AngolaDestaquesSaúde

Familiares abandonam doentes nos hospitais públicos

Doentes e abandonados pelos familiares. Esta é a realidade que enfrentam dezenas de pacientes internados nos hospitais públicos na capital do país. Sem certeza de regresso ao aconchego de um lar, e muitas vezes sem entender o comportamento dos ente-queridos, resta aos pacientes lutar contra a doença e o abalo emocional.

Há sete meses com “morada” no Hospital Geral de Luanda (HGL), Balai Marcelino, 59 anos, natural da província da Lunda Norte, pode ser encontrada na área de Internamento daquela instituição pública de saúde, onde foi parar transferida da área de Medicina Geral.

Segundo apurou o Luanda, Jornal Metropolitano, Balai Marcelino, que até então residia sozinha, deu entrada no banco de urgência do hospital levada pelos vizinhos na sequência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Devido ao estado débil de saúde que apresentava acabou internada, tendo recebido alta duas semanas depois. Entretanto, em função da ausência de familiares continua até hoje no HGL.

Meses antes de ter sido acometida pelo AVC, Balai Marcelino vivia com o esposo e os filhos no bairro Calemba II, que, entretanto, rumaram para a província da Lunda Norte. A partir do hospital, os vários contactos encetados para os localizar redundaram em fracasso. “Há muito tempo que não vejo a minha família, nem tenho nenhum contacto dela. Acredito que se até agora não me procuraram é por falta de condições financeiras, porque sempre tivemos bom relacionamento. Quando tivesse possibilidade viajava até ao Dundo ao encontro deles”, disse.

Embora não se canse de elogiar o atendimento que recebe no hospital, Balai Marcelino admitiu que tem sido difícil enfrentar a doença sem o apoio familiar. Enquanto isso, ocupa o tempo com as sessões de fisioterapia. Posteriormente, tenciona regressar ao bairro Kim Santos, no Dundo, sua terra natal. “Antes do AVC fazia os meus negócios e quando recuperar a saúde pretendo continuar a trabalhar”, assegurou.

Lembinha António, 25 anos, enfrenta praticamente a mesma realidade. Acamada no serviço de Medicina Geral desde Dezembro do ano passado, chegou ao HGL pelas mãos de agentes da Polícia Nacional. Lembinha António enfrenta uma patologia do fórum mental. Natural da República Democrática do Congo, a desfavor da paciente concorre também a barreira linguística.

Com Francisco António, 33 anos, morador no bairro 11 de Novembro, município de Belas, a situação é ainda mais inusitada. Acometido por paralisia nos membros inferiores e levado pela própria família, permanece há dois meses na área de Cirurgia do HGL, quase em situação de abandono.

“No início ainda apareciam… Não sei como fazer para contactar os meus familiares ou ir ao encontro deles. Acho que muitos nem sabem que estou aqui”, lamentou Francisco António.

LISTA INCLUI MENORES DE IDADE No Hospital Geral dos Cajueiros, município do Cazenga, entre os pacientes carentes de contacto familiar está um adolescente de 14 anos, que deu entrada no dia 24 de Setembro de 2019, em consequência de um acidente de viação.

De lá para cá, permaneceu em recuperação na área de Cirurgia. O menor já tentou localizar os parentes que residem, sobretudo nos municípios do Cazenga e de Viana, mas sem sucesso.

Histórias de abandono familiar abrangem o Hospital Sanatório de Luanda, no bairro Palanca. Num dos corredores, encontramos pacientes que alegam não ter contacto algum com os familiares há vários anos.

Domingos Cândido, 35 anos, natural da província do Bengo, até a data do internamento residia no bairro Vidrul, município de Cacuaco. Levado ao Sanatório por um desconhecido, padece de tuberculose, supostamente associada ao vírus da Sida.

“Trabalhava numa empresa, mas, passados alguns meses, fiquei doente durante vários dias, o meu estado era frágil e instável”, disse.

Além do abandono familiar, Domingos Cândido lida ainda com uma deficiência que lhe provoca imensas dificuldades na fala. Ele resume a falta que sente da família com uma única palavra: “saudade”.

No hospital Sanatório, outros dois pacientes convivem com a incerteza quanto o regresso ao aconchego de um lar. Rodonne Lopes da Silva, 48 anos, recebe cuidados médicos há dois meses, enquanto Alberto Lopes deu entrada há pouco mais de um mês. Ambos lutam contra a dor da doença e o abalo emocional do abandono familiar.

Tratamento contínuo

A assistente social do Hospital Geral dos Cajueiros, Inês Verónica Bengue, afirmou que o fenómeno é cada vez mais recorrente em pacientes que necessitam de cuidados e tratamento médico contínuo.

“As pessoas vêem, são acolhidas e tratadas, mas às vezes a família não os quer de volta à casa”, disse, ressaltando que para os pacientes fica difícil lidar com a doença e dar seguimento ao tratamento.

Inês Verónica Bengue referiu que tem havido dificuldades para localizar os familiares por falta de identificação do paciente e outras formas de localização, pois na maioria dos casos os familiares não deixam nenhum meio de contacto e nem regressam.

“Por falta de identificação dos pacientes e outros meios de contacto, tem sido difícil localizar os seus familiares. No hospital dos Cajueiros, por exemplo, alguns pacientes já foram, inclusive, anunciados nos órgãos de comunicação social, mas nem assim os familiares apareceram”, lamentou.

Inês Verónica Bengue contou que tem sido difícil manter os pacientes por muito tempo nos hospitais e aproveitou para agradecer o apoio que o hospital recebe de instituições parceiras e associações de solidariedade.

“Além de enfrentar, conscientemente ou não, as consequências do abandono, esses pacientes correm o risco de contrair outras doenças. Precisamos de ajuda para continuar a nossa missão”, disse Inês Verónica Bengue, realçando que se tem estado a gizar um programa de acompanhamento psico-social aos pacientes.

De acordo com dados recolhidos pelo Luanda, Jornal Metropolitano, o Hospital Josina Machel acolhe 60 pacientes na condição de abandono familiar, o HGL 12, enquanto oito permanecem no Sanatório de Luanda. Grande parte destes são provenientes dos municípios de Belas e Cacuaco, distrito do Zango, e das províncias do Cuanza Norte e Benguela. Segundo apurou ainda este jornal, o ano passado, a área social do HGL reintegrou no seio familiar aproximadamente 80 pacientes.

Lisete Tumba, assistente social no HGL declarou não encontrar justificação para o fenómeno, tendo em conta que é típico dos africanos cuidar dos doentes até as últimas consequências. A assistente social confirmou que tem teste-

munhado o internamento de doentes que depois são abandonados por familiares, desde pais, irmãos, filhos, tios e primos.

Lisete Tumba reconheceu que nem sempre tem sido fácil localizar e reintegrar os pacientes nas famílias e sublinhou que a crise financeira tem dificultado o exercício da acção social.

“O trabalho social tem sofrido com o impacto da crise financeira. Felizmente, para reintegração dos pacientes, trabalhamos em parceria com instituições como as igrejas, administrações municipais, direcções provinciais de Saúde, eAcção Social, Família e Promoção da Mulher”, disse Lisete Tumba, que não deixou de reclamar do número insuficiente de assistentes sociais em efectivo serviço no hospital. (Metropolitano)

Por: Fula Martins

Mostrar mais

Notícias relacionadas

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Close

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker