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Covid-19 é uma realidade nunca filme de ficção

O presidente do conselho directivo da Associação Angolana de Profissionais de Cinema e Audiovisual, Óscar Gil, afirmou que os profissionais do sector podem produzir filmes pedagógicos e micro-programas para sensibilizar e entreter os angolanos em tempo de combater o coronavírus que assola o mundo.

Afinal, qual é a finalidade da Aprocima?

A Aprocima – Associação Angolana de Profissionais de Cinema e Audiovisual é uma organização apolítica, sem fins lucrativos, tendo como fim social o desenvolvimento e a promoção da arte cinematográfica, teledramaturgia e audiovisual angolana, bem como a defesa dos direitos e interesses dos seus associados. Fundámos a Aprocima a 16 de Agosto de 2014, sendo registada no Segundo Cartório do Ministério da Justiça no dia 17 de Março de 2015. A associação é formada por todas as quatro gerações do cinema angolano, ou seja, junta “kotas” e jovens, desde profissionais da minha geração, passando pela geração do Tomás Ferreira, a do Manuel Tontón, e da mais recente em que se inserem os jovens da geração 80. Como vê, a Aprocima não exclui ninguém, antes pelo contrário…

Fala-nos do vosso plano estratégico?

A Aprocima dispõe de um plano estratégico para ser concretizado entre 2020 e 2023, período do nosso mandato. Deste plano, destaca-se a abertura de um canal de televisão “online”, por meio da nossa conta “Facebook”. Temos em vista a nomeação anual de um “embaixador ou embaixadora do cinema angolano” – uma personalidade idónea que interceda por nós junto de instituições nacionais e internacionais, quer públicas quer privadas; a institucionalização de cursos técnico-profissionais; o festival na-

cional de cinema, com a designação Fecina, a decorrer na cidade do Lubango, no âmbito do FENACULT, a nível da província da Huíla; solicitar ao Executivo a passagem da Aprocima para instituição de utilidade pública, entre outras acções.

Que relação tem com o Ministério da Cultura?

Infelizmente, a Aprocima não tem contado com o apoio do Ministério da Cultura, não somos conhecidos de forma oficial, pelo que envidaremos esforços para que a associação seja reconhecida como uma instituição de utilidade pública, embora estejamos registados já no Ministério da Justiça, desde 17 de Março de 2015.

Ao longo desses 45 anos de Angola independente o país teve apenas um encontro nacional de profissionais de cinema, que aconteceu em 2005, organizado pelo Minitério da Cultura. Mas, infelizmente, todas as deliberações saídas do mesmo encontro não passaram do papel. E, há mais de dez anos que da direcção do IACA nada faz em prol da sétima arte angolana.
O cinema é uma forma de arte, de cultura e de diplomacia paralela. O IACA deveria, na qualidade de órgão reitor do cinema nacional, auscultar e apoiar as associações no seu objecto social, ajudando a angariar financiamentos quer através da Lei do Mecenato, quer pela cooperação com organizações internacionais financiadoras da sétima arte.

É importante que se compreenda que uma associação é um grupo de pessoas que trabalha para o mesmo fim, de forma voluntária. Por isso, quem melhor do que uma associação para representar os interesses da classe profissional junto dos órgãos do Estado? Eis a questão.

Quais são as fontes de financiamento para manter activa a Aprocima?

A Aprocima, assim como todas as associações artísticas ou culturais, depende da quotização dos seus associados, mas o cumprimento desse dever não se faz sentir, o que dificulta o desempenho da associação. Embora a quota mensal seja mil kwanzas, os membros dificilmente pagam. Infelizmente, num ramo de actividade tão colectivo como é o cinema, lembrando que um indivíduo sozinho por muito bom que seja profissionalmente não consegue fazer um filme, o estado da nossa associação é o que temos vindo ao longo da entrevista a descrever: so-brevivemos graças à abnegação e persistência de meia dúzia de associados.

Daí que, aproveitamos, mais uma vez, para convidar todos os jovens a se inscreverem, obtendo a ficha na nossa página do Facebook (Aprocima Malta do Cinema), pois todos nós somos poucos para tão grande e nobre tarefa.

Crê na possibilidade do surgimento de uma indústria de cinema no país? Se sim, de que forma?

O cinema é uma arte bastante onerosa, pelo que deveria ser criado no Orçamento Geral do Estado um fundo de apoio para esta arte. As produções e co-produções com produtoras estrangeiras deveriam ser incentivadas para que Angola se torne num destino de filmagens à semelhança de Moçambique e Cabo Verde, temos bons cenários, temos sol em todos os meses do ano nas 18 províncias.

O Ministério da Cultura fundiu-se com o do Ambiente e Turismo e, desde terça-feira, tem novo titular. O que espera desta mudança?

Aproveito para felicitar a nova ministra, Adjany da Silva Freitas Costa. Trata-se de uma aposta jovem e nova no Ministério da Cultura, com visão, pelo que nos dá esperança que o sector vai ser remodelado, pois precisa de mentes mais frescas e pragmáticas para as artes e a cultura deixarem de caminhar como o “patinho feio”, tal como vínhamos a acompanhar há largas décadas. Ainda é cedo, contudo, para fazermos avaliações, mas aproveitamos para afirmar a nossa prontidão no sentido de apoiá-la no domínio do Cinema, e noutros campos das artes, vamos esperar para,a seu tempo, ver se somos tidos e achados para uma gestão colectiva e inclusiva.

“Não queremos que a doença se transforme em terror”

O mundo vive a pandemia da Covid-19, qual é a mensagem da Aprocima para os angolanos?
Cinema é um veículo de transmissão de mensagens, transmite valores, por isso é que o nosso lema (slogan) a nível da associação é: “Ci-nema amplia conhecimentos. Cinema desvenda outros universos!”.
Nós, direcção da Aprocima, julgamos ser um momento ímpar para se produzir telefilmes com carácter lúdico, ou didáctico, para serem difundidos nas redes sociais em todo o país, poderia ser cinema móvel, mas devemos evitar os aglomerados de pessoas. Optar por telefilmes é, neste momento, a solução, pois permite informar e transmitir mensagens sobre a prevenção sanitária, sensibilizar e mobilizar as pessoas para que conheçam os riscos dessa pandemia, tudo feito à distância.

Apelamos ao Executivo para que nos abra as portas para que nós, profissionais do ramo, possamos dar as nossas contribuições produzindo esses filmes, as lições (aulas) que ajudem os estudantes neste período de quarentena a estudar em casa. Devia-se lançar um concurso para que as produtoras pu-dessem apresentar propostas de conteúdos em colaboração com os Ministérios da Educação, Saúde e do responsável pela Comunicação Social.

Estamos prontos para produzir filmes pedagógicos, seria uma forma de desafiar, também, os nossos associados a fazerem curtas-metragens e animação sobre a Covid-19. Lançamos este desafio, pois estamos prontos para contrbuirmos nesta fase crítica e de guerra mundial contra o coronavírus. É também uma oportunidade para que adolescentes e jovens experimentem fazer filmes com telefones, cuja temática seja em torno da Covid-19.

Finalmente, alertamos aos angolanos que a Covid-19 não é um filme de ficção, é realidade e nós não queremos que a doença se transforme num filme de terror e drama nesta Angola já martirizada e devastada por guerras, endemias e epidemias, pelo que aconselhamos seguirem à risca todas as orientações do Executivo, em particular do Ministério da Saúde. (Jornal de Angola)

Por: Francisco Pedro

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