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Adeus ao colega Aleluia: Um velório preenchido com dor

O Velório da Polícia, na Calemba, encheu-se ontem de dor e comoção, no Adeus a António Ferreira Gonçalves, Aleluia. Ninguém quer acreditar que o “Avilão”, como era tratado, partiu tão cedo para a casa do Pai. A razão é muito simples: era um homem que podia esconder outras facetas, menos a vontade de viver e fazer o que mais gostava: escrever

Ricardo Gonçalves, de 11 anos, olha firme para a urna que guarda o corpo do pai. É um dos filhos mais novos de “Aleluia”. Não resiste à angústia provocada pela partida prematura daquele que tinha a missão de traçar e conduzir o seu futuro. Começa a lacrimejar.

Ao lado, estão parentes, adultos e aparentemente melhor preparados para lidar com o momento, que o podiam consolar, mas também não conseguem se conter. Não há força capaz de travar a dor pela perda de um ente querido.

Completamente inconsolados, põem-se todos aos prantos. O choro ecoa pela capela do velório, afecto à Polícia Nacional, onde o corpo é velado, e chega até ao quintal. Aqui, estão outros familiares, amigos e colegas de várias frentes por onde o malogrado passou, que, não se contendo, também começam a chorar.

Ninguém quer acreditar que o “Avilão”, como era tratado, partiu tão cedo para a casa do Pai. A razão é muito simples: era um homem que podia esconder outras facetas, menos a vontade de viver e fazer o que mais gostava: escrever.

Os leitores que se deleitaram a ler os últimos textos com a assinatura de António Ferreira, sobretudo, a entrevista a Ngouabi Mariano Salvador, intitulada “O nosso objectivo é a integração social”, por ser das mais recentes, provavelmente, não terão desconfiado que o autor estava a lutar pela vida.

Normalmente, quem está doente quer preocupar-se mais com a sua recuperação, mas com ele foi completamente diferente. Talvez para mostrar que nutria um amor incondicional ao Jornalismo, não parou de alimentar os seus leitores. Essa qualidade de António Ferreira “Aleluia” foi reiteradas vezes destacada, ontem, no funeral, por várias instituições do país e colegas com quem caminhou.

A vice-presidente do MPLA, Luísa Damião, considerou, na sua mensagem de condolências, enviada ao local, o jornalista um profissional que se notabilizou como servidor incansável, exemplo de abnegação e dedicação ao trabalho, características que, como sublinhou, o levaram a desempenhar, com brio e dedicação, cargos de destaque nas estruturas da empresa Edições Novembro.

“Com o seu passamento físico, Angola perde um intrépido jornalista de grande dimensão humana, afável no trato social, invulgar na simplicidade e com apurado sentido de humor”, destacou Luísa Damião, na sua mensagem de condolências.

A Edições Novembro, empresa de comunicação social, que detém, entre outros títulos, o Jornal de Angola e o Jornal dos Desportos, publicações onde Aleluia mais assinou textos, lembrou o seu trabalhador como alguém que era discreto, humilde, educado, extrovertido, dinâmico, proactivo e com fortes convicções na defesa dos interesses superiores da empresa, à qual dedicou a sua jovialidade, saber e inteligência, até aos últimos dias da sua vida.

“Nesta hora de incontida comoção, tristeza e profunda consternação, o Conselho de Administração e o colectivo de trabalhadores da Edições Novembro-EP., em nome de quem nos manifestamos, endereçam, aos familiares e amigos, as mais sentidas condolências”, lê-se no elogio fúnebre.

A Associação de Comunicólogos de Angola (ACAN) recordou António Ferreira “Aleluia” como um exímio docente universitário, por ter leccionado, com mestria, a cadeira de “Planeamento Gráfico e Editoração”, nas turmas do 4º ano de Jornalismo no Instituto Superior Politécnico Metropolitano de Angola.

A ACAN sublinhou o facto de, nas diferentes equipas de jurado em que participou, para avaliar trabalhos de fim de curso de licenciatura, não ter conseguido esconder a sua dimensão humana e um elevado sentido de humor. “Com a sua morte, a ACAN perde um dos mais versáteis e brilhantes conselheiros e mestres”, disse o seu presidente, André Sibi.

Para os ex-colegas do atletismo, uma modalidade também por ele praticada, Aleluia plantou, entre os que o rodeavam, a amizade, o sorriso que lhe era característico.

“A vida tem vários mistérios e o maior deles é, sem sombra de dúvidas, a morte, mas, para os que acreditam em Deus, estamos apenas no mundo da aprendizagem, em que a morte não é o fim e sim a viagem para a eternidade…”, realçam.

