Cultura

Encontro de escritores apresenta “vozes negras” de África no Brasil

Um encontro internacional de escritores africanos reu-niu no último domingo, na cidade de São Paulo, vozes negras da literatura produzida em África, pouco conhecidas no Brasil.

Durante um dia inteiro de programação dedicada a África foram realizados painéis temáticos que abordaram assuntos como os rituais e o teatro, pintura e literatura, filosofia e história oral.
Isidro Sanene, escritor e artista plástico nascido em Angola, disse à Lusa que a novidade deste encontro consistiu em mostrar a literatura realizada por negros em África.

“Este evento é um marco para a sociedade brasileira porque reforça o protagonismo dos autores negros africanos. Também pudemos contribuir com a desconstrução de um olhar dos brasileiros, que muitas vezes pensam que a África é um continente, algo uniforme, quando na verdade tem culturas totalmente diferentes de um lugar para outro”, afirmou.

O autor explicou que, durante um painel sobre literatura periférica, apresentou a sua vivência e tentou exemplificar um olhar recorrente sobre autores da África.

“Se fizermos uma pesquisa sobre os escritores africanos conhecidos no Brasil vemos que a maioria deles são brancos como, por exemplo, o Mia Couto, o Pepetela e o José Eduardo Agualusa. Estes autores são muito bons, mas muitas vezes como brancos ele apresentam uma África vista pelo binóculo, diferente da África que os autores negros vêem”, disse o autor.

“Assim, os autores da literatura periférica africana vêm agora para quebrar barreiras (…) Como angolano penso que posso romper barreiras e trazer dentro da literatura lusófona as línguas nacionais de Angola como o umbundo. Fazer uma mescla entre o português e a língua nacional africana para reforçar a minha identidade”, acrescentou.
Já a poetisa e artista plástica Amélia da Lomba avaliou que o evento, independentemente de pregar a valorização dos escritores negros da África, representou uma oportunidade para autores e o público debaterem conceitos, princípios, éticas e fontes de inspiração.

“Eu não vim a um encontro da angolanidade ou da africanidade neste evento realizado aqui no Brasil. Eu não vim ao encontro de uma cor, de uma etnia, mas vim ao encontro da poesia, da letra e da literatura”, afirmou.
“Falei numa mesa [de debates] sobre a literatura oral e filosofia africana. Foi muito agradável partilhar as minhas experiências sobre estes te-mas. Tive uma boa recepção”, acrescentou.

Da programação, destaque para a participação dos escritores nigerianos Sunday Nkeechi e Otunba Adekunle Aderonmu, do cabo-verdiano Moustafa Assem, dos angolanos Amélia da Lomba, Marta Santos e Isidro Sanene, do moçambicano Miller A. Matine e da camaronesa Alexandrine Biyouha.

Além das apresentações de painéis temáticos pelos escritores convidados também foram realizados lançamentos de livros inéditos em português, declamação de poesia, exposição, teatro, dança e música.
O Encontro Internacional com Escritores Africanos foi idealizado pela TM Editora, em parceria com o Centro Cultural Olido, a Prefeitura de São Paulo, o Centro Cultural Africano e a Associação Palanca Negra.

Obra de Florbela Espanca é analisada na Biblioteca Camões

A vida e obra da poetisa portuguesa Florbela Espanca é o foco da sétima edição do programa “Escritor do Mês na Biblioteca Camões”, que se realiza na  segunda-feira, às 10h00, no Camões – Centro Cultural Português, em Luanda.

A iniciativa inserida no quadro de promoção da língua portuguesa e de divulgação de autores de língua portuguesa, destacando escritores angolanos e portugueses, tem como finalidade revisitar por meio da leitura colectiva de extractos das respectivas obras e biografias, conduzida por um núcleo criado na Biblioteca Camões que conta com a participação activa de jovens, principalmente estudantes universitários e pré-universitários.

Em dois dias de cada mês, com, ou sem, a presença do autor, a obra e a biografia do escolhido são revisitadas e analisadas, segundo o programa, que este mês seleccionou a poetisa portuguesa para ser analisada por estudantes de várias escolas de Luanda.

Para a jornalista e escritora portuguesa Maria Teresa Horta, de 81 anos, “Florbela seduz-nos hoje, com a inquietude das sensitivas, com o enigma contido dos sentimentos excessivos, a ardência do coração, a desobediência do corpo feminino, com a entrega desabrigada e perecível de quem sabe ter vindo demasiado cedo à própria vida.

Desesperada e desiludida. Como ela mesma confessou: ‘batalho continuamente, por um ideal que não existe e esta constante exaltação orna-me desesperada e desiludida’”, lê-se no comunicado do Camões.
Florbela Espanca foi uma autora polifacetada que escreveu poesia, contos, um diário e epístolas. Traduziu vários romances e colaborou ao longo da sua vida em revistas e jornais de diversa índole. A sua poesia é quase sempre em forma de soneto, a que ela deve a fama e o reconhecimento.

A temática abordada é principalmente amorosa. O que preocupa mais a autora é o amor e os ingredientes que romanticamente lhe são inerentes como a solidão, tristeza, saudade, sedução, desejo e morte. A sua obra abrange também poemas de sentido patriótico, inclusive alguns em que é visível o seu patriotismo local: o soneto “No meu Alentejo” é uma glorificação da terra natal da autora.
Nasceu em Vila Viçosa no Alentejo, em Portugal, em 1894. Teve uma vida breve e intensa, a que pôs fim em 1930. A sua poesia foi marcada pelo erotismo. (Jornal de Angola)

 

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