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Paulino Neto: “Os engenheiros angolanos têm a obrigação de contribuir com propostas concretas, ali onde a engenharia se faz presente e necessária”

O Bastonário da Ordem dos Engenheiros, Augusto Paulino Neto, fala do plano estratégico da ordem para 2021/2024. Aborda ainda o estado actual e dos desafios enfrentados pela ordem. Conheça a estratégia para adequar o colégio dos engenheiros face as demandas do século XXI bem como aos desafios impostos pela COVID-19.

Isto que estamos em vésperas de eleições, faça um balanço do ciclo 2017/20 quanto às principais actividades desenvolvidas?

Quando nos candidatamos em 2017, apresentamos aos nossos associados um programa com seis objectivos , desdobrados em 26 acções, todas elas alinhadas com o Plano Estratégico da Ordem. Das 26 acções prometidas cumprimos 22, três estão em curso e continuarão a fazer parte das nossas acções por estarem ligadas ao funcionamento normal da instituição.

Estamos a referir-nos mais concretamente ao Programa de Actualização Profissional – PAP, o combate à engenharia ilícita e à introdução da carteira profissional que lançar emos juntamente com o novo modelo de cartão de membro, aprovado na nossa Assembleia Geral extraordinária realizada em Outubro de 2019. Ficou uma por realizar a construção da nova sede cujo projecto executivo ficou concluído apenas em Setembro deste ano.

Conseguimos melhorar as condições de trabalho dos colégios na sede da Ordem, mediante uma estrutura funcional leve, ágil, eficiente e profissionalizada. Este é um processo que queremos contínuo, buscando sempre a qualidade total.

O tratamento dado aos nossos recursos humanos, tem melhorado de forma significativa quer nos aspectos profissionais, quer nos aspectos humanos, quer ainda nos aspectos ligados à sua formação continua e podemos dizer que temos hoje um ambiente de trabalho onde prevalece o espírito de interajuda e trabalho em equipa.

Desde 2017 temos estado a realizar seminários, palestras nas mais diversas especialidades da engenharia, bem como acções de formação visando a capacitação e actualização dos nossos membros. O Plano de Actividades e Orçamento passou a funcionar como uma ferramenta de gestão e tem nos permitido avaliar a taxa de execução da OEA em cada exercício e fazer os ajustes necessários, avaliando por comparação, o sucesso de cada Colégio e de toda a Ordem.

E o que mais foi feito?

Continuamos a criar as condições para que no Clube dos Engenheiros se institua uma plataforma para o desenvolvimento e promoção de negócios. A partir do Clube dos Engenheiros criamos o nosso programa de rádio, o programa Arte e Engenho que vai ao ar na Rádio Mais às sextas-feiras, das 10 às 11 horas com uma periodicidade quinzenal. Constituímos a Caixa Social dos Engenheiros de Angola – CASEA- uma plataforma para a instituição do Fundo de Pensões dos engenheiros.

E em relação aos programas públicos, estiveram envolvidos ou foram convidados a dar pareceres?

Estivemos envolvidos na Identificação de problemas nacionais e emissão de pareceres sobre projectos de desenvolvimento como o PIIM o PAC, a proposta de Decreto para o IPU, prestamos diversos trabalhos de assessoria técnica ao Tribunal provincial de Luanda e apresentamos, na Gala de 2019, o conceito de plano estratégico de desenvolvimento da Ilha de Luanda e o projecto de produção de adubos.

A nível externo subtemos a nossa candidatura e fomos aceites como membro da Federação Africana das Associações de Engenharia e membro afiliado da Federação Europeia das Associações de Engenharia.Neste momento está em curso a nossa adesão à Federação Mundial das Associações de Engenharia.

Qual foi a evolução do número de associados?

Em 2017 tínhamos registados 3.768 membros hoje temos 5.558 membros. Uma miscelânea interessante de engenheiros com mais de 30 anos de exercício da profissão e engenheiros recém-formados. A nossa base de dados tem vindo a ser permanentemente actualizada e a adesão à Ordem tem vindo a aumentar todos os anos a uma taxa, acima dos 10% prometidos em 2017

Vivemos um período de transparência e boa governanção, como isso foi aplicado em sua gestão na OEA?

