o processo de centralização do Ndongo buscando entender como o poder político central se articulava com as autoridades regionais e o que ele representava para a população Mbundo.

Para entender a complexidade do cenário do Ndongo, buscamos entender quem era o povo Mbundo, regido sob a autoridade Ngola, como se organizava e como produzia suas riquezas, já que este se tornou um dos principais alvos da escravidão em Angola no século XVII.

Um povo que rodava pela África Central nos séculos XVI e XVII nos chamou especial atenção: os Jagas ou Mbangalas. As fontes mostram que a atuação deste povo foi decisiva para a história de Angola em diversos momentos, tanto ao lado dos portugueses como mercenários para o desenvolvimento do tráfico negreiro, tanto ao lado de Nzinga.

A acção dos Jagas foi tão ambígua quanto à designação pela qual foram chamados, levando a um intenso debate na historiografia. Fizemos um resumo do que a principal bibliografia disse sobre a identidade dos Jagas, buscando compreender quem eram os Jagas das fontes do século XVII, como se organizavam, quais seus principais ritos e mitos, para enfim entender sua atuação política.

O segundo capítulo trata da chegada dos portugueses no reino do Ndongo e da construção da colônia chamada Angola, focada principalmente no tráfico de escravos.

Buscamos entender como os agentes coloniais se articularam com o poder político tradicional através do avassalamento dos sobas, entender o sistema de tributação a eles imposto e perceber como os portugueses penetraram no interior através da construção de presídios e feitorias.

O estado de guerra foi constante, então voltamos nossa atenção para a composição da “guerra preta” – os exércitos negros que lutaram para a escravização de outros africanos- bem como as táticas e os instrumentos bélicos empregados nas batalhas.

A actuação política de Nzinga Mbandi é o tema central da presente dissertação e concentra-se no terceiro capítulo. Para comprender quem foi Nzinga Mbandi e sua atuação, alegadamente confusa e ambígua, buscamos entender o contexto da colonização portuguesa e as lutas políticas em torno do trono do Ndongo.

Entendemos que a guerra movida pelo governador Luiz Mendes de Vasconcelos, em 1617 contra Ngola Mbandi, foi o início do processo de subjugação do reino do Ndongo, que gradativamente foi perdendo sua independência.

Nzinga Mbandi teve atuação determinante neste processo e desempenhou importante papel (papéis) no combate à presença portuguesa em Angola. Nossa pretensão inicial era dar conta de toda a trajetória da personagem, até o momento da sua reconversão ao catolicismo e sua morte como cristã, aos 80 anos de idade.

Mas esta longa vida foi tumultuada demais, e repleta de “vai-e-véns”, com diferentes nuances e estratégias de acções.

Optamos por nos focar no período em que Nzinga ofereceu maior resistência à empresa colonial, em que as rivalidades foram mais explicitadas e que a luta pelo controle político do Ndongo foi mais intensa, expresso pelo golpe articulado pelo governador Fernão de Sousa em 1626.

Neste momento, considerado decisivo para a história de Angola, Nzinga marcou sua posição contra a colonização e foi duramente perseguida pelo governo português, levando-a a aliança com os Jagas.

Buscamos compreender o significado de cada papel representado por Nzinga (cristã, Ngola, Tembanza ) no contexto das disputas coloniais e da instuição da escravidão atlântica.

Reabrimos as discussões historiográficas sobre legitimidade e poder feminino do Ndongo e Matamba, buscando entender a importância de Nzinga na luta pela independência dos estados centro-africanos diante da tentativa portuguesa de manipular os precendentes e alterar os governantes.

Pensamos “conquista” e “resistência” em Angola não como um simples binômio de opostos, mas como um complexo cenário, em que as diversas forças combatiam de forma ambígua e variável. Não se trata de brancos contra negros, muito menos de europeus contra africanos.

O jogo de alianças era flutuante o bastante, não permitindo tais simplificações. Mas mantivemos a ideia de Nzinga como líder da resistência africana frente ao colonialismo europeu e à consolidação do tráfico negreiro, destacando sua atuação militar e política.

Militar porque queremos entender como Nzinga, com seu exército de Jagas, desorganizou a rede comercial que Portugual penava para construir, quais as táticas, estratégias, armas utilizadas para se manter livre e desestabilizar a presença do inimigo em Angola.

E política porque reuniu em torno de si centenas de pessoas das mais diferentes etnias e encabeçou a formação de grande confederação de sobas descontentes com a presença portuguesa na África Central, reunindo-os em torno de uma causa comum. Fontes e metodologia Este trabalho se caracteriza pelo uso abundante das fontes primárias publicadas e pelo cruzamento destas fontes.

Infelizmente, ainda hoje não temos disponível documentação escrita que forneça o ponto de vista dos africanos.

Utilizamos fontes escritas pelos europeus, o que exige atenção do historiador para filtrar as intenções embutidas na documentação. Entendemos a fonte histórica segundo as propostas da “nova história cultural”, pensadas como representações dotadas de historicidade e intencionalidade, buscando compreender as suas condições de produção, circulação e apropriação.

15 Os escritos dos jesuítas, sobretudo, devem ser analisados com cuidado, pois tudo o que foi escrito foi direcionado a fim de se criar uma imagem da colonização, convencer as autoridades régias da necessidade das intervenções que eles julgavam pertinentes, garantirem-lhes o controle – religioso e econômico – da colônia.

Os jesuítas fizeram importante trabalho em Angola, não só de evangelização – o que é muitas vezes questionado, pois a catequese parece não ter sido o objetivo principal desses padres na África – mas principalmente de registro historiográfico.

As numerosas correspondências dos jesuítas que serviam na África, hoje nos dão bases para refletir sobre diversos pontos da História de Angola. Escreveram não apenas sobre o exercício religioso, mas também sobre as relações de poder tradicionalmente existentes e os conseqüentes conflitos com o poder português; descreveram a natureza, com seus alimentos e animais exóticos;

narraram as batalhas de conquista do território; falaram de temores e esperanças da colonização. Foram tantos os pontos discutidos pelos jesuítas que o aspecto religioso ficou em segundo plano na maior parte das missivas.

A importância das fontes missionárias é tamanha que a Agência Geral do Ultramar, a partir de 1952, começou a publicá-las em uma coletânea intitulada “Monumenta Missionária Africana”.

Coligidas e anotadas pelo padre Antônio Brásio, a Monumenta soma 15 volumes, reunindo documentos dos anos 1471 a 1699. Revisitamos a Monumenta Missionária Africana, exaustivamente estudada por vários pesquisadores (Delgado, Paiva Manso, Carlo Alberto Garcia, Elias Corrêa, Thornton), como se fosse inédita, buscando informações que pudessem acrescentar na formulação da história de Angola, sempre atento às estratégias discursivas de quem escreveu o documento.

Tentamos corrigir os eventuais erros de interpretação que possam ter ocorrido nos sucessivos processos de tradução nas obras de Heintze e Thornton.

Agradecemos à Casa de Portugal, em São Paulo, por ter disponibilizado o acesso à coletânea completa da Monumenta Missionária Africana. As referências a esta obra aparecem ao longo da dissertação com o nome do organizador: Brásio, seguido pelo volume e a página de onde o documento foi tirado.

Além dos jesuítas, os capuchinhos foram importantes “historiadores” de Angola no século XVII. Cavazzi nos deixou um registro interessantíssimo sobre os reinos do Congo, Angola e Matamba, em que analisou não somente o trabalho evangelizador, mas também os ritos, mitos, vestuário, hábitos alimentares, festas dos povos daquela região.

16 Dissecamos o olhar eurocêntrico de Cavazzi, acompanhando o argumento central de sua narrativa: o catolicismo, sendo a verdadeira religião, deveria vencer as bárbaras religiões africanas. Em seu ímpeto historiador, o capuchinho criou uma metodologia própria e curiosa, ainda que não tenha tido esta consciente intenção.

Além de realizar intensa pesquisa nos Arquivos da Propaganda da Fide e da Sagrada Congregação, o padre registrou tudo aquilo que viu e ouviu durante os anos em que exerceu o trabalho missionário nestes reinos.

Cavazzi compilou diversas tradições orais existentes no século XVII e as condensou em uma narrativa única, ignorando as diferentes origens dos mitos.

A maior parte do tempo que esteve na África, Cavazzi permaneceu na nova capital do reino do Ndongo, Mpungo-a-Ndongo, onde governava o maior inimigo da rainha Nzinga, Ngola Are.

Devemos considerar que as informações que ele obteve acerca do período de intensa rivalidade entre os dois podem ter sido influenciadas por este fator, já que seus informantes lhe narravam os episódios segundo o que lhes interessava registrar.

O olhar eurocêntrico de Cavazzi é facilmente percebido. O capuchinho analisou os costumes locais segundo os seus próprios costumes e julgamentos morais, mantendo sempre o distanciamento e o estranhamento de um observador europeu.

Os Jagas foram descritos como bestas selvagens, sedentos por sangue e pela carne humana. Seus ritos foram descritos como “execráveis seitas”, “festas do demônio”, “luxuriosos rituais”, “ritos bestiais”, etc.

Cavazzi enxergou o demônio cristão em tudo e julgava todos rituais que eram estranhos à sua cultura como possessões do demônio, que tinha numerosos servos entre os africanos, entendidos como escravos do mal.

Cavazzi apresenta uma visão notadamente anti-africana, em que o pecado era inerente à condição do ser negro. O vício estava profundamente enraizado nestes habitantes da chamada Etiópia e o missionário chegou a duvidar da possibilidade da conversão real entre eles.

A demonização dos Jagas reforça seu argumento principal: Nzinga Mbandi, que vivera como uma Jaga entre os anos de 1626 a 1656, estava perdida nas trevas e na barbárie e foram os capuchinhos que a conduziram para a verdadeira luz de Cristo.

Para aumentar a glória da evangelização capuchinha, Cavazzi pintou uma rainha sanguinária, “implacável contra os inimigos”, “ávida de carne humana”, “infernal megera”.

Nas páginas em que narrou a vida Jaga de Nzinga (pp.64-102, vol.II), o missionário não poupou desqualificativos, descrevendo massacres e canibalismos para impressionar o leitor europeu.

Cardonega é outra fonte indispensável em um estudo que pretende discutir as estratégias de conquista e resistência empreendidas nas guerras angolanas.17 O capitão português reformado que serviu em Angola por mais de quatro décadas deixou uma narrativa riquíssima em detalhes.

As batalhas foram minuciosamente descritas e as dinâmicas políticas e o sistema de alianças foram revelados nos três volumes da História Geral das Guerras Angolanas. Os dois primeiros são dedicados a narrar os principais fatos em cada governo, desde Paulo Dias de Novais.

O terceiro volume é um estudo quase antropológico em que descreveu os hábitos, crenças, ritos dos povos de Angola. A obra de Cardonega é fundamental porque, como ele mesmo justificou, os documentos sobre os primeiros anos da ocupação portuguesa em Angola foram jogados no rio Kwanza pelos holandeses invasores.

No entanto, o historiador não pode se esquecer que o olhar de Cardonega mostra a postura das tropas portuguesas.

Talvez isto torne a narrativa ainda mais interessante, pois ele usa adjetivos bem expressivos para qualificar Nzinga, refletindo o julgamento que se fazia dela no calor dos fatos.

18 As ilustrações que compõem o frontespício de cada volume apresentam interessantes representações sobre o poder na “Etiópia Ocidental”. Os desenhos mostram as vestes dos principais chefes políticos da região, armas, insígnias de poder e os elementos da natureza que o simbolizavam.

