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Programa de reactivação do cultivo de algodão sem pernas para andar

Perde-se na poeira do tempo a época gloriosa da cotonicultura angolana (cultivo de algodão). Os investimentos públicos feitos no sentido de revitalizar o sector “encalharam” no Sumbe, município sede da província do Cuanza-Sul, onde o Estado despendeu, em 2011, dezenas de milhões de dólares num projecto piloto, na expectativa de incluir o também chamado “ouro branco” na grelha de produtos geradores de divisas.

Angola era ainda uma colónia, uma “província ultramarina” de Portugal, quando, em 1974, se posicionou no quarto lugar do ranking dos maiores produtores mundiais de algodão. Nessa altura não se sabia o que se sabe hoje: o país é, afinal, uma autêntica mina de “ouro branco”. Estudos recentes indicam que o cultivo de algodão, inicialmente circunscrito no litoral e  posteriormente estendido à Baixa de Cassanje, em Malanje, pode ser feito em todas as províncias.

Sobre o assunto, o engenheiro agrónomo Carlos Canza afirma que o potencial agroecológico do país para o cultivo de algodão divide-se em zonas de alto, médio e baixo potencial.
“O que significa dizer que o algodão pode ser cultivado em toda a extensão do território nacional,com maior rentabilidade nas zonas tradicionais de cultivo, com  destaque para a Baixa de Cassanje e algumas regiões das províncias do Cuanza-Sul e Benguela”.

É esta garantia científica, aliada ao histórico da primeira metade da década de 1970, período em que as safras de algodão caroço, no país, se situaram em 1970 em 81.555 toneladas, em 86.013 toneladas em 1971, em 48.434 toneladas em 1972, em  79.281 toneladas em 1973 e em  101.703 toneladas em 1974, o ano do apogeu, que levou o Executivo angolano a conceber uma estratégia para o relançamento da produção de algodão.

Em 2011, a pedido do Ministério da Agricultura, o consórcio “Angola Alliance” elaborou o que chamou “Estratégia Nacional de Revitalização Sustentável do Algodão”, um programa ambicioso, que tinha como meta a produção, num período de aproximadamente 10 anos, de 100 mil toneladas de fibra de algodão, com o concurso de agricultores familiares e comerciais, para vender à indústria têxtil nacional e exportar possíveis excedentes.

Era ministro da Agricultura o engenheiro agrónomo Afonso Pedro Canga quando foi concebido tão ambicioso programa que, decorridos 10 anos, não produziu senão um conjunto de infra-estruturas, que custaram ao país milhões de dólares, que o tempo e o abandono têm vindo a destruir, ano após ano.

Entre os equipamentos instalados no chamado “Perímetro Irrigado da Quipela” (área escolhida  para a implementação do projecto piloto), estão um centro de treinamento, oficinas de manutenção, armazéns, uma vila rural e escritórios, um investimento conjunto dos governos de Angola e Coreia do Sul de 30 milhões e 737 mil dólares, perto de metade do qual (14.756.000 dólares) suportado pelo Estado angolano.

A instalação dos equipamentos no que seria a experiência-piloto para o relançamento da cotonicultura no país (Perímetro Irrigado da Quipela), de acordo com o coordenador da “Estratégia Nacional de Revitalização Sustentável do Algodão”, Carlos Canza, ficou concluída em 2015 mas, “por razões administrativas”, até hoje os mesmos não foram testados, como estava inicialmente previsto.
Votado ao abandono, o “Perímetro Irrigado da Quipela” é hoje o que se pode chamar um “elefante branco”.  No local não se produz nada. Literalmente nada. Nem algodão nem outras culturas, como faz questão de sublinhar Carlos Canza.

Outra grande iniciativa para o relançamento da cotonicultura no país, a que vale a pena trazer à abordagem, foi anunciada, em 2017, pela Agência de Cooperação Internacional do Japão, que se propunha disponibilizar peritos para um estudo experimental na província de Malanje.

No quadro da cooperação técnica existente entre os dois países, o Japão mostrou disponibilidade para apoiar Angola na implementação de um estudo experimental para o cultivo de algodão, no Pólo Agrícola de Capanda, em Malanje.
A iniciativa previa, entre outras acções, ensaios de campo com variedades de algodão no sistema gota a gota, com o apoio de peritos internacionais, para ver a adaptabilidade e o rendimento de variedades de espécies de sementes de algodão e, consequentemente, determinar as que mais se adequam aos solos da região, num trabalho conjunto com o Instituto de Desenvolvimento
Agrário do Ministério da Agricultura.

O apoio do Japão previa, ainda, a aquisição de equipamentos de irrigação gota a gota, fertilizantes, sementes e prensagem de algodão. A cargo da empresa nipónica MARUBENI, o projecto, que começou com o levantamento da situação também parou, por razões que Carlos Canza afirma desconhecer.

Por razões também desconhecidas, vários projectos de iniciativa privada, anunciados para o relançamento do cultivo de algodão, em diferentes províncias do país, foram descontinuados.
O último anúncio de que se tem memória foi feito em Fevereiro deste ano, em Benguela, pela empresa zambiana Baobab Cotton Group, aquando da adjudicação a seu favor da gestão da fábrica África Têxtil.

Aliás, foi à África Têxtil para onde Carlos Canza remeteu o Jornal de Angola, quando interrogado sobre eventuais projectos para, definitivamente, relançar o cultivo de algodão no país e, por via disso, colocar a cotonicultura ao serviço da economia. “Contactem a fábrica África Têxtil em Benguela. Talvez esteja a fazer alguma coisa”, diz. Assim mesmo!