Passamos a publicar no Jornal de Angola e no nosso site, o nosso relatório e contas de cada exercício, devidamente auditadas e este mesmo documento é distribuído por todos os membros que têm a sua situação junto da Ordem devidamente regularizada. Qualquer membro da Ordem que tenha a sua situação regularizada pode a qualquer momento solicitar informações sobre o funcionamento da Ordem.

Para além disso todos os meses reunimos o Conselho Directivo da Ordem, com participação não só dos membros do Conselho directivo, mas também dos Delegados provinciais e regionais da Ordem e temo nos submetido a fiscalização e controlo regular do Conselho Fiscal e da Auditoria Interna.

Qual é o actual quadro financeiro da OAE?

Saímos de um resultado negativo de cerca de 15 000 000,00 KZ em 2018 e fechamos 2019 com um resultado positivo de 4 125 000,00 KZ. O rácio de solvabilidade da Ordem em 2019 foi de 178%, uma autonomia financeira de 64% e uma rentabilidade dos capitais próprios de 8,6%.

Para o próximo ciclo governativo como pretendem de forma concreta resgatar a engenharia angolana?

O resgate passa por assumir a engenharia como uma profissão de risco e de confiança pública. Resgatar a engenharia angolana é reconhecer nos engenheiros angolanos a capacidade e a racionalidade que têm os engenheiros no momento de pensar e resolver problemas, ajustando as soluções à realidade angolana.

Os engenheiros angolanos têm a obrigação de contribuir com propostas concretas, ali onde a engenharia se faz presente e necessária, para que se atinjam os objectivos e as metas estabelecidas, colocando o seu saber ao serviço da sociedade angolana.

Para o efeito teremos que consolidar na Ordem as competências e Know- How para regular a profissão de Engenheiro tendo em vista os desafios do presente e do futuro, manter e consolidar o diálogo entre a Ordem e o Governo e apoiar continuamente na busca de soluções ajustadas à realidade nacional.

Entre outras acções vamos continuar a sugerir engenheiros altamente qualificados para comporem os quadros de administrações municipais, fornecendo suporte para o desenvolvimento do planeamento estratégico municipal, com vista a definir vocações económicas, estabelecer prioridades e atacá-las, optimizando os recursos públicos e melhorando a qualidade de vida das populações.

Este exercício vai exigir de nós que concluamos a base de dados e de acervo profissional da Ordem e se garanta a operacionalidade do Conselho de Gestores de Faculdades de Engenharia da OEA (CONGEFE) e do nosso Observatório Nacional de Infraestruturas (ONI).

Este órgão reúne especialistas na área de engenharia e noutras áreas , para analisar a conjuntura nacional e internacional, as tendências mundiais e sugerir políticas públicas que possam melhor aproveitar as oportunidades e neutralizar as ameaças ao desenvolvimento do país.

Em suma, o objectivo para os próximos anos é que a Ordem dos Engenheiros de Angola continue na liderança do resgate da engenharia angolana e na modernização e prestígio dos seus membros, consolidando ainda mais a sua posição de referência técnica e de interlocutor prioritário do poder público e da sociedade como um todo.

De que forma pretendem a sintonizar a OEA com as demandas do século XXI e os desafios da covid 19?

O primeiro passo será o de continuar com as melhorias na forma actual de organização e atuação da OEA, dar continuidade e fortalecer os processos e acções comprovadamente eficazes e continuar a aperfeiçoar e substituir aqueles considerados ineficazes ou desnecessários.

Teremos que continuar a inovar, abrindo novas áreas de atuação relacionadas com o momento económico, introduzindo processos e serviços efectivamente benéficos ao associado e à sociedade.

A nível do Programa de Actualização Profissional (PAP) e do Conselho de Estudo e Planeamento Estratégico (CEP), teremos que nos debruçar continuamente sobre temas como a 4a. Revolução Industrial, Indústria 4.0, Agroindústria, Soluções alternativas de Engenharia para sociedades em desenvolvimento, levantar e sugerir novas áreas de actuação relacionadas com o momento económico e social do País.

