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Operação Resgate: Um apelo à Nova Ordem Social e Económica nacional

A Operação Resgate começou bem e não causou desordem até agora. Trata-se de uma mega operação de regulação da circulação de pessoas e bens, nos aspectos comercial, cívico e de mobilidade. Pretende repor um ordenamento a uma capital que cresce desmesuradamente, sem regras urbanas universalmente aceites. A medida abrange mais de 7 milhões de habitantes de uma Luanda que devia ser cosmopolita. E não é! Infelizmente. O resto do país está igualmente sob a mesma medida.

A medida do Executivo é boa. Oportuna até. Salutar. Mas de duvidosa eficácia, a prazo, devido aos elevados custos operacionais e não só. O lado emergencial resolve o problema num ângulo imediatista.

A médio e longo prazos teremos que adoptar medidas profundas, que passam pelo ataque às causas do fenómeno, com reflexões profundas e acções mais realistas, sustentáveis e de efeito terapeûtico eficazes.
Temos de reflectir sobre os modelos económicos, sociais e estruturais da sociedade angolana. Temos de repensar os conceitos sobre os quais se baseiam a nossa sociedade.

Aspecto de uma cidade com necessidade urgente de regulamentar a circulação de pessoas e bens (Foto: D.R.)

A nível económico temos de ser incisivos na reflexão. Primeiro temos de admitir que a nossa pirâmide social está invertida, com um grupo de indivíduos a ditarem regras em benefício próprio e uma imensa maioria com as mãos entregues à caridade, sem outra alternativa que resulte em benefício próprio senão aquela derradeira opção de concentrar nas grandes cidades, particularmente na capital, a sobrevivência.

O interior do país é um enorme deserto. Sem estradas de acesso aos campos de produção, sem escolas suficientes e sem saúde adequada, não há paciência que  aguente o rosário de promessas políticas falhadas e sem sucesso. O campo invadiu a cidade e o resultado está à vista.

Alguém disse e não faltou à verdade, que as zonas agrícolas angolanas estão pejadas de meninas adolescentes com crianças ao colo e velhos que rejeitam a aventura dos grandes centros urbanos, onde a zunga é opção de sobrevivência.

Um cenário diário de risco e de sobrevivência em Luanda (Foto: D.R.)

Os rapazes partem para os centros urbanos e principalmente Luanda, a terra “prometida” dos negócios fáceis, de compra nos armazéns e venda na rua, com algum dinheiro emprestado. No terceiro mês volta-se à terra com algum para compra de espaço e moldar um futuro com a parceira e mãe adolescente, que, entretanto aguarda paciente, pelo retorno do salvador da famíia. Este é o retrato da luta pela sobrevivência em Angola.

Nas grandes cidades onde os gases e o vapor das fábricas adormeceu saem produtos manufacturados, aldrabados alguns que vagueiam pelas ruas de Luanda nas horas de ponta fomentando um negócio informal, de risco, de sobrevivência e de lucro fácil.

Retrato e romance do transporte público no dia a dia de Luanda (Foto: D.R.)

Pelas mãos de muitos zungueiros chega-nos a aldabrice, o logro em que todos nós caímos quando adquirimos, muitas vezes sem reflectir um produto made in China, importado com o suor dos dólares que nos escapam das mãos como manteiga, para engordar a carteira de falsários industriais, no chamado mundo civilizado, que continuam entre nós, a trocar ouro e diamantes com espelhos, missangas e vinho a granel com corantes nem conservantes e selo adulterado. A nossa guerra fez isto: minou os campos agrícolas e empurrou as populações para as cidades. Nada mais macabro do que a realidade que hoje vivemos.

As nossas fábricas que antes empregavam boa parte boa parte da população da periferia luandense, são hoje armazéns de roupa de fardo e produtos manufacturados de quinta categoria, alugados pelos eleitos das políticas de redimensionamento da Indústria dos Executivos anteriores, a estrangeiros que vêm a Angola, sob cobertura das políticas de investimento, que a nossa mídia apresenta com pompa e circunstância, com promessas de milhões. Que vergonha!

A venda ambulante exige perspicácia na arte de convencer o cliente a comprar gato por lebre. (Foto: D.R.)

Os terrenos alocados aos nacionais que foram convidados a apostar nas políticas industriais falhadas do Governo estão agora a ser retirados e a ser entregues, de mão beijada a estrangeiros que prometem investimento, mas que postos no local, aliciados pelas facilidades, acabam por envolver-se em esquemas de capitalização paralela, acabando na especulação financeira dos espaços a terceiros, exportando em moeda forte, livre de impostos, um capital adquirido na origem por empréstimo.

Nada mais fácil numa “república das bananas” como Angola, onde tudo para ter sucesso passa simplesmente por uma mediática exposição nos canais públicos de comunicação social. O resto é candonga e Angola sempre a crescer por ela.

O nosso Governo dirigido pelo Presidente João Lourenço quer acabar com isso. Por isso modelou esta campanha, muito aplaudida mas que necessita de outras capazes de galvanizar os agentes económicos, sobretudo as pequenas e médias empresas e uma banca comercial apelativa ao crédito, sem as peias burocráticas do costume e os argumentos de valor sem nexo.
VIDEO DO DEBATE LIVRE DA TV ZIMBO SOBRE A OPERAÇÃO RESGATE

Angola é ainda um país de pronto pagamento, onde o consumidor é obrigado a pagar, casa, carro, electrodomésticos, mobiliário, e outros utensílios domésticos. Os promotores industriais de pequenos e médios projectos foram mais uma vez “vitimizados” pelo Programa Angola Investe, ao verem os direitos açambarcados pelos titulares de cargos públicos, mesmo antes do lançamento público do Programa.

Resultado: quando o Angola Investe é lançado publicamente, os bancos comerciais, já não dispunham de dinheiro para emprestar aos verdadeiros promotores, que esgotaram, com a conivência do então Ministério da Economia, o valor das Garantias de Crédito então concedidas.

E hoje foi extinto não se sabendo que destino dar às pequenas e médias empresas que acreditaram na propaganda oficial do Governo, que, entretanto tem os bancos a anunciar crédito em condições francamente insustentáveis.

Aguarda-se pelo realismo político do Governo para resolver esta complicada questão que explica o caos em que caíu o modelo económico angolano, que está nas mãos de uma elite que é ao mesmo governante e exerce actividade económica em regime monopolista, numa política que é universalmente condenável numa economia de mercado.

Imagem degradante de familiares que dormem na rua para prestar apoio aos seus doentes. Agora são acoitados em quintais nas proximidades  dos hospitais(Foto: D.R.)

É preciso mudar o quadro com políticas realistas e de protecção às pequenas e médias empresas. São elas que dão emprego e geram desenvolvimento. No tempo colonial o agente económico Empresas pagava à semana, enquanto o agente económico Estado pagava ao mês.

E Angola tornou-se gigante económico em toda a região Austral, gerando produção e distribuição em larga escala. Com a independência, os políticos ganharam o poder e eles próprios tornaram-se empresários, controlando a economia em benefício próprio.

Por isso se explicam nesta e noutras situações, as restrições que o sistema financeiro internacional impõe a Angola, sobretudo na venda regular de moeda forte. É preciso mudar o paradigma e é isso que se espera do Presidente João Lourenço, cujas políticas de transformação têm sido vivamente aplaudidas local e internacionalmente. (Nováfrica)
Por: Albino Sampaio

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