Contudo, a obra de Cardonega exige atenção do historiador pois apresenta graves erros cronológicos, que graças ao trabalho do anotador dos primeiros volumes, Cônego José Mathias Delgado, puderam ser corrigidos. As notas de rodapé escritas por este estudioso permitem acessar outras fontes que foram transcritas, como as relações de Manuel Severim de Faria e cartas de Fernão de Sousa.

O acesso ao corpus documental legado pelo governador Fernão de Souza e publicados por Beatrix Heintze19 deu novas luzes a este estudo, pois revelam fatos e pontos de vistas de um personagem diretamente inserido nas guerras angolanas, mais que isto, são os registros oficiais do governador que deu o golpe e deflagrou a maior campanha de perseguiçã a Nzinga.

Estes documentos permitiram repensar a articulação do golpe político de 1626 e seus reflexos, bem como rediscutir a questão da legitimidade do poder no reino do Ndongo.

Alguns documentos são interessantíssimos, pois revelam a mudança do posicionamento de Fernão de Sousa em relação à Nzinga ao longo do seu governo.

O “extenso relatório”20 que o governador enviou a seus filhos é uma narrativa em retrospectiva dos principais fatos que ocorreram em Angola entre 1624 e 1630, explicitando o ponto de vista do governador.

Interessante observar como Fernão de Sousa utilizou os vocábulos africanos ao escrever a seus filhos. Agradeço à minha orientadora Marina de Mello e Souza por ter disponibilizado um exemplar do segundo volume de Fontes para a história de Angola e à professora Silvia Hunold Lara, por ter disponibilizado o primeiro volume. Sem estes livros, sem dúvida, a pesquisa teria tomados outros rumos.

Fontes administrativas também foram encontradas em coletâneas documentais como as de Felner e Cordeiro.21 Os escritos de homens do governo nos permitem desvelar as estratégias de colonização, as ordens régias e o descompasso entre o que a Coroa mandava e o que era cumprido em Angola.

A metodologia adotada foi a comparação e cruzamento das diversas fontes. Por vezes, nos deparamos como incoerências entre as fontes, principalmente ao que se refere à cronologia, que tentamos explicitá-las e corrigi-las ao longo da dissertação.

Juntamente com o uso das fontes, dialogamos com a historiografia existente sobre a História de Angola e sobre a vida de Nzinga. Além de reconstruir os episódios históricos, levantamos questões sobre como a historiografia enxergou tais eventos, evidenciando a interpretação de cada autor, e tentando dar a nossa contribuição para o debate.

O problema linguístico

Estudar a história de Angola no Brasil esbarra em um sério problema: como grafar as palavras da língua kimbundo? Resolvemos transformar este problema de escrita em um problema epistemológico da reconstrução da história angolana.

O problema se inicia logo na escrita do nome da nossa personagem principal, pois este foi grafado de diversos modos: Nzinga, Njinga, Jinga, Ginga, Zingha…

Levamos em consideração que o kimbundo, na ocasião da chegada dos europeus em Angola, era uma língua sem escrita, e esta foi introduzida pelos brancos. Assim, os portugueses que estipularam uma grafia para as palavras em kimbundo, utilizando as regras que regiam o português, optando pela utilização da letra “Q”, ao invés do “K”.

A partir da independência de Angola, em 1975, visando à valorização, utilização e promoção das línguas locais, o Instituto de Línguas Nacionais de Angola fixou as normas ortográficas do kimbundo e outras línguas maternas, optando pela ampla utilização da letra “K”.

22 De acordo com estas normas, foram grafadas Nzinga, Kwanza, kilombo. Apesar da maioria dos autores de língua inglesa ter adotado a grafia “Nzinga”, Thornton optou por escrever “Njinga”, pois lhe pareceu que correspondesse às regras da nova ortografia do kimbundo, conforme a referência bibliográfica que ele utilizou.

23 Confessa ter sido convencido por Graziano Leguzzano, o editor de Cavazzi, estudioso que viveu durante muitos anos em Angola, grande conhecedor do kimbundo e que optou por escrever “Jinga”.

Neste trabalho, optamos por grafar as palavras de origem angolana de acordo com que os angolanos convencionaram (Nzinga, Kwanza, Ndongo…).

Mas percebemos que esta opção, por vezes, choca-se com a grafia das fontes portuguesas, trazendo uma série de dificuldades na interpretação das informaçõese na construção do texto.

Percebemos que as fontes portuguesas também não eram concenssuais na forma de escrever as palavras africanas (nem mesmo as palavras portuguesas tinham regras ortográficas fixas no século XVII) e, às vezes, uma mesma fonte escreveu de formas diferentes a mesma palavra, tornando o nosso trabalho ainda mais dificil.

Foi um desafio padronizar a grafia de vários nomes próprios, que se tornou uma decisão arbitrária escolher. Optamos por Are e não Ari, mas não conseguimos encontrar uma explicação razoável para isto.

Chamamos atenção para o nome “Cassanje”, que aparece escrita de várias formas nas fontes. Adotamos a proposição de Heintze, que adotou a ortografia de Henrique de Carvalho, chamando “Cassanje”, o Jaga, também conhecido como Kulaxingo, e “Casanze” o mani da Nsaka.

24 Optamos por utilizar “kilombo”, para designar a organização militar Mbangala, diferenciando de “quilombo”, nome que foi adotado para tratar a organização dos escravos fugidos no Brasil.

Ao se referir à obra historiográfica, preservamos a grafia adotada pelo autor, o que pode trazer dúvidas ao leitor, por exemplo, Vansina escreveu Kinguri e Henrique de Carvalho, Quinguri. Privilegiamos a grafia banta para a escrita dos nomes das etnias: Mbundo e não Ambundo, Mbangala e não Imbangala.

Com letra maiúscula e sempre no singular. O leitor pode se deparar com contradições na opção gráfica, em que algumas palavras foram mantidas com a letra “Q”, ou “aportuguesadas”.

Peço desculpas pelos eventuais deslizes, mas a História de Angola ainda está em construção, e esbarra na necessidade de padronização da grafia utilizada pelos historiadores. Fica registrada aqui a necessidade de melhor discutirmos as questões concernentes à escrita da história africana.

NOTAS

1Castilhon, J.-L. Zingha, Reine d’Angola. Histoire Africaine. Bourges: Edition de l‟Association Gaymede, 1993. Primeira edição de 1770, disponível em www.europeana.eu.

2 Sade, Donatien Alphonse François de. Aline et valcour. LGF- Livre de Poche, 1994. E Delon, Michel e Malandain, P. Littêrature française du XVIIIe.siècle. Paris, PUF, 1996. p.399. 3 Sade, Donatien Alphonse François de. La philosophie dans le boudoir. (1795). Paris, 1976. E Sauvage, Emmanuelle.

Sade et l’exotismoe africain: images de Noirs. In: Erudit, études litteraries. v. 37 n.3, 2006. pp.97-116. 4 Hegel,G.W. La raison dans la histoire. Paris, 1965. 5 Delgado, Ralph. História de Angola. Vol.II e vol.III. E Corrêa, Elias. História de Angola.

Lisboa: Agência Geral das Colônias, 1937. 6 Curvelier, Jean. L’ancien royaumme de Congo. Fondation, decouverte, premiere evangelisation de l’ancien royaume de Congo, regne du grand roi Affonso Mvemba Nzinga. Bruxelas: Desclée de Brouwer, 1946.

7Abranches, Henrique. MPLA. Historia de Angola. Porto, I976. E UNITA: Identity of a Free Angola. Jamba, 1985. Citados por Heywood e Thornton. Central africans, atlantic creoles, and the fondation of the Americas, 1585-1660 .p.131. 8 Vansina, Kingdons of Savana.(1966) , David Birmingham.