Importa referir que o CEP é composto pelos EX- Bastonários e ex-Vices da Ordem dos Engenheiros de Angola e integra engenheiros de reconhecida experiência e competência profissional especialmente convidados para o efeito.

Nestes tempos difíceis qual é a estratégia para consolidar, a situação financeira, administrativa e operacional, da OEA?

Deveremos continuar a trabalhar para aumentarmos não só o número de associados, mas também o número de membros que paguem regularmente as suas quotas. Para o efeito vamos reforçar o serviço de atendimento rápido ao Associado, para tornar mais ágil o atendimento de qualquer necessidade do mesmo, desde a inscrição às instruções para acesso aos benefícios como membro da Ordem.

Vamos também diversificar as fontes de recursos e promover acções e actividades com retorno financeiro positivo. No que respeita à área administrativa e operacional, vamos reforçar os princípios e ferramentas da gestão de qualidade, gestão à vista e modelo da excelência da gestão, para continuarmos a garantir maior engajamento dos colaboradores, definir actividades e responsabilidades, de forma a optimizarmos os apoios e os recursos existentes e garantir resultados mais efectivos aos associados e à comunidade.

Numa outra vertente, vamos acelerar a digitalização da OEA através da implementação de meios técnicos e tecnológicos para permitir a comunicação permanente e o trabalho colaborativo independentemente da localização geográfica, coisa que já temos vindo a fazer com mais frequência, no nosso Programa de actualização profissional

Fale-nos um pouco do plano estratégico para 2021/24

A Ordem é uma instituição que se quer perene e forte e isto é um exercício que tem de ser contínuo com base num plano estratégico dinâmico e a ser seguido por todos quantos assumirem funções de responsabilidade na Ordem.

O Plano Estratégico da Ordem prevê mobilizar recursos humanos e materiais , valorizá-los e utilizá-los de forma eficiente e racional, fomentar iniciativas de âmbito científico,conómico e cultural, através da realização de estudos/projectos de investigação e desenvolvimentos, desenvolver uma gestão eficiente e transparente, intensificar as relações e a cooperação com instituições de ensino superior e com empresas, organizar acções de formação , capacitação, actualização e de apoio aos membros, organizar estágios , prestar colaboração técnica e serviços especializados junto dos organismos públicos e privados,dinamizar transferências e utilização de tecnologia em benefício dos seus membros e da sociedade.

No nosso mandato temos a responsabilidade de fazer o que nos propusemos e deixar um legado que possa ser continuamente melhorado e continuado pelos nossos sucessores. Para o quadriénio 21-24 a execução do plano estratégico da Ordem está alicerçado em sete Objectivos fundamentais:

– Resgatar a engenharia angolana;

– Continuar a sintonizar a OEA com as demandas do século XXI e os desafios da COVID-19, avançando a partir dos inegáveis ganhos obtidos até o presente;

– Consolidar, a situação financeira, administrativa e operacional, da OEA;

– Continuar e consolidar a promoção da engenharia, e dos engenheiros a todos os níveis;

– Continuar a apoiar o profissional da engenharia, seja estudante, recém-formado, profissional no activo, em busca de trabalho ou reformado, manter a atenção e a proximidade dedicada a cada um dos membros, num processo de melhoria contínua;

– Continuar a dinamizar a instituição, com acções de impacto a curto, médio e longo prazos;

– Reforçar a imagem da OEA, alçando-a ao nível de referência máxima para assuntos de engenharia perante as entidades públicas e privadas e à comunidade em geral.

Países como EUA, Alemanha e outros, desenvolveram sua economia graças a engenharia aplicada em todos os sectores. Como Angola pode seguir o mesmo caminho e o que a OEA pode ou está a fazer?

Bastará reconhecer que ser engenheiro é ter a capacidade de transferir conhecimentos de qualidade para os sistemas produtivos de bens e de serviços. A Engenharia é indispensável para a ampliação das infraestruturas, para a melhoria da qualidade de serviços prestados à sociedade e para a resolução de problemas de carácter económico e social.

