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Costa do Marfim: o caso Drogba e a sua impossível eleição à frente da FIF

Prevista para 23 de Março, a nomeação do novo presidente da Federação de Futebol da Costa do Marfim foi novamente adiada. Desta vez, são os textos que enquadram as candidaturas que colocam o problema. Ao fundo: a hostilidade de alguns clubes em relação ao ex-atacante.

Esta é a história de uma novela que nunca acaba e que, a cada episódio, reserva sua série de melodramas e reviravoltas, sem medo de cair no vaudeville, ou seja, na vulgaridade. Na noite de 8 de Março, o Comité de Normalização da Federação Ivoiriense de Futebol (FIF) anunciou “a suspensão do processo eleitoral” previsto para 23 de Março, durante o qual, a FIF deveria conhecer a identidade do seu novo presidente.

Problema: esta eleição deveria ter ocorrido em 2020 e é justamente para tentar quebrar o impasse que a Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA) e a Confederação Africana de Futebol (CAF) criaram um comité de normalização, que de facto substituiu o Comitê Executivo da Federação. Desde então, clubes e candidatos lutam, sem conseguirem encontrar uma solução, sem que a intervenção da CAF e da FIFA tenha surtido efeito.

VEJAMOS OS ANTECEDENTES

No dia 14 de Novembro de 2019, Didier Drogba multiplicou-se em declarações que não deixaram a menor dúvida: o ex-capitão dos Elefantes seria candidato à sucessão de Augustin Sidy Diallo à frente da Federação de Futebol da Costa do Marfim (FIF).

Eugène Diomandé ter-se-á sentido um pouco menos sozinho. O presidente do Séwé Sport de San Pedro foi o primeiro a anunciar oficialmente a sua candidatura à eleição para a presidência da Federação Marfinense de Futebol (FIF), prevista para o primeiro semestre de 2020.

Desde aquela quinta-feira, 14 de Novembro, Didier Drogba, 41 deixou de estar em dúvida. O ex-capitão dos Elefantes (106 internacionalizações, 65 golos entre 2002 e 2014) levantou as últimas questões sobre uma candidatura que ele próprio tinha considerado em Agosto passado. “Estou aqui para iniciar uma mudança, não para me enriquecer na Federação, porque decidi investir no futebol local, num país que amo”, declarou.

Desenvolvimento do futebol marfinense

Didier Drogba pronunciou estas poucas frases alguns minutos depois de se encontrar com representantes dos clubes da terceira divisão em Abidjan, que fazem parte do colégio eleitoral. Numa quinta-feira, no Sofitel Hôtel Ivoire em Cocody, o ex-atacante do Olympique de Marseille e do Chelsea organizou um encontro com os clubes da Ligue 1 e Ligue 2.

DROGBA PODE TRAZER ALGO INOVADOR

“Se ele está lá, não é à toa. Ele já faz campanha e provavelmente seria bom se fosse eleito, disse na ocasião, um dirigente de um clube da 1ª Liga em condição de anonimato. Drogba é um nome, mas também tem a vantagem de não precisar da federação para ganhar dinheiro. Ele tem o suficiente. Precisamos de alguém que possa desenvolver o futebol marfinense, porque há muito tempo que nada, ou quase nada, foi feito”, resume.

Salif Bictogo, presidente do Stella Club de Adjamé (Ligue 2), acredita por sua vez que “Drogba pode trazer algo inovador. Ele só precisa estar bem rodeado, porque os verdadeiros líderes são aqueles que sabem delegar”.

Diallo, alvo de críticas

Augustin Sidy Diallo ainda não tinha ainda anunciado se concorreria a um terceiro mandato na liderança do futebol marfinense. O líder é alvo de muitas críticas da maioria dos jogadores de futebol da Costa do Marfim. Era censurado pelo seu imobilismo, má gestão financeira, e também por ter enriquecido pessoalmente.

Entretanto, em Abidjan, Drogba apresenta o projecto “Renascença” aos eleitores, centrado em cinco temas principais: o enquadramento legal e regulamentar da prática, os jogadores de futebol, as infra-estruturas, a gestão da indústria e o desenvolvimento da medicina do futebol.

Será que Didier Drogba poderá concorrer à presidência da Federação de Futebol da Costa do Marfim?