A Associação de Imprensa Desportiva Angolana (AIDA), organização por ele alimentada como um verdadeiro sacerdócio, lembrou o filiado Aleluia como aquele que representou o símbolo dos verdadeiros operários profundamente comprometidos com o labor, cujo valor de dignidade ao ser humano bem conhecia e exercitava.

“Com admirável mestria, passou o legado a um universo infindável de escribas, que hoje têm a graça de dizer, no silêncio da teimosia da morte, que foste um verdadeiro mágico na arte de conquistar simpatias. Esperamos contigo celebrar a vida na outra dimensão”, escreve a AIDA.

Na mesma mensagem, os jornalistas Carlos Calongo, Honorato Silva, Sílvio Capuepue, Silva Cacuti, José Sebastião, Anaximandro Magalhães, Bravo da Silva e Constantino Tito reconheceram o papel desempenhado pelo malogrado na carreira de cada um.

Na mensagem lida pela família, A. Ferreira, como também era tratado, foi apresentado como um homem de mil facetas, que dispensava apresentação e elogios.

“Com defeitos, tal como todos nós, ele nunca deixou ofuscar a sua grande figura, que, por onde quer que passasse, transbordava alegria e arrastava multidão, pela sua forma de ser brincalhão, chato, teimoso, super disparatado, ciumento, mas, acima de tudo, amigo dos seus e um verdadeiro companheiro”, destacam os familiares.

Durante o funeral, várias frases usadas por “Aleluia” foram lidas e uma delas chamou bastante atenção: “Viste ou ouviste? É boato! O artista nunca morre”. (Jornal de Angola)

Por: César Esteves

 

Aos 60 anos, “Aleluia”, como era conhecido nas lides do jornalismo desportivo angolano, foi responsável pela formação de jornalistas de várias gerações, com particular realce para os da Edições Novembro, onde se destacou como profissional de elevada categoria.

Em declarações ao Jornal de Angola, Baptista Moscavide, antigo treinador de basquetebol, hoje nas vestes de comentarista, mostrou-se consternado com o desaparecimento físico de Aleluia, tendo enaltecido as múltiplas facetas do malogrado, vencedor da nona edição do Prémio Nacional de Jornalismo, em Dezembro de 2015, na categoria de Imprensa.

“O Aleluia é seguramente uma figura incontornável do nosso jornalismo desportivo, um homem bom e honesto, uma pessoa com quem tive o privilégio de privar em várias coberturas internacionais, e não só. Portanto, tenho uma recordação muito grande dele, quer em campeonatos do mundo de andebol, de basquetebol, sem esquecer, como é evidente, os Afrobasket”.

O comentarista para o basquetebol fez, igualmente, alusão aos dotes culinários que Aleluia demonstrava nas mais variadas caravanas, das quais fez parte.

“Além de ser um profissional de elevada categoria no jornalismo desportivo, era igualmente um exímio cozinheiro. Quantas vezes, nós, profissionais da comunicação social, saboreámos a sua feijoada, que era sempre maravilhosa. O Aleluia foi sem sombras de dúvidas um bom companheiro, bom amigo e vai seguramente deixar muitas saudades”, finalizou.

Nelson Ventura, directoradjunto da Rádio Cinco, canal desportivo da Rádio Nacional de Angola, lembrou, com alguma nostalgia, os tempos de infância, lá pelas bandas do Cassenda.

“Quando o conheci, nem eu, nem ele sonhávamos ser jornalista. Lembro-me perfeitamente da loja do seu pai, o tio Gonçalves, que tinha, lá no Cassenda, onde ele já era um trabalhador dedicado. Jogámos juntos no bairro e, passados vários anos, voltamos a cruzar-nos já no mundo do jornalismo desportivo. Quando comecei, já ele tinha vários anos de prática. Fizemos várias coberturas internacionais. Outra particularidade do Aleluia foi na cozinha, onde era inigualável, além do seu humanismo. Era um homem de muitas facetas. Lembro-me dos Jogos Olímpicos de Sidney, em 2000, dos campeonatos do mundo de basquetebol, em 1994, no Canadá, na Argentina, em 1990; nos Campeonatos Africanos com o Arlindo Macedo, Humberto Jorge, também já falecido. O Aleluia era o nosso animador”.

Um dos melhores narradores de basquetebol do país, Nelson Ventura guarda na memória a última cobertura que efectuou com o malogrado.

“A nossa última cobertura foi no Campeonato Africano de basquetebol sénior masculino da Tunísia, em 2015, prova em que Angola ocupou o segundo lugar, sob comando do técnico espanhol Moncho Lopez. Depois da prova, partimos para Lisboa e fez questão que os colegas fossem para casa dele. Mais uma vez, passou a ser o cozinheiro. Guardo grandes memórias do Aleluia, uma figura incontornável do jornalismo desportivo angolano”.