Os engenheiros estão presentes em praticamente todos os segmentos produtivos da vida nacional, por essa razão a profissão de engenheiro tem de ser dignificada quer nos aspectos éticos, quer nos aspectos profissionais, e este é mais um desafio que se coloca à Ordem e que exige que nos pautemos por cultivar nos associados um sentimento de unidade, a criação de uma perfeita identidade entre o associado e a OEA e fomentar um sentimento de propriedade, ou seja um sentimento de que a Ordem é uma Instituição que pertence a cada um dos seus membros.

Temos que interiorizar que a função típica dos engenheiros é resolver problemas. Resolver problemas com a convicção de que as buscas de soluções vão gerar certamente melhor qualidade de vida para os nossos concidadãos e oportunidades de negócios que podem contribuir para a diversificação da nossa economia.

Assim sendo temos de continuar a actuar para que os engenheiros ocupem posição de destaque na definição das grandes linhas de desenvolvimento do País, nomeadamente nas infraestruturas, na indústria, na agricultura, nas pescas, nos recursos naturais, na energia, nas tecnologias da informação e comunicação, no ambiente, na educação e na saúde.

Teremos que privilegiar as relações ao mais alto nível com as estruturas governamentais no sentido de apoiar a definição de políticas e organizar programas de actividades que conduzam ao desenvolvimento da engenharia e do País, num esforço constante, de diálogo com os membros e com entidades externas, na procura de projectos e de soluções de problemas.

A inovação está directamente associada a engenharia, que estratégia a OEA tem para promover jovens inovadores e seus trabalhos alguns dos quais já receberam prémios internacionais?

A Ordem vai trabalhar para consolidar o Programa Engenheiros do Futuro, com vista à promoção de encontros e debates periódicos sobre desafios e tendências da profissão, entre engenheiros já experientes e estudantes finalistas e implementar o Prêmio bi-anual “prestígio” da OEA, para reconhecer os profissionais, empresas e autoridades que se destacaram e/ou contribuíram no desenvolvimento da Engenharia e vai passar a ter no seu Programa de Orientação Profissional, o canal aberto continuamente, para dar sugestões de aperfeiçoamento profissional, encaminhamento de carreira, e para tirar dúvidas de ordem geral.

Vamos transformar o Escritório de Apoio Profissional (EAP) em Gabinete de Empreendedorismo e Desenvolvimento do Primeiro Negócio, em articulação com o Programa de Actualização Profissional (PAP).

Vamos ampliar a presença da OEA na comunicação social , com realce para o nosso programa de Rádio , visando à disseminação de conhecimento científico e a sensibilização da sociedade para a importância da engenharia e do trabalho do engenheiro, a influência da OEA nas decisões estratégicas do País relativas à área, buscando assento em todos os fóruns de debate, órgãos e entidades representativas, no âmbito nacional e internacional, tendo em vista fundamentalmente os avanços tecnológicos da 4.ª revolução industrial e privilegiar a utilização de meios modernos de comunicação, para mostrar à sociedade e às entidades públicas e privadas a importância estratégica da Engenharia e do Engenheiro para o bom funcionamento e desenvolvimento do País.

Que parcerias internacionais a OEA firmou até ao momento e que vantagens as mesmas prometem?

Temos protocolos e Termos de Reciprocidade com a Ordem dos Engenheiros de Portugal, a Ordem dos Engenheiros Técnicos de Portugal, a Confederação de Engenharia e Agronomia do Brasil ( CONFEA ) , Protocolos de Cooperação com o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Minas Gerais, Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Norte e com Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro.

Somos membro da Federação Das Associações Africanas de Engenharia (FAEO), onde estamos a liderar a implementação da plataforma das Associações de Engenharia dos países africanos que têm o português como língua oficial e somos membro afiliado da Federação Europeia das Associações de Engenharia ( FEANI).

Com a nossa admissão como Membro da FAEO a OEA, indicou 3 engenheiros angolanos para fazerem parte do Comité Africano de Jovens Engenheiros e 2 engenheiras para o Comité Africano das Mulheres Engenheiras e a 29 de Julho fomos indicado para ocupar a posição de membro do Comité Estratégico da FAEO, em representação dos Países africanos de língua oficial portuguesa. (Mercado)

Por: Inácio Sacandongo

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