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China em África: Armas pela paz?

A liderança militar chinesa convidou os chefes dos exércitos africanos para Pequim, oficialmente para discutir missões de paz. Mas os especialistas dizem que a China persegue outros objetivos militares em África.

Em 2011, soldados chineses foram destacados para o continente africano pela primeira vez. Na altura, Pequim enviou uma fragata à costa líbia para ajudar na evacuação de 35 mil chineses do país então em guerra civil. Entretanto, a presença de soldados chineses tornou-se praticamente normal, pelo menos em partes do continente africano. Cerca de 2.000 militares chineses participam em missões dos capacetes azuis das Nações Unidas no Sudão do Sul e no Mali. Em 2017, a China abriu a sua primeira base militar estrangeira no Djibuti, estrategicamente localizado no Golfo de Aden.

Agora, o Governo chinês quer reforçar significativamente a cooperação militar com África. Para o efeito, o Ministério da Defesa da China convidou os chefes do exército africano para uma cimeira em Pequim, de 14 a 20 de julho. Uma reunião de altos funcionários militares e representantes do exército de quase todos os países africanos já tinha tido lugar em Pequim no ano passado. A julgar pelos comunicados de imprensa, o tema central do encontro é a paz.

Membros de um esquadrão especial do exército chinês treinam com a marinha da Tanzânia. Membros de um esquadrão especial do exército chinês treinam com a marinha da Tanzânia.

Fórum ganha importância

“A China coloca cada vez mais o foco na manutenção da paz”, diz Cobus van Staden, pesquisador do Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais (SAAIA). Até o nome da cimeira mudou. Ainda no ano passado, os africanos viajaram a Pequim para participar no “Fórum Chinês-Africano sobre Segurança e Defesa”. No convite deste ano nem aparece a palavra “defesa”, tendo sido substituída por “paz”. Mero simbolismo linguístico? Van Staden vê uma mudança nas prioridades chinesas no sentido de um maior empenho na manutenção da paz num continente com muitos conflitos.

Já a cientista política Lina Benabdallah não dá grande importância à alteração do título. Em 2018, os chineses organizaram uma primeira ronda de conversações para testar as possibilidades de cooperação. “Desta vez, haverá um fórum oficial com mais significado”, diz Benabdallah, especialista em política africana da China na Wake Forest University, nos Estados Unidos.

Objetivo: Assegurar os interesses económicos

Segundo Benabdallah, a principal preocupação da China é reforçar a sua presença em África. Por exemplo, através de uma maior cooperação com a União Africana, de mais formação policial e militar e de mais forças de manutenção da paz. A base militar em Djibuti também desempenha um papel central neste contexto.

Mas Djibuti não tem apenas importância militar para a China. O pequeno país no Golfo de Aden é também um centro estrategicamente importante para o projeto de prestígio económico do Presidente Xi Jinping, a Nova Rota da Seda. A nova linha ferroviária vai do porto de Djibuti a Addis Abeba, capital da Etiópia, e foi financiada e construída pela China. Está planeada uma única rede ferroviária que ligará todos os países da África Oriental. Duma coisa Lina Benabdallah tem a certeza: “A China também usará o fórum para salvaguardar os seus interesses económicos em África”.

Mais paz graças às armas?

Outro ponto fulcral da agenda: armas. Nos últimos anos, a China tornou-se um importante fornecedor de armas e equipamento para os exércitos africanos. Segundo Cobus van Staden, a Rússia continua a ser o primeiro exportador de armas em África, mas a China já ocupa o segundo lugar. Também Benabdallah considera que os asiáticos se querem posicionar como fornecedores de tecnologia militar moderna e barata. A comercialização de armas chinesas em África tem um travo amargo. Em 2018, o Presidente da China, Xi Jinping, declarou apoiar o objetivo da União Africana (UA) de silenciar as armas no continente até 2020.

Benabdallah salienta que outras potências, como a Rússia e os Estados Unidos, também estão a tentar afirmar os seus interesses militares e económicos em África. O que comporta perigos, mas também oportunidades. “Se os chefes de Estado africanos forem sábios, terão que velar por tomar as suas decisões o mais independentemente possível”, diz a cientista política. “Caso contrário, vão abrias as portas à ingerência externa”. (MSN)

Por: Martina Schwikowski

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