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O fenómeno Afro-pop

A Nigéria é, talvez, um dos países mais corruptos do mundo. As notícias daquele país - o maior produtor de petróleo no continente - são sobre mais milhões encontrados em contas privadas no Ocidente de altos funcionários do Governo.

Ultimamente a Nigéria tem feito manchetes no mundo porque os seus músicos, expoentes máximos da música Afro-pop, estão a adquirir milhares e milhares de seguidores – até em lugares inesperados. Algumas semanas atrás estive em São Tomé e a história principal era que o músico nigeriano Davido tinha estado lá. O mundo ficou muito surpreso quando o mesmo Davido teve um concerto no Suriname, país nas Caraíbas de que poucos conheciam, onde apareceram dez mil pessoas que sabiam as letras de todas as músicas mais populares do artista.

O grande provedor de cinema, através de televisão a cabo, a Netflix, agora tem uma secção para filmes nigerianos e africanos. Diz-se muito que o grande potencial do continente africano é o seu povo; mas isto é um cliché – de uma forma, a maioria dos africanos são pobres, iletrados e vivem à margem da cultura global. Porém, os africanos têm uma cultura vibrante; estão agora a surgir filhos seus, talentosos, que estão a fundir os ritmos africanos com os outros de outras culturas e o resultado está a valer mais do que os tão cobiçados recursos do continente.

Na África do Sul, por exemplo, há o fenómeno da música Gqom, uma espécie de música electrónica com sons distintamente africanos. Outro dia ouvi, na BBC, uma entrevista, altamente comovente, em que um disc jockey sul-africano, que programa os sons de música Gqom, dizia que ficou muito surpreendido quando deu um show em Chicago e notou que a audiência era maioritariamente constituída por jovens brancos.

Este disc jockey produzia os seus sons num gueto sul-africano não imaginando que iria ser altamente apreciado por jovens brancos em subúrbios americanos. Já que os ritmos que estão a sair do continente africano estão a gerir grandes somas de dinheiro, as grandes produtoras musicais do mundo estão à procura dos Samuel Etto’s e George Weah’s da música africana. Infelizmente, os políticos africanos nem sempre entendem a complexidade dos fenómenos da música popular.

O ministro da Cultura da Nigéria ameaçou que o Estado iria proibir a difusão de todos os telediscos gravados no exterior; o ministro insistiu que os músicos deveriam é promover o país e a cultura local, etc. Cá está um caso clássico de alguém altamente limitado como ministro da Cultura.

(Houve um tempo em que o Quénia tinha sido um grande centro de produções de grandes filmes por causa das suas atraentes paisagens. O ministro da Cultura do então Governo de Arap Moi começou a intervir ao ponto de prevenir que artistas locais tivessem acesso ao processo de produção, porque iriam aprender como produzir filmes que não alinhassem com os interesses da elite no poder).

Na Nigéria, muitos criticaram a proposta do ministro da Cultura, que depois negou ter feito a sugestão em primeiro lugar. Os artistas nigerianos tornaram-se conhecidos porque faziam clipes de telediscos que animavam muitos no Ocidente. Havia, também, muita colaboração com artistas ocidentais. Fiquei surpreendido, pela positiva, quando, alguns meses atrás nos Estados Unidos, ouvi na rádio uma canção que tinha resultado de uma colaboração de um artista de música country e um músico nigeriano de Afro-pop.

Os artistas nigerianos estão a ter muito sucesso também por causa da vastíssima diáspora nigeriana no Ocidente. Naquele meu outro país, Zâmbia, há muitos músicos cuja carreira depende muito da sua popularidade na diáspora zambiana: há músicos zambianos que fazem uma digressão pelos Estados Unidos e voltam para o país, às vezes, com milhares e milhares de dólares.

No caso dos nigerianos, isto acontece a uma escala elevada. Estes artistas não deixam os seus dólares no Ocidente comprando casas matulonas ou jactos privados – muitos investem em estúdios e nas equipas de produção que estão por trás da sua fama. Muita gente no mundo já ouviu falar de Clarence Peters.

Este é um realizador de telediscos que transforma músicas em grandes sucessos. No passado, o músico na Nigéria era um indivíduo sem muitos recursos que cantava em festas de políticos a troco de algum dinheiro, etc. Agora já não é o caso: os músicos fazem parte de uma indústria que depende da habilidade de várias entidades no campo de produção, marketing, planeamento estratégico, gerência e até mesmo no campo jurídico.

Neste processo, todo o mundo faz algum dinheiro. Algo muito positivo deste fenómeno da Afro-pop é que não são só os nigerianos que estão a prosperar. Os Camarões, o Quénia e mesmo a Tanzânia estão a produzir artistas com muita qualidade.

Aqui não há músicos a quererem ser os Michael Jacksons do continente africano; aqui há jovens que absorveram várias manifestações musicais e estão a produzir algo singular. Por exemplo, muitos africanos gostam da música Ragga – uma espécie de um primo malandro adolescente da música Reggae; de repente surgiram várias versões deste tipo de música na Nigéria que está a provar ser muito popular nas Caraíbas.

Agora não é uma questão de um Michael Jackson ou Beyonce roubarem as grandes frases musicais do Kota Manu Dibango sem lhe dar um tostão; agora os jovens de Douala estão a transformar Michael Jackson numa versão irresistível nas pistas de dança de Miami, Nova Iorque, Los Angeles, Las Vegas.

E isto significa muito dinheiro. Só que muitos destes artistas não têm só andado com grandes produtores musicais; muitos deles também aprenderam que empregar um bom contabilista dá muitos rendimentos! (Jornal de Angola)

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