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Gente da nossa terra: Rochete Ferreira – o homem da Precol

Homem dedicado ao bairro da Precol e o seu empenho em torno das actividades desportivas com destaque para o futebol, Francisco Rochete Ferreira é referência no bairro onde vive há mais de meio século.

Homenageado pela administração do Rangel com a atribuição do seu nome a um campo polidesportivo, em reconhecimento pelo seu empenho a melhoria do bairro da Precol, Francisco Rochete é amante do futebol, modalidade da qual foi responsável pela área de formação do extinto Clube os Independentes do Rangel.

Afirma que pelas suas “mãos” passaram muitos jogadores, com destaque para Abel Campos (Petro de Luanda e Benfica de Lisboa), Mingo (Inter, antes de Luanda, agora de Angola), cumpriu serviço militar activo no exército colonial e nas ex-FAPLA.

Francisco Rochete Ferreira, que prefere que o chamem de Rochete Ferreira, porque nunca gostou do nome Francisco, é um dos fundadores do bairro da Precol, conhecedor da história da cidade de Luanda, antes e depois da independência, participou na luta de libertação nacional, na defesa da pátria durante a agressão sul -africana e no conflito armado interno.

Rochete Ferreira é o convidado para falar sobre o ontem, o hoje e o amanhã da capital angolana, no âmbito das celebrações dos 446 anos de Luanda, que se celebra a 25 de Janeiro do ano em curso.

ANGOP – Luanda completa 446 anos numa altura em que conhece grande densidade populacional e múltiplos desafios sociais. Quando olha para trás, de que mais sente falta na cidade?

Rochete Ferreira – O que mais sinto falta… a união entre as pessoas, a sensibilidade, o respeito, bem como o espírito trabalhador e patriótico. Hoje esses valores tendem a desaparecer no seio da sociedade, o que de certo modo é bastante preocupante para aquilo que se conquistou, a independência nacional, com o esforço e empenho de muitos nacionalistas. É preciso a mudança de mentalidade de todos nós, sem excepção.

ANGOP – Qual era na altura, no tempo colonial, a matriz arquitectónica da capital angolana, lembra-se de algum padrão especifico?

RF – Na sua maioria havia bairros onde as casas eram construídas de chapas, em alguns casos, e outros em que havia casas com tetos de luandos (esteiras) e casas feitas de adobes com cobertura de capim ou chapas. Essas últimas duravam mais tempo.

Por outro lado, existiam habitações, onde viviam os colonos, por exemplo os bairros da Precol, Rangel, Vila Alice e Santo António (Cazenga), que tinham uma matriz melhor, baseada em casas feitas de tijolos e cobertura de telhas. Por outro lado, a existência de unidades fabris, com realce para a de sabão e oléo e a fabrica de bolachas, a Vilares, também se fazia motar.

ANGOP – Uma das marcas da cidade na era colonial foi o surgimento dos musseques, dos assimilados e dos gentios. Qual é exactamente a história do surgimento dos musseques?

RF – Os musseques aparecem como uma forma do colono controlar melhor o negro, embora eles pensassem que nós não estávamos próximo deles, mas eles de nós, ou seja, o colono julgava que com a criação dos musseques seria mais fácil o controlo do negro. Tanto é que uma das grandes preocupações depois do aparecimento de um musseque era asfaltar uma rua de acesso ao local, para ter o controle dos mesmos, por isso é que eles preferiam que o nativo fosse viver no musseque.

ANGOP – Quais foram os primeiros musseques a surgir e como era a coabitação entre os “nativos” que daí saíam para ir trabalhar para a cidade?

RF – De principio os negros viviam todos na baixa da cidade, logo depois começaram a retirar para virem para os musseque. Apareceu o musseque Marçal e o Bairro Indígna, o actual Rangel, era tudo deserto, depois surgiram outros musseques, a convivência entre os “nativos” era salutar, onde o espírito de união, respeito mútuo e o trabalho reinavam no seio de todos que aí viviam e trabalhavam na cidade.

ANGOP – Comente sobre o bairro Indígena. Qual a importância que teve o surgimento deste bairro?

RF – O surgimento dos musseques em Luanda foi uma estratégia do colono com o objectivo de ter melhor controlo do “nativo”, só que a mesma não surtiu o efeito desejado, porque o Bairro Indígna aparece para acolher os negros assimilados, que eram pessoas com certo nível de escolaridade. Isto, de certa forma, constituiu grande obstáculo para o colonizador, porque o homem negro já pensava na independência. Existem, por exemplo, alguns dirigentes que lá nasceram. Para dizer que o surgimento dos musseques galvanizou os angolanos para a luta e a consequente conquista da independência, ou seja para a liberdade.

