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Universal e os riscos da soberania angolana

A Universal do Brasil vai enviar para Angola, nas próximas semanas, 324 bispos e pastores brasileiros para substituírem os 330 bispos e pastores angolanos que assinaram um manifesto de 13 pontos no qual pedem a direcção da IURD Angola para respeitar às leis angolanas.

Nos últimos dias despoletou uma desavença, em Luanda, entre a liderança da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola, composta somente de bispos e pastores brasileiros, e um grupo de 330 bispos e pastores angolanos da mesma congregação que reclamam mudança de comportamento e atitude da respectiva liderança.

Vanguarda apurou os meandros do que ocorre na Universal em Angola, após cruzamento de fontes com a ala brasileira/angolana favorável a liderança do bispo brasileiro Honorilton Gonçalves (na foto), bem como com bispos e pastores do grupo dos 330.

Os argumentos dos prelados angolanos estão presentes num manifesto (ver abaixo) com alertas sobre situações que atentam contra as leis vigentes em Angola, incluindo a própria Constituição da República, como a castração obrigatória de pastores para não procriarem. Os que rejeitam não são permitidos contrair matrimónio. Esposas de pastores quando grávidas são obrigadas a esconderem-se do estado de mãe, para evitar expulsão da igreja.

Entre os argumentos do manifesto constam a evasão de divisas para o exterior, transferências ilícitas de capitais para o estrangeiro, lavagem de dinheiro, corrupção activa e passiva, desvios de fundos para empresas estranhas ao trabalho da igreja, racismo, discriminação social, venda do património adquirido com doações dos membros como dízimos e ofertas, etc.

O grupo dos 330 solicitou uma reunião a porta fechada com Honorilton Gonçalves, brasileiro responsável pela IURD no País, para apresentação do manifesto e sugerir correcções face as transgressões às leis angolanas que a igreja tem praticado. Após ler alguns dos treze pontos iniciais do manifesto, na presença do grupo, o responsável máximo da Universal desistiu de concluir e pediu que fosse reunir-se com Edir Macedo, dono da Universal.

Honorilton Gonçalves não mais regressou a sala de reuniões, apenas orientou os seguranças da igreja para escorraçarem os bispos e pastores angolanos do local. A coisa correu muito mal. O que era um problema interno acabou por vazar para a media, principalmente. Diante do sucedido, a IURD Brasil tomou cinco medidas drásticas.

Primeiro, emitiu um comunicado informando que os 330 bispos e pastores angolanos (no activo) “são ex-pastores desvinculados da instituição por desvio de moral e de condutas até criminosas” e que “a Igreja Universal em Angola continua mais forte do que nunca”.

O segundo passo foi convocar compulsivamente os pastores oriundos de famílias socialmente vulneráveis, e signatários do manifesto, para gravarem entrevistas afirmando que não sabiam o que estavam a assinar. As entrevistas são emitidas em programas televisivos da IURD.

Um terceiro passo e mais pesado, foi a IURD Brasil ter orientado a cada bispo responsável da Universal nos 27 estados (províncias) do Brasil para selecionar/indicar 12 pastores brasileiros, totalizando 324 missionários brasileiros, para virem a Angola substituir os 330 angolanos signatários do manifesto.

Todos os selecionados devem ter filhos e vir com estes para o nosso País, de modo a provar às autoridades angolanas que a igreja não é a favor da vasectomia (esterilização). Pastores brasileiros que possuem filhos e estavam de partida do Brasil, a contar de Dezembro corrente, para trabalhar em determinados países africanos, com realce para o Quénia, foram avisados que vão deslocar-se ao nosso País.

O grupo dos 330 vai ser expulso da Universal, paulatinamente, à medida que os 324 vindos do Brasil aterrarem em solo nacional – uma acção que se prevê desenvolver num horizonte máximo de três semanas. Nos próximos dias começam a chegar ao País centenas de bispos e pastores brasileiros para que o Brasil não perca o controlo da Universal no nosso País.

O quarto passo é considerado muito decisivo. Começou ontem em todas Universal instaladas em todo o território nacional a recolha de assinaturas dos membros em formulários intitulados “Manifesto dos Membros em Apoio à legitima Direcção da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola, sob a Liderança Mundial”.

Com as assinaturas recolhidas, e milhares ainda por recolher, Honorilton Gonçalves vai remetê-las anexada em carta às autoridades angolanas, a partir desta semana, para provar que os angolanos membros da igreja estão de acordo com a sua liderança e o grupo dos 330 está do lado errado da história da Universal em Angola.