Agosto de 2020

Na disputa pela presidência da FIF, a ficha do ex-atacante do Olympique de Marselha está dividida, apesar da popularidade e do intenso lobby no mais alto nível do estado. Nos bastidores de uma partida mal iniciada.

Em 10 de agosto, Didier Drogba pensou ter marcado um ponto decisivo na batalha que trava há muitos meses para conquistar a presidência da Federação de Futebol da Costa do Marfim (FIF). Sua ficha de inscrição acabava de ser validada pela comissão eleitoral da FIF.

No entanto, o ex-atacante do Olympique de Marseille e Elephants of Côte d’Ivoire ficou desiludido. Se pela primeira vez a comissão validou quatro candidaturas, incluindo a sua, em nome da “paz social”, ultrapassou as regras e os textos da Federação.

Patrocínios sob tensão

Didier Drogba não tem um elemento essencial: o patrocínio oficial de pelo menos um dos cinco “grupos de interesse” filiados à FIF. De acordo com a nossa informação, as tensões são grandes dentro deles, particularmente dentro da Associação de Futebolistas da Costa do Marfim (AFI) ou da Associação de Árbitros.

A AFI, liderada pelo presidente Cyrille Depri Domoraud, ofereceu seu apoio a um adversário de Didier Drogba, Idriss Diallo, que também obteve o patrocínio do Amicale des coaches.

Os outros três colégios (árbitros, ex-jogadores de futebol e médicos) escolheram Sory Diabaté , vice-presidente da FIF e candidato ao cargo cessante.

No entanto, ramos dissidentes, não reconhecidos pelo FIF, semearam dúvidas. Na AFI, sob o impulso do guarda-redes Stéphane Dimy , mas também no seio dos Amigos dos Árbitros, concederam assim um “patrocínio” alternativo (e portanto inútil) a Didier Drogba.

Fazendo lobby no Ouattara…

Enquanto o último dos candidatos, Paul Kouadio Koffi, não recebeu nenhum apoio, o ex-atacante da Costa do Marfim não carece de apoio potencial nos bastidores. Tem o ofício do ministro dos Desportos, Claude Paulin Danho, que foi acusado de ter interferido no processo ao sugerir aos membros da comissão eleitoral que validassem a sua candidatura. O interessado negou.

Acima de tudo, Drogba se encontrou com o próprio presidente Alassane Ouattara no final de 2019 e se reuniria com seu primeiro-ministro Amadou Gon Coulibaly a  8 de Julho – dia da sua morte  – à tarde.

O ex-internacional da Costa do Marfim também jogou com suas habilidades interpessoais no poder, tentando reunir Dominique Ouattara em sua causa em Outubro de 2019. A fundação de Didier Drogba costuma trabalhar com a da primeira-dama, Children Of Africa. Cauteloso, este último optou pela neutralidade.

… e Hamed Bakayoko

De acordo com nossas fontes, Hamed Bakayoko, o primeiro ministro,  entretanto aconselhou Drogba a se aproximar de Idriss Diallo. O ex-ministro da Defesa, amigo do futebolista, pleiteou assim a fusão das suas duas listas, com vista a bater Sory Diabaté.

Idriss Diallo é amigo íntimo de Hamed Bakayoko e há muito tempo é associado aos negócios com Didier Drogba. No entanto, os dois homens estão agora em desacordo e, portanto, nenhum acerto foi alcançado, com Drogba a recusar-se a fazer parte de uma lista comum. O caso do ex-jogador do Chelsea ainda está pendente.

Um adiamento após a eleição presidencial?

Nenhuma saída deve ser encontrada por várias semanas. A FIF esperava organizar a eleição por volta de 5 de setembro. Mas o presidente cessante Sidy Diallo, com base nos textos da organização, decidiu suspender a comissão eleitoral, cujos agora ex-membros foram recentemente alvo de acusações de corrupção.

A FIF TEME, EM CASO DE ADIAMENTO DA ELEIÇÃO, EXPOR-SE A UMA SANÇÃO DA FIFA

Sidy Diallo convocou uma assembleia geral da FIF em 29 de Agosto em Abidjan para estabelecer novos órgãos eleitorais. Mas o caso pode demorar mais do que o esperado: segundo nossas informações, o ministro dos Desportos dirige uma campanha de bastidores pelo adiamento da votação por vários meses, após as eleições presidenciais de 31 de Outubro.