ANGOP – Luanda chegou a ser considerada a Paris de África. Que aspectos concorriam para que a capital tivesse essa aceitação?

RF – De facto, a cidade de Luanda chegou a ter esse estatuto por vários motivos, de um lado tinha o nativo dedicado ao trabalho, com espírito de união e disciplina, situação que hoje a nossa juventude não possui, e do outro o sistema repressivo do colono. A Polícia Internacional da Defesa do Estado (PIDE) tinha formas para localizar as pessoas, o que não permitia a desordem. O saneamento básico era feito por todos. Isto fez com que a cidade fosse limpa, tranquila e acolhedora. Esses foram os principais motivos.

ANGOP – Haviam algumas zonas que não se podia ignorar quando se quisesse falar de Luanda, como o Baleizão. De que mais se lembra?

RF – Lembro-me com alguma saudade, porque o Baleizão, situado na baixa da cidade, era um local de encontro da juventude de vários pontos da cidade, com destaque para as pessoas dos musseques, onde o objectivo era a troca de informações sobre a necessidade da luta para a liberdade dos angolanos. Outro local é a Liga Nacional Africana, que é histórico, para onde íamos camufladamente.

Eram os pontos de encontro, onde encontrávamos gente que já tinha a mentalidade virada para a independência. Portanto, eram o Baleizão e a Liga Nacional África que constituíam pontos de referência, sem esquecer a Mutamba, que era o local de concentração de todos as pessoas que pretendiam chegar à baixa de Luanda. Uma das referências deste sítio era o facto de ser o ponto de chegada e partida dos autocarros.

ANGOP – Naquela altura a cidade contava com várias infra-estruturas, como unidades e centros recreativos e culturais, que hoje são apenas memória. Quais eram as grandes fábricas e locais de diversão?

RF – Sim, Luanda naquela altura contava com a fábrica de sabão, localizada no Baleizão, onde hoje está o Conselho Nacional Eleitoral, a Vilares – fábrica de bolachas, a indústria de óleo e sabão (Congeral), a fábrica de pilhas, essas eram as que tinham destaque. A mão de obra era constituída por nativos, que conseguiam manter o seu funcionamento.

Quanto aos locais de diversão, o Centro Cultural Maria das Esquerquenhas, o Maxinde, onde a nossa juventude fez muito trabalho, porque era lá que se partilhavam as mensagens em torno da luta para a independência. Aos domingos, havia a matiné dançante e os jovens estavam lá todos, uma juventude no devido sentido da palavra, sem confusão.

A seguir tínhamos o Sporting do Rangel, que depois passou a ser o Ngongo, o Desportivo de S. Paulo aparece mais tarde, mas o que tinha mais popularidade era o Ginásio, no S. Paulo, muitos dos actuais políticos frequentaram o local, porque representava local de encontro para fazer política. Devo lhe dizer que os centros culturais e recreativos constituíram um elemento importante para os angolanos traçarem planos para a luta contra o colono português, e todos eles estavam situados nos musseques.

ANGOP – Luanda sempre foi uma cidade que respirava cultura e desporto. Fale-nos do contexto e do formato dos bailes de carnaval do passado. Como era o Entrudo de então?

RF – No carnaval o povo saia mesmo a vontade, tinha os dias de ensaios, não havia incómodo, os participantes entregavam-se de corpo e alma. Tudo era feito ao detalhe, aquilo era mesmo fazer cultura, o desfile era feito na Marginal, que actualmente é a Avenida 4 de Fevereiro, depois daí cada grupo ia para o seu bairro. A festa tinha um grande impacto para os nativos. Organizavam-se muitos bailes e em vários locais da cidade de Luanda, mas tudo dentro de uma ordem, porque o colono era muito repressivo, não permitia confusão. O carnaval que se organizava antigamente era para distrair o colono.

ANGOP – Essas festas tinham a duração de três ou mais dias e contava sempre com um grande envolvimento da população. Qual é a razão de haver tanta adesão?

RF – O motivo do grande envolvimento da população tem a ver com o facto do angolano encarar  o carnaval como momento de alegria. Dada a repressão brutal, preferíamos o momento para nos divertirmos, mas reinava o respeito e era um motivo também de fazer política, usando as mensagem para despertar o angolano, mas acima de tudo festejar com alegria e ordem.

ANGOP – O desporto era uma marca da cidade capital, que viu surgir grandes referências, em particular no futebol. Que marcas lhe deixaram os grandes luandenses na era colonial e no periodo de 1975 a 1997?