As assinaturas serão remetidas aos ministérios da Cultura, da Justiça e Direitos Humanos, das Relações Exteriores, Comunicação Social e da Casa Civil do Presidente da República. A quinta medida de Honorilton Gonçalves foi o início ontem, domingo, de um jejum forçado de 40 aos bispos e pastores sob sua gestão, para que no período em causa nenhum dos prelados tenha acesso as redes sociais, a media tradicional e digital, uma vez que estes continuam a alimentar factos do ocorrido na Universal.

“O pastor que for apanhado a ter acesso às redes sociais, principalmente a conteúdos escritos ou vídeo sobre o que se passa na igreja e comentado pelos 330 bispos e pastores angolanos, pela media tradicional e digital, vai ser expulso da obra”, disse ao Vanguarda um pastor brasileiro que trabalha na direcção da Universal. A ideia é evitar que mais pastores sob controlo de Honorilton Gonçalves aliem-se ao grupo dos 330.

Evasão de divisas

Numa conversa disponível no Youtube entre os brasileiros Alfredo Paulo, antigo bispo responsável da IURD Portugal, e João Leite, antigo bispo responsável da IURD Angola, ambos afastados das respectivas lideranças por condutas consideradas imorais, o segundo diz ao primeiro que vai regressar a Angola (e Moçambique) para abrir sua igreja e que as receitas da IURD Angola sustenta(ra)m igrejas Universal em países da Europa, facto que foi uma marca durante a sua gestão em Angola.

O tema de evasão de divisas é um dos pontos do manifesto em causa. João Leite diz para Alfredo que tem provas que a actual liderança brasileira da igreja em Angola, sob gestão de Honorilton Gonçalves, continua a mandar expatriar divisas para países identificados.

O Vanguarda apurou que este é um dossiê sobre investigação junto dos órgãos da administração da justiça angolana, incluindo o Ministério Público, para que no devido tempo Honorilton Gonçalves possa justificar as razões de transferir ao exterior doações de angolanos a favor da igreja, bem como a venda de património cujos dinheiros terão ido para contas de particulares estranhos ao trabalho da congregação.

Os últimos meses têm sido sufocantes para a IURD Brasil na gestão de igrejas em África. Desde Outubro último que a IURD Brasil abriu mão da gestão da IURD São Tomé e Príncipe, agora sob gestão única e exclusiva dos são-tomenses. “Lá as coisas complicaram-se entre Setembro e Outubro a ponto da população invadir catedrais e destruí-las como consequência de Honorilton Gonçalves autorizar a prisão de um pastor de São Tomé e Príncipe na Costa do Marfim”, disse fonte da Universal.

Na edição do jornal Vanguarda de sexta-feira, 29 de Novembro, o jornalista António Pedro assina o artigo “Um exército de ocupação” onde alerta o governo a encarar com seriedade questões de soberania quando estão em causa a ingerência de costumes e hábitos culturais de estrangeiros, mas alheios a cultura angolana, quando estes entendem permanecer em Angola.

Situações anormais quando uma religião impõe aos seus sacerdotes esterilização para não procriação, quando em nome da fé impõe-se aos sacerdotes a angariação de doações na forma de dízimos e ofertas para sustentar no exterior determinados interesses instalados e extra Angola, perigam a soberania.

Despedir mais de 300 bispos e pastores angolanos para substituí-los por brasileiros em nome da fé, mas com interesses que estão claros (coisa que a própria IURD tentou fazer em Moçambique, mas não vincou porque o Parlamento do país do índico abriu inquérito para proteger os nacionais), é uma questão de soberania.

Uma corrente de angolanos ligados a Universal começou a mover-se desde hoje, segunda-feira, 02, junto do Ministério das Relações Exteriores para que orienta os consulados de Angola instalados no Brasil a não concederem vistos, nem mesmo de turistas, aos 324 bispos e pastores que a IURD Brasil vai mandar para Angola a partir desta semana.

A mesma corrente invoca questões de soberania nacional e questiona-se por que razão Moçambique, São Tomé e Príncipe, Madagáscar, cuja relevância no plano estratégico e diplomático é diferente da de Angola, mas conseguem colocar a IURD Brasil no devido lugar quando atenta contra os princípios da legislação dos respectivos países e… Angola é mansa.

O brasileiro Augusto de Oliveira, antigo bispo responsável da IURD Angola, gravou vídeo no último domingo, postado no Facebook, onde pede para os membros da Universal refletirem se a atitude dos 330 bispos e pastores angolanos é um grito da alma, de quem durante quase 30 anos admitiu humilhações no silêncio, ou se é rebelião. E pede contenção aos julgamentos feitos por membros aos angolanos.

O antigo presidente do conselho de administração da Universal em Angola, o angolano e bispo João Bartolomeu, postou um vídeo no Facebook, neste domingo, onde sugere diálogo para uma reconciliação, alertando que se a IURD Brasil levar o caso ao extremo não ganhará a causa e, definitivamente, perderá o controlo da igreja em Angola.

O Vanguarda não teve êxito até agora no contacto com Honorilton Gonçalves, que continua indisponível para rebater os 13 pontos do manifesto que originou a crivagem na Universal. Apenas o grupo dos 330 liderados pelo angolano bispo Valentim Luís está disponível para fornecer mais detalhes.

Caso São Tomé e Príncipe

Um pastor são-tomense de nome Ludumilo da Costa Veloso fora enviado pela Universal do seu país para a Costa do Marfim em trabalho missionário (os dois países são coordenados por Honorilton Gonçalves), onde, após 11 anos como pastor, manifestou-se contra a igreja criando um perfil falso no Facebook no qual denunciava atrocidades similares das que decorrem neste momento em Angola.

A Universal na Costa do Marfim apresentou queixa às autoridades e após os serviços de investigação desvendarem, o referido pastor foi preso. Consequentemente, a esposa que esta(va) grávida e com um filho menor nos braços, foi forçada pela IURD, sob orientação de Honorilton Gonçalves, a abandonar a casa onde viviam e a regressar para São Tomé e Príncipe sem ter direito de ver e despedir-se do esposo.

Ao chegar no seu país e reportado o caso, as organizações de direitos humanos e os órgãos de comunicação social naquele país lançaram uma campanha contra a IURD. A Assembleia Nacional (Parlamento) de São Tomé abriu uma comissão de inquérito para apurar o que se passara com seu cidadão.

Os deputados convocaram o bispo da IURD no país para responder diante da comissão de inquérito sobre o paradeiro de seu cidadão. O brasileiro Rangel Silva negou-se a comparecer enviando um representante, o que irritou os deputados são-tomenses do partido no poder e da oposição, com ameaças em adoptarem medidas coersivas e banirem a IURD do país.

Na segunda convocatória, o brasileiro Rangel da Silva compareceu explicando que não dependia da igreja soltar o pastor, mas das autoridades da Costa do Marfim. O Parlamento não concordou dizendo que a IURD podia retirar a queixa e estabeleceu sete dias para regresso do seu cidadão, caso contrário encerrariam a igreja no arquipélago.

Os alaridos da média local de que a IURD não podia libertar o pastor senão as autoridades são-tomenses, tiveram efeito negativo sobre a população que num movimento inexplicável partiu para a destruição das catedrais da Universal em todo o país, a polícia de choque foi incapaz de conter os ânimos dos nativos.

A revolta popular causou mortes e tensão diplomática entre São Tomé e Brasil. A IURD Brasil retirou da ilha todos pastores brasileiros e angolanos que por lá se encontravam a trabalhar. Hoje a igreja está sob gestão exclusiva dos são-tomenses, um dossiê que Honorilton Gonçalves geriu mal limitando-se a gravar vídeos, após a destruição/vandalização das catedrais, informando que a igreja não tinha meios para retirar a queixa para a soltura Ludumilo Veloso.

As 13 teses que assombram Honorilton Gonçalves

O manifesto dos 330 bispos e pastores da IURD Angola contém treze pontos sobre os quais incidem os motivos que levam a romper o vínculo funcional que ainda se mantém entre as IURD Angola e Brasil. Vanguarda não teve êxitos para ouvir Honorilton Gonçalves.

(1). A Igreja Universal do Reino de Deus é uma instituição religiosa de direito Angolano registada no Ministério da Justiça sob o número 26, reconhecida pelo Decreto Executivo n.° 31 B/92 de 17 de julho, I Série n.° 28 do Diário da República. Portanto, regida por estatutos próprios, pelas leis e pela Constituição da República de Angola.

(2). A sua missão, conforme os estatutos, é a pregação do evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo, prestar assistência espiritual e social à todas as famílias angolanas e não só.

(3). Para cumprir o referido objectivo tem, ao longo de 27 anos, recorrido a IURD – Brasil para o envio de missionários brasileiros, o que criou um vínculo espiritual com a IURD – Brasil e esta tem exercido a liderança e domínio absoluto da IURD – Angola.

