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Eduardo Paim, músico e compositor: As confidências do precursor da Kizomba

Em véspera de celebrar o seu aniversário natalício, que se assinala hoje, Eduardo Paim Fernandes da Silva, ou simplesmente Eduardo Paim, abriu-nos as portas da sua casa, no Bairro Cassenda, para desvendar alguns pormenores da sua vida íntima. Nascido em Brazzaville, República do Congo, o “General Kambuengo”, seu pseudónimo artístico, é um homem fadado para a música.

Começou a cantar desde os sete anos. Desvendou-nos o segredo do uso do chapéu e dos sonhos que alimenta para o futuro. Ao longo da sua carreira revelou-se não só como intérprete e compositor, mas também como produtor musical de múltiplos recursos. É a figura responsável pela produção dos primeiros sucessos de artistas como Paulo Flores, Diabik, Clara Monteiro, Nelo Paim, Mamborró, Jacinto Tchipa, Moniz de Almeida e Ruca Van-Dúnem. Leia integralmente a entrevista.

Nos últimos tempos surgiram vários pseudónimos. Uns tratam-no como general e outros por marechal. Como é que gostaria que fosse chamado?

É verdade. Agora vale tudo. Desde general, marechal ou Kambuengo. Sinto-me feliz pelas diferentes formas que as pessoas encontraram para me tratar. Sinto-me particularmente lisonjeado pelo carinho como tenho sido tratado pelas pessoas em Angola e fora do país. Não me importo muito com os títulos.

O que seria do Eduardo Paim sem chapéu?

Na vida, nós vamos sempre criando formas de sermos qualquer coisa, com isto ou aquilo.

O chapéu foi qualquer coisa que comecei a usar num determinado momento da minha vida e que chamou a atenção, porque quase sempre eu me fazia acompanhar de boné. Obviamente,isso criou no seio das pessoas que me acompanhavam uma marca.

Não foi nada pensado, muito menos decidido por mim. Foi algo inesperado. Temos o hábito de,quando saímos de casa, levar sempre alguma coisa, e o chapéu é destes objectos a que me afeiçoei. Hoje já não consigo ir à rua sem boné. Portanto, o Eduardo Paim sem boné seria uma outra pessoa qualquer.

Já pensou em criar uma marca de chapéus com o seu nome?

Honestamente falando, já. Comecei a ganhar estímulos para isso durante o período em que a minha carreira musical passou a ficar intensa. Surgiram inúmeras pessoas que me aconselharam a criar uma marca de chapéus. Mas entre o querer e o fazer há sempre alguns entraves. Já pensei sim em criar a minha marca de bonés, mas nunca levei seriamente essa intenção. Talvez um dia poderei brindar os meus fãs com um projecto do género.

Diz-se à boca pequena que a música surgiu na sua vida por ser mais fácil e não por ser o seu maior talento. A música foi sempre a sua sina?

Sim. Acho que nasceu comigo. Acredito ter dado conta da minha apetência pela música aos sete anos. Aos oito anos de idade notei que a música estava a tomar conta da minha vida, pela forma como me envolvia. Havia uma atenção especial para a música. Foi nessa faixa etária que a minha mãe começou a acreditar que a música nasceu para mim.

Daí que me ofereceu uma guitarra. Comecei a fazer músicas que impressionavam os mais velhos, isto ainda na República do Congo-Brazzaville. Se visse alguém a cantar ou a tocar, rapidamente fixava os acordes. Lembro que do trajecto da escola à casa havia um acampamento japonês,em que todas as tardes faziam ensaios.

Todas as vezes que regressava da escola para casa os ensaios chamavam-me a atenção e obrigavam-me a parar durante horas, para ouvir e ver aquelas danças e músicas. Quando se tratasse de espectáculos de cantores africanos, não havia hora para regressar para casa, ao ponto da minha mãe sair de casa e procurar por mim. Portanto, o dom pela música é natural.

Foi só o descobrir e aprimorar. Mas quando é que surgiu o seu baptismo musical? Sabe que um trajecto destes tem sempre muitos marcos. Um dos primeiros marcos na minha carreira aconteceu no ano de 1976/77. Recordo ter participado, nesta época, de um grupo cultural da escola, já em Cabinda, na Escola Barão de Puna.