RF – No antes de 1975 as grandes referências em Luanda, sem sombras de dúvidas, eram o Garrido Costa, Jacinto João e Joaquim Dinis “Brinca na Areia”, todos eles tinham talentos e inclusive jogaram em equipas portuguesas. Cada um deles teve o seu destino, próprio do contexto. Nas equipas tínhamos o Ferrovia, Sporting de Luanda e o Benfica de Luanda, Ginásio, São Paulo Futebol Club e Maianga.

Essas constituíam na altura os grandes clubes onde alinhavam os “craques” da cidade. No depois de 1975, a lista de “craques” é enorme, mas, Ndunguidi Daniel, Osvaldo de Oliveira “Jesus”, Abel Campos, Ivo Traça, Bodunha, Gaspar e Napoleão Brandão, constituem para mim as grandes referências no período pós-independência.

ANGOP – Angola esteve presente uma única vez na maior cimeira do futebol mundial, em 2006. Como homem do futebol, que avaliação que faz do actual estado do futebol nacional, de um modo geral?

RF – É com muita tristeza que eu vejo que o nosso futebol, posso dizer sem medo de errar, está num mau momento. Para mim, a culpa vai para os nossos dirigentes, que não dão o devido valor, porque em Angola e em particular Luanda sempre tivemos bons jogadores. O que é preciso fazer é apostar mais no desporto de formação, criar escolas nos vários bairros da cidade capital.

Eu, enquanto homem do futebol, pois durante muito tempo pertenci a área de formação da Equipa de futebol dos Independentes do Rangel, formei o Abel Campos, o Gaspar e o Mingo, todos eles deram cartas no nosso campeonato. Actualmente, a equipa do Independentes do Rangel e outras que deram o seu contributo, já não existem, porque não houve aposta nesse sentido. Desta feita apelo para a mudança de atitude na forma de ver o futebol em Angola, de modo geral.

ANGOP – Luanda era estruturada, com transportes públicos, edifícios limpos e educação do povo. Será que havia mais espírito cívico?

RF –  Sim, neste aspecto tudo funcionava, porque o angolano gostava de trabalhar e como tinha um regime muito repressivo, que não permitia desordem, tudo funcionava em pleno, o respeito pelo trabalho e a disciplina do nativo foram bastante determinantes para que isto acontecesse. Por exemplo, não havia aglomerado de lixo, tudo porque todos participavam na limpeza da cidade de Luanda, cada um era responsável pela limpeza da sua área de residência. Actualmente, lamentavelmente, tudo se inverteu por falta do espírito cívico, mas podemos mudar a situação, com união, disciplina, trabalho, mas acima de tudo com muita acções de educação cívica e também o papel activo das autoridades locais.

ANGOP- O que não era permitido fazer na rua no tempo colonial que se preservou depois da conquista da independência nacional?

RF –  Neste aspecto vou apenas falar do antes da independência, porque o depois foi tudo muito complicado e complexo. No tempo colonial não era permitido desordem, nem na forma de vestir. Não era permitido o uso de barba e cabelo cumprido para ter acesso ao centro da cidade. A cidade estava sempre limpa. Existiam informadores “camuflados”, cuja missão era fazer o controlo das conversas que as pessoas mantinham. As pessoas viviam do seu trabalho.

Depois da conquista da independência passamos a ter muitos problemas, resultado do contexto, embora independentes, mas a guerra continuou, porque sofremos uma agressão estrangeira do regime sul-africano. O conflito armado, de certa forma, contribuiu para muitos problemas da cidade capital, pois houve migração de pessoas para Luanda à procura de refúgio e a capital não estava preparada, daí muita coisa que não era permitido na era colonial começou a fazer parte da vida dos “caluandas”, lamentavelmente.

ANGOP- A partir de que momento a cidade de Luanda começou a perder a sua verdadeira identidade e, do seu ponto de vista, quais foram as razões?

RF – Luanda começou a perder a sua verdadeira identidade quatros anos após a independência (1979), resultado de um conjunto de situações complexas, com destaque para o conflito armado, que obrigou muitas famílias a refugiarem-se na cidade capital à procura de segurança. E ela não estava preparada para acolher mais pessoas. O resultado está bem visível: falta de saneamento, delinquência, desordem, enfim, muitas coisas contribuiram para que Luanda perdesse a sua verdadeira identidade.

ANGOP- Como se justifica que antigamente os musseques tivessem água e luz e, hoje, áreas que custaram muito mais verbas ao Governo tenham esse tipo de problemas básicos?

RF – Antigamente, uma boa parte dos musseques não tinha luz eléctrica, as populações usavam candeeiros a petróleo. Quanto a agua, o colono construiu chafarizes, em quase todos os musseques, e de certa forma a água não constituía problema. A luz eléctrica não existia para os nativos, excepto os assimilados que viviam nos centros urbanos, que eram poucos.