A decisão provavelmente não seria sem consequências. A Fifa e a Confederação Africana de Futebol sancionam qualquer interferência do mundo político no acervo desportivo dos seus membros. Segundo indiscrições, a FIF teme, em caso de adiamento da eleição de seu presidente, expor-se a uma sanção. O objetivo do órgão dirigente do futebol da Costa do Marfim é, portanto, atualmente realizar seu escrutínio antes das eleições presidenciais.

TRAJECTÓRIA

Costa do Marfim: o dia em que Drogba se tornou uma lenda

A 6 de Maio de 2004, num estádio derretido do Velódromo, Didier Drogba marcou duas vezes contra o time inglês Newcastle United, permitindo que o Marselha se classificasse para a final da Copa da UEFA. Um desempenho que coloca o marfinense entre os melhores atacantes da Europa.

Na noite de 6 de Maio de 2004, o estádio Vélodrome viveu um daqueles momentos que marcam a história de um clube. O Olympique de Marseille acaba de vencer o Newcastle United por 2-0, graças a dois golos de Didier Drogba, comprados em Junho de 2003 ao Guingamp.

Este sucesso abre aos franceses as portas da final da Taça UEFA, antepassada da actual Liga Europa, e ao marfinense, internacional desde 8 de Setembro de 2002, as do campeonato inglês. Porque algumas semanas depois desta louca noite de Marselha, o atacante será transferido para a Chelsea, por 37,5 milhões de euros,  enquanto o jogador, adorado pelo público de Marselha, não está particularmente entusiasmado com a ideia de se juntar aos Blues, onde ele vai marcar 164 golos em nove temporadas (2004 a 2012 e 2014.

Um primeiro golo que o Marselha ainda se lembra

Antes desta partida contra o Newcastle, Drogba era assunto de manchete. Na primeira Liga, é claro, que ele terminará alguns dias depois com um total de 19 golos e duas assistências. Mas também no cenário europeu. O OM, classificado para a Liga dos Campeões, terminou em terceiro lugar na fase de grupos, à frente do Partizan de Belgrado (Sérvia), mas atrás do Real Madrid e do FC Porto de um certo José Mourinho, que conquistou o troféu antes de ir para… o Chelsea.

Arjen Robben, do Chelsea, à esquerda, número 16, comemora seu gol contra o Newcastle United com os companheiros Mateja Kezman e Didier Drogba, à direita, durante a partida de futebol da Premiership League em Stamford Bridge, Londres, sábado, 4 de dezembro de 2004 © REBECCA NADEN/AP/SIPA
Arjen Robben, do Chelsea, à esquerda, número 16, comemora seu gol contra o Newcastle United com os companheiros Mateja Kezman e Didier Drogba, à direita, durante a partida de futebol da Premiership League em Stamford Bridge, Londres, sábado, 4 de dezembro de 2004 © REBECCA NADEN/AP/SIPA

Drogba, que marcou cinco golos na Liga dos Campeões (C1), incluindo um retumbante hat-trick frente aos sérvios, vai continuar a sua colheita de golos na Taça UEFA. Ele permitiu que o OM eliminasse os ucranianos do Dnipropetrovsk (1-0, 0-0), marcou dois gols contra o Liverpool (1-1, 2-1) e a vitória no jogo de ida contra a Inter de Milão (1-0, 1- 0 no retorno). Em empate favorável após o 0-0 obtido no Saint James’s Park, o Marselha reforça um pouco mais a sua posição graças ao seu jogador marfinense.

FOI EUFORIA, EXPLOSÃO. UM DOS AMBIENTES MAIS BONITOS DO VÉLODROME”, LEMBRA SÉBASTIEN PEREZ

A 6 de Maio de 2004, após 15 minutos, num contra-ataque iniciado por Camel Meriem, Drogba, na luta com Aaron Hughes, eliminou o zagueiro dos Magpies graças a um chute de calcanhar para si mesmo e enganou Shay Given com um remate esquerdo um pouco achatado . “Neste gesto, há de tudo: força, técnica e compostura na finalização”, lembra Sébastien Perez, então zagueiro do OM.

O Marselha, ainda sob a ameaça de um gol que os eliminaria, finalmente voltará a contar com o seu atacante favorito, enquanto os ingleses pressionam para empatar. A oito minutos do apito final, Drogba retomou em força e na cobrança de pénalti uma cobrança de falta da direita de Laurent Batlles. (Jeune Afrique)

 

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