Trade and Conflict in Angola.(1966) E Rodney, W. ‘European Activity and African Reaction in Angola’.Em Ranger, Terence 0. Aspects of Central African History . (1968)

9 Miller. Poder político e parentesco: os antigos estados Mbundu em Angola. Trad. De Maria da Conceição Neto. Luanda: Arquivo Histórico Nacional, 1995.

Título original: Kings and Kinsmen: early Mbundu States in Angola. Oxford: Claredon Press, 1976. 10Miller, “Nzinga of Matamba in a new perspective”.The Journal of African History. V.6, n.2, 1975.

11Glasgow, R. Nzinga.Resistência africana à investida do colonialismo português em Angola, 1582-1663. São Paulo Editora Perspectiva, 1982.

12 Heintze, B. Angola nos séculos XVI e XVII. Estudos sobre Fontes, Métodos e História, Luanda: Kilombelombe, 2007.

13 Heintze, B. Fontes para a história de Angola. Vol.I. Memórias, relações e outrosmanuscritos da Colectânea Documental de Fernão de Sousa (1622-1635). 1985 e Vol.II. Cartas e documentos oficiais da Colectânea Documental de Fernão de Sousa (1624-1635). 1988.

14 Parreira, Adriano. Economia e sociedade na época da rainha Jinga. (Século XVII). Lisboa: Editorial Estampa, 1997. E Dicionário glossográfico e toponímico da documentação sobre Angola, séculos XVXVII. Lisboa, 1990.

16 Cavazzi, Giovanni Antonio. Descrição histórica dos três reinos do Congo, Matamba e Angola.2 volumes. Lisboa : Junta de Investigações do Ultramar, 1965

17 Cardonega. História geral das guerras angolanas.( 1681). 3 vols. Ed. Anot. Cônego José Mathias Delgado (vols.1 e 2) e Manuel Alves da Cunha (vol.3). Lisboa, 1972

18 Para uma análise da importância de Cardonega enquanto fonte histórica, ver. Heintze. Angola nos séculos XVI e XVII. Capítulo 5 “A obra de António de Oliveira de Cadornega: uma fonte extraordinária para a História e Etnografia de Angola no século XVII”.

19 Heintze, Beatrix. Fontes para a história de Angola. Vol.I. Memórias, relações e outrosmanuscritos da Colectânea Documental de Fernão de Sousa (1622-1635). Studien zur Kulturkunde, Bd. 75. Stuttgart: Steiner 1985.

E Fontes para a história de Angola. Vol.II. Cartas e documentos oficiais da Colectânea Documental de Fernão de Sousa (1624-1635).Studien zur Kulturkunde, Bd. 88. Stuttgart: Steiner 1988.

20 Extenso relatório do governador a seus filhos. 1630. Em Heintze, Fontes para a história de Angola. Vol.I. 1985. doc.30.

21 Felner, Alfredo de Albuquerque. Angola. Apontamentos sobre a ocupação eo inicio do estabelecimento dos Portugueses no Congo, Angola e Benguela extraídos de documentos históricos. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1933. E Cordeiro, Luciano. Questões Histórico – coloniais. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1935. V.1.

22 Em http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADnguas_de_Angola, acesso em março de 2012.

23 Kounta, Maria Celeste. Histórico sobre a Criação dos Alfabetos em Línguas Nacionais. Lisboa, 1980,p. 64. Em Thornton, Legitimacy and political power. P.25.

24 Heintze, B. Angola nos séculos XVI e XVII. P.284. nota 28.

55 Parreira, Economia e sociedade na época da rainha Ginga. p.167 56Miller. Poder político e parentesco. Pp.38-40. E Childs. “The kingdon of Wambo (Huambo):a tentative chronology”.In The Jounal of African History.vol.V,nº3. 1964. Pp.367-379. 57Miller. Poder politico e parentesco. pp.46-47. 58Idem.Ibdem.p.49 (Mariana Bracks Fonseca)

*Programa de Pós graduação em História Social

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