Andebol

«Dou mais valor a coisas que tinha por garantidas»

Da «maria rapaz» que gostava de jogar futebol nas ruas de Alcanena, Patrícia Rodrigues passou a fenómeno de precocidade no andebol, quando foi chamada à Seleção sénior aos 14 anos. O desafio era grande quando, como diz, «boa parte das jogadoras tinha a mesma idade da mãe». Mas a maior das provações estava ainda para chegar. Aos 17, lutando pela vida. Numa altura em que cada ser humano trava uma batalha para preservar a sua devido ao Covid-19, a ponta direita do Benfica recorda, em conversa com A BOLA, como um vírus a deixou sem andar e a pensar que o sonho no andebol se tinha desmoronado como castelo de cartas.

«Rija», como se descreve agora, aos 22 anos, a andebolista volta, porém, a viver em provação, já que viu adiada a cirurgia, agendada por estes dias, à entorse com rotura dos ligamentos cruzados no joelho esquerdo. «Nem sei quando serei operada. Diz o médico que o ligamento posterior poderá regenerar sozinho. Seja como for, o risco agora é muito grande», alerta Patrícia, baseando-se no maior desafio que a vida lhe pregou, há cinco anos, quando acabara de assinar contrato com os alemães do Blomberg Lippe e se preparava para a grande aventura, fora do ninho dos pais e do JAC Alcanena.

«Em fevereiro de 2015, fui com a Seleção sénior jogar um torneio particular a Angola e contraí um vírus que me paralisou completamente. Não no imediato. As minhas colegas começaram logo com vómitos e diarreia. Eu só comecei com sintomas já estávamos de regresso. Mas passaram. Em março fui convocada para um estágio das juniores A e os meus olhos começaram a inchar. Pensou-se ser conjuntivite, pus colírio e lá vim até Espanha, destino da minha viagem de finalistas», contou.

O pior estava para vir. «As minhas articulações começaram a inchar e eu a perder mobilidade a cada instante. Passei uma noite no hospital, em Espanha, até que os meus pais entenderam ser melhor voltar. Fiz a viagem sozinha e quando cheguei junto a eles já vinha numa cadeira de rodas. Não me mexia. Estava paralisada», relata com a voz de menina, revivendo o inferno passado.

Com uma «tia que é enfermeira» perto de casa, os pais da também lateral levaram-na para Santarém, onde ficou internada em parafernália de exames. «Fizeram testes a tudo e mais alguma coisa, mas ficava pior a cada dia. Não parava de inchar, edemas cada vez maiores, e paralisada. As dores eram horríveis. Fui transferida para Lisboa e fiquei internada três semanas no Hospital D. Estefânia. Diagnosticaram uma artrite reativa e com seringas tiravam-me líquido dos membros.

Desmaiei várias vezes. Levei muitas injeções de cortisona e medicação que nem eu própria sei. Estive sempre lúcida, foi horrível. Equacionaram salmonelas, água não potável que tivesse bebido ou saladas mal lavadas. Mas era impossível. Tivemos todos os cuidados. Ponderaram picada de mosquito», relatou, reconhecendo a «angústia» vivida pela mãe, que com ela ficou confinada à enfermaria. (A Bola)

Por: Célia Lourenço

Mostrar mais

Notícias relacionadas

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Close

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker