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Nós e a civilização do espectáculo

O lugar que a arte e a cultura ocupam no mundo da informação e do conhecimento, no mundo de hoje, mudou muito. Como nos explica Mario Vargas Llosa, no seu livro intitulado “A civilização do espectáculo” ( 2012), o que, em Angola e noutras partes do mundo, chamamos hoje de cultura é um domínio que sofreu uma metamorfose radical, passou a ser qualquer coisa mais próxima do entretenimento e da diversão, cujo valor é dado principalmente pelo mercado, ainda que as outras formas e manifestações continuem a existir.

Actualmente, a noção de cultura geral deve ser vista de outra maneira: basta
ter acesso ao Wikipédia e ao Google e temos algo muito parecido ao que, até ao século passado, se considerou ter noções gerais do que nos interessava. Mas, agora podemos ter a mesma coisa e mais, de (quase) tudo. Como diz Vargas Llosas: agora somos todos cultos de alguma maneira, ainda que nunca tenhamos lido um livro, visitado uma exposição de pintura, presenciado um concerto ou adquirido algumas noções básicas dos conhecimentos humanísticos, científicos e tecnológicos do mundo em que vivemos.

Além do lado perverso que é evidente que tem, a democratização da cultura é o logro da humanidade e, portanto, não é assim tão mau. Mas, entre nós, o processo de utilizar o património artístico e cultural como fonte primária de conhecimento só terá melhores frutos e sentido quando o seu inventário, estudo, conhecimento e divulgação tenha sido feito ou esteja a ser feito acompanhando as mutações constantes das práticas artísticas e culturais.

Apesar do esforço feito, desde há muito, andamos às apalpadelas, já que escasseiam – ou não são acessíveis para a maioria da população, por um lado, as obras de vulgarização e popularização de muitos dos conhecimentos que alguns dos mais importantes investigadores foram publicando, ao longo dos últimos quarenta anos.

O Estado deveria estruturar uma estratégia melhor elaborada que permita uma presença online dos conhecimentos sobre o nosso país, nos mais diversos âmbitos, independentemente do que vai surgindo e feito por outros actores sociais, cívicos, educativos, económicos e políticos.

Outra debilidade que temos e que devemos subsanar é que, num passado muito recente, independentemente da importância do tipo de património artístico e cultural angolano que se tratasse, sempre que houve um dilema entre interesses privados e públicos de grandes grupos empresariais e a memória e interesses colectivos, as circunstâncias permitiram que desafortunadamente os individualismos se sobrepusessem ao interesse público. O caso da arquitectura e do urbanismo da Baixa de Luanda é o caso mais flagrante.

A ausência de inventário e referencialização exaustivas e melhor divulgadas, a falta de conhecimento e educação sistematizados através do património artístico e cultural, nas suas diversas variantes – material (móvel, imóvel e tangível) e imaterial (vivo e intangível) – e havendo um número cada vez maior e mais incontrolável de focos emissores de discursos e ou críticas sobre esse vasto repertório de informações e saberes angolanos, torna- mo-nos muito mais vulneráveis.

Arrastamos também uma série de lacunas transgeracionais que, de um modo geral, situam importantes faixas da população, em Angola e nas suas múltiplas diásporas, na realidade ou no espaço virtual, à beira da ignorância, na superficialidade, na mais absoluta confusão ou no folclorismo mais básico e estereotipado quando, na prática, algumas das manifestações da arte e da cultura feita em Angola têm um altíssimo nível de qualidade e deveriam ser melhor conhecidas.

Mesmo que de qualidade irregular, o volume de informação sobre a arte e a cultura angolanas produzidas é enorme. A arte e a cultura não são ainda consideradas vectores essenciais de desenvolvimento e estes sectores, não nos cansaremos de repetir, deveriam ter, em tempo de paz, um investi- mento similar ou maior ao que tiveram as indústrias do petróleo e outros minerais e a banca para aguentar o esforço da guerra e alavancar o desenvolvimento.

Repito: o lugar que a arte e a cultura ocupam no mundo da informação e do conhecimento, no mundo de hoje, mudou significativamente. Desenvolver a economia das artes e da cultura, incluindo a educação através delas, nas suas diferentes manifestações, expressões e âmbitos, deveria ter uma importância político-estratégica para evitar que sejamos engolidos pelo lado perverso e superficial da civilização do espectáculo. (Jornal de Angola)

Por: Adriano Mixinge

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