Por seu turno, António Muaxilela, jornalista da Rádio Nacional de Angola, ainda incrédulo com o desaparecimento físico de Aleluia, recorda com enorme tristeza a partida prematura do jornalista.

“Para mim, o Aleluia foi sempre um grande amigo e companheiro. Era daquelas pessoas que tirava o último centavo para ajudar o próximo. O Aleluia, em várias missões desportivas no estrangeiro, foi sempre uma pessoa do topo. É difícil, nesta altura, recordar uma pessoa que foi sempre muito boa. Por isso, vai continuar a ser bem recordado por todos, colegas, amigos e parentes. Pessoa de trato fácil, de coração aberto. Penso que o Aleluia tinha tudo de bom. Se eu pudesse falar com ele nesta altura, e como falamos pela última vez, no final do mês de Maio, onde ele lamentava que nós, os amigos, havíamos o abandonado. Respondi-lhe prontamente que estávamos a fazer alguma coisa. Só que, infelizmente, não fomos a tempo, porque ele acabou por falecer. Fico com esta dívida para com o Aleluia”, lamentou.

António Rodrigues, antigo director da Rádio Cinco, partilhou, durante vários anos, a redacção da Voz da América com Aleluia. Considera-o professor de várias gerações.

“Todos nós, e uma geração posterior a dele, vimos nele um professor. Foi uma pessoa de fácil trato. Eu, particularmente, privei com ele, porque estivemos numa colaboração à Voz da América, onde fazíamos alguns programas desportivos. Isto foi após o processo eleitoral de 1992. Portanto, éramos os pivots e, nesta condição, privámos muito. Estivemos igualmente em várias coberturas internacionais. Foi um grande companheiro e, antes de destacar as suas qualidades como profissional da comunicação social, o Aleluia foi também um homem íntegro. Amigo dos amigos e, às vezes, até amigo dos inimigos , porque vivenciei algumas situações em que outras pessoas não dariam a mão para quem lhes tivesse feito mal. Mas o Aleluia era uma pessoa de perdão”, considerou.

NUNO CARNAVAL

Uma referência para as nossas memórias

Nuno Carnaval Secretário de Estado da Comunicação Social (Foto: Angop)

O secretário de Estado para a Comunicação Social, Nuno Carnaval, disse que António Ferreira “Aleluia” deixa um vivo testemunho da sua vivência, enquanto jornalista, desportista e dirigente associativo. Exortou às futuras gerações do Jornalismo a terem, como referência, as sua qualidades.

Nuno Carnaval ressaltou que Aleluia foi uma pessoa abnegada, alegre, que procurou sempre desenvolver as suas acções com sentimento e comprometimento patriótico.

“É esta referência que fica marcada nas nossas memórias”, acentuou.

Ai, se eu pudesse!…

…Se eu pudesse, Aleluia, não te deixava partir nesta última viagem rumo a lugar desconhecido, embora saiba que há muito quem pinte a vida para lá da morte com as cores do arco íris. Talvez tenham razão. Não sei. Na dúvida, que é minha, católico fugidio, retinha-te aqui, embora saiba que adoravas viajar, não andando muito longe da verdade se disser que foste o jornalista angolano que mais mundo conheceu desde a Independência.

Mas foi aqui, companheiro, que nos conhecemos e degustámos algumas das melhores coisas que a terra dá. Por isso, se eu pudesse… retinha-te aqui.

António Ferreira “Aleluia” foi, em minha opinião, uma das mais notáveis figuras que conheci na arte de fazer jornais – um óptimo comentador de andebol, um excelente narrador de basquetebol, escreveu ainda sobre hóquei em patins, atletismo e futebol sem maltratar os cânones, acumulando estas actividades com a tarefa de paginador voluntário e expert em publicidade.

Integrou a equipa do Jornal de Angola que fez a cobertura da participação dos Palancas Negras no Campeonato do Mundo de Futebol, realizado em 2006, na Alemanha, dando o seu contributo como jornalista, paginador e cozinheiro!, numa das mais extraordináriase completas coberturas jornalísticas de que há memória no País.

Recordando o que escrevi há uns tempos sobre os milhares de cidadãos e cidadãs, que, numa espécie de êxodo bíblico, todos os dias madrugavam para chegar a horas aos seus empregos, o que os obrigava a percorrer quilómetros sofridos por entre a linha do comboio desde Viana até à capital, há gente que é melhor do que a gente.

O Aleluia era uma dessas pessoas. Foi um dos grandes pilares do Jornal de Angola dos últimos trinta anos e, se eu pudesse, dava o seu nome a um espaço da Edições Novembro, EP.  Era justo. (JA)

Por: Manuel António

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