(4). Tal domínio, referido no ponto anterior, é visível em todos os quadrantes da Igreja, desde os púlpitos à área administrativa, que tem se traduzido em actos discriminatórios, onde na maior parte das vezes o principal critério para se atribuir certas responsabilidades eclesiásticas e/ou administrativas é a nacionalidade brasileira.

(5). Já há alguns anos, a liderança brasileira tem manifestado atitudes, comportamentos e práticas que os Bispos, Pastores, Obreiros e membros angolanos não se reveem e nem concordam, tais como, a evasão de divisas para exterior.

(6). Nos últimos doze meses, a anterior e actual liderança brasileira por orientação do Bispo Edir Macedo tem forçado os Pastores solteiros e casados a submeterem-se a um procedimento cirúrgico de “esterilização”, tecnicamente conhecido como vasectomia que, são claras violações graves dos direitos humanos, da lei e da Constituição da República de Angola, práticas estas que são estranhas aos costumes da nossa realidade africana e angolana.

(7). A mesma liderança brasileira, sob orientação do Bispo Macedo, decidiu vender mais da metade do património da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola, sem prévia consulta aos Bispos, Pastores, Obreiros e membros angolanos.

(8). O referido património inclui residências e, terrenos que foram adquiridos e/ou construídos com os dízimos, ofertas e doações dos Bispos, Pastores, Obreiros e membros de Angola.

(9). Tal decisão do Bispo Macedo, em vender o património acima referido, foi transmitida em reunião secreta em Luanda, presidida pelo Bispo Honorilton Gonçalves, onde apenas alguns poucos pastores e bispos brasileiros participaram e nenhum Bispo/Pastor angolano teve acesso a tal reunião, nem sequer o representante legal da Igreja.

(10). Tal atitude da liderança brasileira é uma clara demonstração de: a) Que os objectivos deixaram de ser aqueles pelos quais a IURD – Angola os convidou, ou seja, a pregação do evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo; b) Traição à confiança que os membros, Obreiros, Pastores e Bispos angolanos depositaram a referida liderança.

(11). Diante de tais actos e pela gravidade dos mesmos, em respeito aos princípios da fé cristã, o corpo de Bispos e Pastores da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola decidiu, em fórum próprio, pôr fim a qualquer vínculo com a liderança brasileira e com a IURD – Brasil, pelo que, a mesma liderança deverá deixar o território nacional dentro dos prazos estabelecidos pelas autoridades migratórias.

(12). Em salvaguarda aos mais nobres ideais da nação, a partir desta data a Igreja Universal do Reino de Deus em Angola passa a ser liderada exclusivamente por Angolanos.

(13). Finalmente, pede calma aos Obreiros e membros da IURD Angola.

Direcção da Universal em Angola nega factos

Num comunicado divulgado há dias, a direcção da Universal no nosso País classificou de ex-pastores o grupo dos 330 bispos e pastores angolanos que assinaram o manifesto com treze pontos, explicando que os mesmos há muito foram expulsos da congregação por desvio de conduta. O facto é rejeitado dos prelados angolanos que garantem estão no activo.

Eis o teor na íntegra do comunicado da direcção da IURD Angola, sob liderança brasileira e assinado pelo bispo brasileiro António Pedro Correia da Silva, supervisor das igrejas espalhadas pelas 17 províncias do País:

“A Igreja Universal em Angola continua mais forte do que nunca, angolanos, brasileiros, moçambicanos, são-tomenses e de outras nacionalidades que fazem a Obra de Deus de Cabinda ao Cunene nos lugares mais remotos do país, repudiam a rede difamatória e mentirosa que se difundiu no dia de hoje 28/11/2019 através das redes sociais e media tradicional que de forma leviana informa o desvinculamento da igreja em Angola da liderança mundial.

A Igreja Universal em Angola sempre se pautou pela moralidade, respeito as autoridades constituídas e legislação vigente. Essa rede de mentiras arquitetadas por ex-pastores desvinculados da instituição por desvio de moral e de condutas até criminosas, com o único objetivo.

Terem sua ganância saciada. Continuamos unidos, Bispos, Pastores, obreiros, evangelistas e jovens, com o propósito firme de levar o Reino de Deus e expandir o evangelho aos quatro cantos do mundo. A IURD já está tomando as medidas judiciais cabíveis para responsabilizar os autores dessa rede difamatória.” (Vanguarda)

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