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Política? Hoje não, joga o Benfica

Costa e Marques viram o jogo juntos, mas longe dos olhares indiscretos. Rangel, Melo e Marisa desapareceram. João Ferreira não parou — mas ouviu das boas

Portugal pode já não ser Fado. Talvez já não seja Fátima. Mas o ‘F’ de Futebol estará algures cravado no código genético do ‘tuga’. As eleições europeias já não mobilizam e então em dia de campeonato decidido em photo finish… bola, a política não entra. Paulo Rangel e Marisa Matias nem tentaram e cancelaram todas as ações. Não houve política a partir da hora do jogo, nem depois.

Pedro Marques não desistiu e insistiu num comício às nove da noite, quando já Luís Filipe Vieira elogiava a genitália (aconteceu mesmo) do treinador do Benfica. O resultado foi uma bola na trave: recebeu cerca de 300 pessoas numa sala com capacidade para mais do dobro mesmo tendo ido a campo com António Costa, Vieira da Silva e Pedro Silva Pereira.

Mesmo em Guimarães, cidade perfeita para qualquer não-benfiquista — não se ouviu um pio depois do jogo, quanto mais buzinadelas. Aqui manda o Vitória, não há cá clubes grandes e segundos clubes. Só João Ferreira, candidato do PCP, não parou os trabalhos à hora do jogo — e ouviu das boas por causa do coração verde e branco.

“PEDIMOS DESCULPA POR ESTA DEMORA, MAS…”

Pedro Marques foge da bola como quem foge da cruz. Certa vez, confessou a paixão pelo Benfica e nunca mais o largaram. Ainda a semana ia a meio e já todos os jornalistas que acompanham a caravana socialista sabiam: o candidato socialista ia ver o jogo decisivo longe de toda a gente.

Durante o almoço-comício em Viana do Castelo, António Costa não resistiu à referência e fez um trocadilho entre a disputa Benfica – Porto e as próximas eleições europeias. Disse o líder socialista que era importante não contar com a bola dentro da baliza antes do tempo, que é o mesmo que dizer para não contar com o voto dentro da urna. “Como no campeonato, estas eleições decidem-se até ao último minuto. Vamos ter de jogar minuto a minuto, sem deitar a toalha ao chão e sem nos deslumbrarmos com os resultados da sondagem. É isso que vamos ter de fazer durante a próxima semana. Lutar até ao último segundo pela vitória”, avisou o socialista. As sondagens contam, mas não decidem eleições.

Os dois — ponta de lança e capitão de equipa — viram o jogo juntos, em Felgueiras, ao lado do autarca local. Não houve cá jornalistas infiltrados, até porque a sobriedade é a marca de água escolhida por Pedro Marques. Tudo certo. Comitiva para um lado, comunicação social para outro, ponto de encontro no pavilhão de Vila Flor, em Guimarães, às 21 horas.

Passavam 45 minutos da hora e a voz do speaker, algo envergonhado, pedia “desculpa pela demora, mas…”. E lá começou a tocar o “Bella Ciao”, música escolhida para esta campanha. Não aos gritos, como costuma tocar, não em loop, mas de forma tímida, talvez para não acordar repentinamente os adeptos-militantes que se arrastaram até ao auditório. É tempo de ouvir os seis (!) oradores previstos.

NO POLITIC, NO PARTY

Os jornalistas que andam pelo país fora a acompanhar as carrinhas do PSD estavam avisados há dias: para a noite de sábado, não haveria planos. A agenda oficial foi cancelada e até a visita ao tradicional arraial minhoto na Quinta da Malafaia, em Braga, teve de ser adiada para domingo. Seja porque seria impossível atrair a atenção de potenciais eleitores numa noite de nervos ou porque é a própria comitiva que está tomada pela mesma ansiedade futebolística, a ordem foi clara: a agenda de sábado terminaria pelas 18h.

Não é que Paulo Rangel seja um adepto de futebol particularmente ferrenho, mas é portista e passará esta noite a ver o jogo em casa, junto de amigos, pela primeira vez esta semana longe da comitiva de ‘jotas’ e jornalistas que o têm rodeado em permanência. Quem com ele partilha o clube do coração mas não mostra grandes esperanças numa reviravolta de última hora é a número dois da lista, Lídia Pereira. “Sou otimista, mas [a vitória do Benfica] parece-me inevitável”, lamenta ao Expresso. Talvez por isso nem sequer faça questão de ver o jogo: irá ouvir o relato a caminho de Coimbra, sua terra natal, onde tem agenda de campanha prevista para domingo.

“EU BEM SEI QUE O SENHOR É BENFIQUISTA!”

Entre o Benfica-Santa Clara e o Porto-Sporting, não houve grandes dúvidas sobre qual jogo estaria a passar na tela colocada no pequeno hall de entrada do hotel em Santa Maria da Feira. Tanto Mota Soares como Raquel Vaz Pinto, ambos candidatos da lista do CDS às Europeias, são benfiquistas e foi o jogo dos encarnados que ‘ganhou’ o lugar na tela.
Já Nuno Melo aproveitou a pausa na já longa campanha para ir ter com a família e ver o jogo em casa. A última ação do partido este sábado foi uma visita à feira medieval de Oliveira de Azeméis e o regresso – agora com mais um título – será às nove da manhã de amanhã, na Póvoa de Varzim.
Ainda que a plateia do jogo fosse reduzida, e tivesse mais jornalistas do que jotas e candidatos ao Parlamento Europeu, cada um dos quatro golos foi alegremente festejado. E mesmo para os que não são assim tão adeptos do futebol – ou que preferiam que outro jogo estivesse a ser projetado no ecrã -, esta pausa na campanha, depois de percorridos mais de 2 mil quilómetros em sete dias, foi muito bem recebida.
Desde a manhã deste sábado que se falava no jogo. “Vocês deviam era andar com as bandeiras do Benfica! Eu bem sei que o senhor é benfiquista!”, disse logo de manhã a Nuno Melo um vendedor de roupa interior, no mercado de Ovar, enquanto o cabeça de lista às Europeias apontava para os vários modelos de cuecas dispostas de forma muito organizada para saber como corriam as vendas.

“OH, MA-RI-SA MA-TIIIIAS, OH, MA-RI-SA MA-TIIIIAS, OH, MA-RI-SA MA-TIIIIAS”

É certamente o partido do arco parlamentar que menos entra em futebóis. Perguntar aos assessores do partido ou a alguns dirigentes de topo quem são os destacados bloquistas mais apanhados da bola é fraca pescaria: leva quase sempre à evocação do falecido João Semedo, cujo benfiquismo era conhecido como coisa sanguínea.

Entre os poucos políticos do Bloco que são conhecidos por terem no coração também um emblema, estão curiosamente os primeiros da lista ao Parlamento Europeu. O nº 2, José Gusmão, sportinguista dos sete costados; e a nº 1, Marisa Matias, cujo benfiquismo assumido já em tempo lhe deu um pequeno dissabor. A cabeça de lista do Bloco, que viaja na noite deste sábado para a Madeira, onde no domingo prosseguirá a campanha, só tem uma certeza: não irá ver o jogo num local público, contou ao Expresso. Nessa hora, estará em casa a fazer a mala, e “vai tentar ver”, mas não garante. Já do resultado é seguro que estará a par.

Um dirigente bloquista que irá na razão inversa das potenciais alegrias de Marisa é Pedro Filipe Soares (adepto do FC Porto). Natural de Aveiro, veio a Lisboa ao almoço do Pavilhão Atlântico e na hora do jogo estará em viagem, contou ao Expresso.

Mas apesar de a campanha de Marisa não entrar no futebol, este tem muita força e acabou por entrar na campanha de Marisa. Por um lado, pela voz de Catarina Martins. Como que refém da atmosfera destes dias com a bola a saltar, acabou por proclamar Marisa tetracampeã. Ou não tivesse dito que a cabeça de lista do Bloco às europeias é “a campeã do clima; a campeã dos direitos humanos; a campeão da luta contra o privilégio; e a campeã da luta por quem trabalha”.

Minutos depois, na Sala Tejo do Pavilhão Atlântico, onde decorreu o almoço do Bloco, pareciam ecoar os cânticos de uma claque de futebol (mas bem comportada). Quando a eurodeputada foi chamada ao palco, levantou-se um milhar de pessoas, com as bandeiras no ar, a cantar: “Oh, Ma-ri-sa Ma-tiiiias, Oh, Ma-ri-sa Ma-tiiiias, Oh, Ma-ri-sa Ma-tiiiias”. Assim mesmo, como num estádio perto de si.

“AZUL DE CDU, HOJE NÃO. SÓ QUERO VERMELHO. HÁ LÁ COR MAIS BONITA?”

“Camarada, está bom? Quer distribuir uns panfletos?”, pergunta um elemento da comitiva que se vira para um militante do PCP, que se encontra sentado num banco de jardim em frente à Câmara de Alcochete. “Obrigada, mas não. Estou velho, já corri muitos com papéis. Sou militante há mais de 50 anos, mas dou agora a minha vez a outros. E depois quero ver daqui a bocado o jogo” responde, entre risos, António Alves, de 72 anos. Ao lado, manifesta-se logo uma jovem pronta para ajudar.

Falta pouco mais de meia hora para o início da arruada da CDU por Alcochete e já marcam presença no ponto de encontro, no Largo de São João, algumas dezenas de militantes e simpatizantes da Coligação Democrática Unitária (PCP-PEV). Fazem-se testes de som, distribuem-se bandeiras, panfletos e trocam-se cumprimentos.

“Segura aí!”, exclama outra militante. “Uma bandeira azul de CDU, hoje não. Só quero vermelho. Há lá cor mais bonita?”, questiona Henrique Infante da Câmara, deputado da CDU na Assembleia Municipal de Alcochete. “Pega tu na azul, que tens mau gosto ao nível de clubes. Eu fico com a vermelha e daqui a nada saio daqui rumo ao Estádio da Luz para agarrar noutra bandeira encarnada”. A frase soa que nem um alarme e vários batem palmas. “Ora, claro. O vermelho é a cor mais linda que existe – a cor do Benfica e do PCP”, diz um simpatizante.

“Nada disso. Não se esqueçam que no Marquês de Pombal vocês estão sempre subjugados ao leão da estátua. Vais ver que nem vão ter festa hoje”, responde outro simpatizante do Partido Comunista, em jeito de ironia.

Chega entretanto João Ferreira, o cabeça de lista da CDU para as eleições europeias. E o desfile arranca pouco depois pelas ruas de Alcochete para contacto com a população. O eurodeputado pára em esplanadas de cafés, entra em lojas e entrega panfletos aos trausentes. Todos desejam-lhe boa sorte, mas João Ferreira insiste: “Eu não preciso de sorte, preciso de votos.” Pelo meio vêem-se já pessoas vestidas a rigor para o jogo do Benfica e depressa o tema do campeonato volta à baila.

“Cada um tem o seu gosto, mas eu sou do Sporting com muito orgulho. Já não preciso é de ir ao cardiologista”, responde, entre gargalhadas, uma senhora num cabeleireiro que também contou com a visita do candidato da CDU.

Já depois do almoço numa outra arruada em Almada, o vermelho do PCP confunde-se com o de vários adeptos do Benfica. Um deles chama sobretudo a atenção com o cachecol e o boné do SLB e a bandeira do PCP. “Sou 100% encarnado. Pelo Benfica desde que nasci e pelo Partido Comunista após o 25 de Abril”, confessa António Santos, de 80 anos.

Este militante comunista mostra-se ansioso com o desfile e o comício que se segue da CDU, mas também e sobretudo com o jogo dos encarnados frente ao Santa Clara. “Já pedi a um camarada para me guardar um lugar na Casa do Benfica aqui em Almada. É bom que o comício termine a tempo do início do jogo. Mas como o Jerónimo é também benfiquista sou capaz de ter sorte”, conclui. (Tribuna Expresso)

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