Actualmente existem áreas que custaram muito mais verbas, mas os problemas básicos continuam, porque de um lado tem a ver com a acção do homem, que ao invés de cumprir com a missão de servir a comunidade prefere se servir. O papel fiscalizador das autoridades no que concerne as verbas destinadas para as obras públicas é fraco. É preciso existir a prestação de contas e a mudança de mentalidade dos executores e também dos beneficiários. Aí onde já existe este tipo de serviço é preciso que o cidadão pague o seu consumo, de forma a ajudar o Estado a arrecadar verbas para outras zonas da cidade.

ANGOP- A cidade de Luanda tem graves problemas no fornecimento de água e luz, lixo nas ruas, construções anárquicas por todo lado, sem espaços de lazer para a prática de desporto. No seu ponto de vista, Luanda tem soluçao?

RF – Sim, Luanda tem solução. Quanto ao fornecimento de água, deve-se investir mais. Luanda está “banhada “ de rios, quer à norte, quer à sul, para fazer chegar a água a todos os recantos da cidade, mas é preciso que haja a participação do cidadão no pagamento das suas contas.

Quanto a luz eléctrica, reconheço existir um grande avanço, pois actualmente já se nota melhoria no fornecimento deste importante serviço. Em relação ao lixo, a melhoria deste serviço também requer o esforço de todos.

Em relação às construções anárquicas e a criação de espaços de lazer, isto passa necessariamente por políticas a conceber por parte do Estado, começando por um sério ordenamento do território, mais investimentos e o papel preponderante da fiscalização. Portanto, a cidade de Luanda tem sim solução. Tenho esperança que isso um dia será ultrapassado.

ANGOP- O que deve ser feito para que Luanda conquiste gradualmente e a todos os níveis o estatuto de capital digna desse nome?

RF – Para que Luanda conquiste o estatuto de capital do país, é preciso trabalho, união de esforços, disciplina, espírito de responsabilidade de todos, educação cívica da nossa população e acima de tudo a honestidade dos servidores públicos. Com tudo isto vamos conseguir que a capital angolana seja a “casa comum” de todos os angolanos.

ANGOP – As pessoas estão ansiosas pelas autarquias. Acredita que as autarquias possam vir a ajudar a resolver os graves problemas que Luanda enfrenta?

RF – Sim acredito que as autarquias vão ajudar a resolver os graves problemas, porque é preciso descentralizar os poderes, o central para o local, porque não se pode esperar sempre do Executivo para resolver um determinado problema da comunidade. Para mim, as autarquias vão contribuir para a boa governação, mas é importante ter lá pessoas sérias, honestas, para que o passado recente não volte a acontecer, com pessoas que se aproveitaram do erário para se enriquecerem à custa do povo que lhes escolheu para dirigirem os destinos da comunidade.

ANGOP-  Para si quais devem ser as qualidades que um autarca deve ter? Já pensou em ser autarca?

RF – Um autarca deve ser humilde, honesto, responsável com o seu dever de governar, com sentido de servir e não de servir-se, ter a capacidade de dialogar com a comunidade, saber ouvir, com a finalidade de encontrar soluções para resolver os grandes problemas que afligem as populações. A minha idade já não permite, mas estou aberto em dar o meu contributo neste desafio.

ANGOP- Se tivesse o poder político nas mãos, por onde começaria o processo de transformação de Luanda? Quais seriam as suas áreas prioritárias?

RF – Bem, como acabei de dizer, a minha idade já não permite, mas posso dar conselhos. A transformação de Luanda passa pela união e esforço de todos para resolver os graves problemas que afligem as populações de Luanda, a descentralização de poderes (Central para o Local), as prioridades seriam a resolução dos problemas básicos, nomeadamente a água, luz, o lixo e a reparação das vias rodoviárias.

O papel interventivo e actuante dos fiscais e a criação de novas centralidades, obedecendo ao padrão de construção, que para além de zonas para habitação deve também ter as áreas de lazer, ambiente para proporcionar a melhor qualidade de vida de todos que habitam na cidade de Luanda, que afinal de conta é a capital de Angola.

Nota biográfica

Nome: Francisco Rochete Ferreira

Filiação: José Ferreira e de Maximiana Silva

Naturalidade e data de nascimento: Luanda, bairro Indígna, aos 21 de Março de 1945

Filhos: 9

Profissão: Militar reformado

Habilidades: Futebol e cozinhar

Prato preferido: Arroz de bacalhau

Livro – Papa Francisco, sobre a Igreja Católica

Filme – Policial inspector Max

Passatempo – passeios e a leitura regular do Jornal de Angola

Cor preferida: Vermelho

Equipas do coração : Clube Desportivo 1º de Agosto e Sport Lisboa e Benfica (ANGOP)

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