Tornei-me na figura que atraiu a atenção dos espectadores, por ser o mais novo do grupo e por ser o mais experiente. Esse espectáculo tinha como meta imitar músicos como Franco e outros nomes sonantes da música congolesa.

Tornei-me na figura principal, o que marcou-me bastante, porque converti-me numa marca. Em 1979, a coisa começou a tornar-se cada vez mais séria, aquando da morte do primeiro Presidente de Angola, Dr. António Agostinho Neto.

Decidi, na companhia de mais dois amigos, o Levi Marcelino e o Bruno Lara, fazer algo para o homenagear. Tanto o Levi como o Bruno não sabiam tocar guitarra e decidi dar aulas aos dois. Musicamos alguns poemas do livro “Sagrada Esperança” e fizemos uma apresentação televisiva, que teve um impacto impressionante.

Surgiram elogios e as pessoas pediram que não parássemos. Este trio veio denominar-se depois “Os Puros”. Porquê “Os Puros”? Na época discutimos pouco sobre o nome a dar ao trio. Na altura já frequentava a 7ª classe, na escola Nzinga Mbande, em Luanda.

Achávamos que não tínhamos outro objectivo senão dar um pouco de boa disposição às pessoas que nos quisessem ouvir. Por outro lado, era um trio cujos integrantes eram novos e genuínos, naturais. Tocávamos músicas à base de guitarra e flautas, entre outros instrumentos.

Não tínhamos a intenção de tornar o projecto comercial. Com o passar do tempo, o trio mudou com a integração de vozes femininas, que deram outro encanto ao grupo. Integraram o grupo a Balbina, que actualmente reside na Austrália, a Lúcia e a Bitó, que é minha tia. Faziam ainda parte a Edith, filha da conhecida Lourdes Van-Dúnem, a Armanda Fortes, hoje uma grande economista, e a Milú Sardinha.

“Os Puros” converteram-se num grupo de colegas de escola e família. Depois transitamos de classe e fomos para a escola Karl Marx Makarenko, hoje Instituto Médio Industrial de Luanda (IMIL). Aqui, gostaria de destacar o Carlos Ferreira (Cassé), que mais tarde veio a responsabilizar-se pela parte temática dos “Puros”, que mais tarde passou a denominar-se “SOS”.

PERFIL

NOME COMPLETO: Eduardo Paim Fernandes da Silva

DATA E LOCAL DE NASCIMENTO: 13 de Abril de 1964 Brazzaville, capital da República do Congo.

NOME DO PAI E DA MÃE: Abílio Fernandes da Silva e Maria de Sousa Paim.

ESTADO CIVIL: Vivo maritalmente.

ESPOSA: Isilda Gonçalves.

PASSATEMPO: Música.

MOTORIZADA: É um meio que nos ajuda a saborear a liberdade juntamente com a natureza. Porque pratico isso, normalmente para viagens de longas distâncias. Uma vez ou outra ando de mota na cidade. Mas gosto de sair de moto de Luanda para Caxito; Luanda-Benguela e Luanda-Namibe.

EQUIPA DE FUTEBOL: Não sou fanático, muito menos adepto de clube.

DESPORTO: Não pratico nenhuma modalidade.

MARCA DE PERFUME: Não tenho tempo para saber de marcas. Desde que cheire bem, para mim serve.

MARCA DE ROUPA: Não tenho. Visto o que acho bom para mim.

MARCA DE CARRO: Já tive preferências. Mas hoje, desde que funcione bem, dá para andar. Serve. Não sou muito afeiçoado a marcas.

ÍDOLOS: Tenho muitos. David Zé (Angola) e Bob Marley (Jamaica).

COR PREFERIDA: Castanha.

FONTE DE INSPIRAÇÃO: A vida.

DEFEITO: Teimosia.

VIRTUDE: Compreensão.

FILHOS: 4.

ESCREVE COM A MÃO ESQUERDA OU DIREITA: Direita. Já tentei com a mão esquerda e não resultou.

SONHOS: Assistir à consagração dos meus filhos e netos, com alguma saúde. (Jornal de Angola)

Por: Ferraz Neto

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