Aquando da passagem da gestão daquela unidade fabril do Estado para o privado, o novo gestor anunciou a intenção de investir na produção local de algodão, nos próximos tempos, tendo apontado as províncias de Benguela, Cuanza-Sul e Malanje como zonas preferenciais.Quando já deveriam estar a consumir algodão produzido localmente e, com isso, contribuir para o fomento da cotonicultura no país, África Têxtil, Textang II e Socotec, as três unidades fabris que configuram a indústria têxtil nacional, dependem de matéria-prima importada, com todas as desvantagens daí decorrentes.decorrentes.

Indústria têxtil salva “in extremis”
O relançamento da cotonicultura é parte de uma estratégia integrada do Executivo, inserida nos esforços para a redução das importações e de diversificação das fontes de captação de divisas. As iniciativas do Estado nesse sentido ocorreram quase em paralelo com a reabilitação e modernização de três fábricas têxteis existentes no país, num processo que, também, se sabe hoje, inquinado de irregularidades, segundo revelações do Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE).

Em finais de 2019, o Estado reverteu a seu favor as três fábricas, dois anos depois de terem sido privatizadas, num processo que viria a revelar-se lesivo ao Estado. A reabilitação e modernização das unidades fabris, nomeadamente África Têxtil, em Benguela; Textang II, em Luanda, e  Satec, no Dondo, com recurso a uma linha de crédito do Japão, custaram ao país, no global, cerca de 1,2 mil milhões de dólares.

De acordo com o Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado, foram detectadas irregularidades no processo de privatização dessas fábricas, que envolveram Joaquim David, antigo ministro da Geologia e Minas e da Indústria.
Segundo o IGAPE, em 2009, sob proposta do Ministério da Indústria, foi aprovado e publicado em Diário da República, I Série, de 13 de Março, um Programa Executivo do Sector da Indústria para o período 2009-2012, que inseriu os Projectos de Reabilitação da África Têxtil, ex-Satec e Textang II.

À luz deste Programa Executivo, o custo de reabilitação de cada uma destas unidades fabris rondaria os 50 milhões de dólares, sendo o financiamento concedido pelo JBIC, instituição financeira japonesa.

Entretanto, contrariamente ao estabelecido no programa, “o valor final dos três projectos superou dez vezes os montantes inicialmente previstos”. “Foi o Ministério da Geologia e Minas e da Indústria, cujo titular era Joaquim David, que organizou todo o processo de financiamento”, revelou o IGAPE, àquela altura.

Esclareceu que “o concurso público promovido pelo Ministério da Geologia e Minas e da Indústria, em 2010, não apurou qualquer entidade para gerir as fábricas têxteis”.

Desde a entrega das três fábricas às sociedades privadas, a África Têxtil produziu menos de 10 por cento da sua capacidade, a Textang II menos de cinco por cento e a ex-Satec zero por cento, de acordo com dados avançados pelo IGAPE.

Em Março de 2017, o Governo, após análise da situação das fábricas têxteis, decidiu retirar a sua posse às empresas privadas que as detinham. Posteriormente, como medida de esperança, o Governo formatou, em 2018, uma solução de privatização gradual, sujeitando-a, contudo, à reunião de um conjunto de requisitos prévios que as citadas sociedades não conseguiram cumprir.

Foi, pois, neste contexto, que os Ministérios das Finanças e da Indústria propuseram ao Titular do Poder Executivo a revogação dos Despachos Presidenciais números 108 a 110, de 2018, retirando a posse das três fábricas têxteis às sociedades privadas. As mesmas (sociedades privadas) detinham esse direito legal desde Setembro de 2013, promovido na sequência de um concurso público, concluiu o IGAPE.

Um olhar pelo retrovisor
O algodão não faz parte da flora nacional. Informações livrescas mostram que o produto foi introduzido em Angola em meados do século XVI, por colonos portugueses. Em 1872, Angola exportou 1.000 toneladas de algodão, mas o crescimento exponencial da produção só aconteceu a partir de meados da década de 60 do século passado, com as safras anuais a ascenderem a 10.000 toneladas.
Nos anos que antecederam a Independência Nacional, de 1970 a 1974, considerada a época gloriosa da cotonicultura em Angola, o país aumentou exponencialmente a sua produção, posicionando-se entre os maiores produtores mundiais.

A guerra que dilacerou o país, antes, durante e depois da Independência Nacional, em 1975, praticamente acabou com a produção de algodão no país. Antes da Independência, a província do Cuanza-Sul contava com uma área de cultivo estimada em 41 mil hectares, nos municípios do Sumbe, Seles, Libolo, Porto Amboim, Quilenda, Quibala, Amboim, Mussende e Conda, tendo atingido uma produção de quase 22 mil toneladas em 1973.
A província de Malanje foi, no entanto, a maior produtora no país. A Baixa de Cassanje, região que abarca, hoje, os municípios de Caombo, Marimba, Cundadya-Base, Quela e Massango, notabilizou-se pela quantidade e qualidade de algodão que colocava no mercado.

Peso da commodity  na economia global
Dados disponíveis mostram que o comércio mundial de algodão movimenta, anualmente, cerca de 12 biliões de dólares e envolve perto de 350 milhões de pessoas, sendo produzido em cerca 100 países.
Para muitos agricultores, nos países onde é produzido, a actividade é uma importante fonte de receitas. Antes do plantio, o mercado já movimenta vários segmentos, a começar pela comercialização de sementes, fertilizantes, maquinaria e combustíveis.

Para completar a chamada cadeia produtiva, depois da colheita vem a fiação, a tecelagem e a confecção, além dos subprodutos usados, entre outros, nos sectores de papel e celulose, indústria química, indústria de biodiesel, indústria de adubos e indústria de ração animal. (Jornal de Angola)

Por: André dos Anjos

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